(Vicente Jorge Silva, in Público, 15/09/2019)
A possibilidade cada vez mais próxima, apesar das imprevisíveis incógnitas de última hora, de o PS conquistar a maioria absoluta nas legislativas de 6 de Outubro provoca naturalmente os sentimentos mais diversos, desde a satisfação plena dos militantes socialistas incondicionais até à decepção, o desencanto, a impotência dos que, identificados com outros partidos à esquerda ou à direita, se sentirão mais ou menos frustrados com esse resultado.
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Há, no entanto, outras categorias de eleitores que não se enquadram nesses sentimentos de identificação partidária mas cujo voto será determinante para o desfecho das eleições. Podem considerar-se mais à esquerda ou mais à direita, mas, no fundo, uma parte significativa deles irá votar (os que votarem, claro) em função do que consideram estar mais sintonizado com o momento que o país atravessa e as expectativas que se apresentam para o nosso futuro próximo, incluindo a conjuntura económica e política internacional. Ora esse voto flutuante pode favorecer desde a maioria absoluta do PS – a única previsível – até à aposta táctica noutras forças que permitam uma conjugação tipo “geringonça” ou semelhante, sem excluir os novos movimentos que propõem diferentes caminhos à direita.
Apesar da tendência crescente das sondagens em prever a maioria absoluta do PS, a importância do tal eleitorado flutuante parece ter-se tornado verdadeiramente decisiva, tendo até em conta, por exemplo, que nele se incluem votantes mais sintonizados afectivamente com a área socialista mas receosos dos eventuais “excessos” das maiorias absolutas (os tais “excessos” que os portugueses não gostam, como chegou a admitir António Costa numa entrevista e provocando uma reacção muito crispada de José Sócrates).
Sendo a flutuação aparentemente mais fácil entre as águas mais à esquerda do PS e as do Bloco, é natural que seja aí que a transferência de votos – num sentido ou noutro – se revele mais abundante. Isso explica, de resto, os sucessivos arrufos entre Catarina Martins e António Costa (que cultiva, pelo contrário, uma proximidade afectuosa com Jerónimo de Sousa) ou as recentes declarações de Catarina sobre as raízes sociais-democratas do Bloco. Mas há outro fenómeno que ameaça ganhar proporções inéditas entre o tal eleitorado flutuante: o PAN. É o partido que melhor tem conseguido impor a sua agenda nos debates (como aqueles que opuseram André Silva a Rui Rio e António Costa), escapando aos temas mais incómodos ou tradicionais, como a saúde e as questões económicas.
Outro aspecto relevante do fenómeno PAN é que, apesar das acusações de “fundamentalismo animalista” e de comportamento de seita que lhe são feitas, parece ser o voto mais pacífico para o eleitorado flutuante que encara com reservas a maioria absoluta do PS. António Costa não foi, aliás, indiferente a essa inclinação, quase elegendo o PAN como seu aliado preferencial, num cenário em que a velha “geringonça” seria dispensável.
A angústia da maioria absoluta está a condicionar o comportamento do eleitorado flutuante, em função da escolha dos partidos mais compatíveis e “aliáveis” com o inevitável vencedor das próximas eleições.
É um aviso à navegação (já à vista por esse mundo fora): com o crescimento do eleitorado flutuante, a tradição das escolhas democráticas e a identificação com os programas partidários tenderão a diluir-se em votos tácticos e de circunstância. Até ao momento em que se tornará indispensável reinventar a democracia – ou, como alternativa, a deixarmos agonizar num mero formalismo sem alma.



