As monoculturas como pensamento estratégico

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/09/2019)

Miguel Sousa Tavares

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1 Eis que regressou, via programa eleitoral do PSD, a arrastada discussão sobre a localização do Novo Aeroporto de Lisboa (NAL). Uma discussão que parecia consensualmente encerrada com a opção pela Portela+1 e o aproveitamento da pista militar do Montijo e as suas evidentes vantagens em relação à anterior opção, Alcochete: mais próxima, francamente mais barata e de mais rápida execução. Claro que, como qualquer aeroporto, o Montijo não deixa de implicar fortíssimos impactos ambientais, decorrentes da área abrangida, do ruído causado, dos acessos envolvidos e das populações afectadas. Mas, nesse aspecto, os danos ali causados são danos subtraídos a Lisboa, muito mais populosa, em virtude do número de operações de que a Portela ficará aliviada. Há ainda o caso particular das aves do Estuário do Tejo — um problema que também se punha em relação a Alcochete — e que o Estudo de Impacte Ambiental não ignora mas considera poder ser minimizado em termos aceitáveis. A escolha pelo Montijo poderia assim continuar a parecer pacífica se tudo isto fosse pacífico e não desse antes a sensação de um mundo submerso de interesses cruzados onde até os poucos especialistas que não estão arrolados pelos interesses conseguem ver absolutamente claro. Sabemos que a ANA prefere o Montijo porque lhe sairia muito mais caro ter de construir um aeroporto de raiz noutro lado qualquer e esta é mais uma ocasião para lamentarmos a privatização da ANA, feita por razões de pura demagogia ideológica e que agora nos impede de ver claro numa questão de interesse público determinante. É o que acontece quando os rapazes e raparigas das juventudes partidárias chegam ao poder, com algumas ideias vendidas nos cursos de Verão, e acham que se podem tomar decisões sobre a governação de um país alienando previamente os principais instrumentos necessários para tal.

Mas se é difícil ver claro sobre o céu do Montijo, eu vejo mais claro o que se diz sobre os céu de Lisboa. O NAL, dizem-nos, é absolutamente necessário e urgente para dar resposta ao fluxo expectável e sempre em crescendo, do número de turistas que esperamos que continuem a visitar-nos nos próximos anos, décadas e séculos, até ao fim dos tempos. Curiosamente, este é um argumento tanto dos que defendem o Montijo já como dos que defendem Alcochete logo: não se pode parar o crescimento do turismo, o que significaria, segundo António Costa, “comprometer fortemente a dinâmica de crescimento do país”. Eu oiço este discurso há 40 anos e foi em nome dele e da “dinâmica de crescimento do país” que assisti, por exemplo, à vandalização do Algarve. A aposta na quantidade não apenas descaracterizou quase toda uma região como obrigou necessariamente a uma estratégia de fuga em frente que fez baixar drasticamente a qualidade da oferta e da procura, sem, todavia, acarretar, longe disso, um correspondente aumento de receitas. Porque aquilo que se torna mau tem de se vender mais barato.

Felizmente, nos últimos anos — e muito mais por iniciativa privada do que por políticas públicas pensadas — a oferta turística em Portugal começou a contemplar outras geografias, outro tipo de produtos e, sobretudo, outro tipo de abordagens. Pelo país fora proliferam uma quantidade de iniciativas louváveis e de grande qualidade que, em muitos casos, têm sido uma bóia de salvação contra o abandono do interior. E seria de uma imensa má-fé não reconhecer o que o turismo fez de bom pela verdadeira reconstrução de cidades como Lisboa e Porto e algumas outras também, arrancadas de um marasmo que se diria imutável para sempre. Não tenho dúvida de que foi essa nova atitude, que soube aproveitar diversas circunstâncias externas favoráveis, que ajudou em grande parte o sector privado a aguentar-se no ground zero para que a falência do Estado o empurrou. Mas todos sabemos que há um preço a pagar e que em alguns casos, como o da habitação no centro das cidades, ele já está a ser pago. A menos que se acredite, como me dizia há tempos um taxista entusiasmado, que os habitantes de Lisboa e Porto deveriam ser todos expulsos para a periferia e as cidades deixadas só para os turistas e respectivos serviços de apoio, é óbvio que haverá cada vez mais um conflito latente entre os direitos dos cidadãos e as expectativas da indústria turística. O exemplo dos grandes paquetes carregados de turistas é um caso para meditação: ficamos todos contentes quando, num mesmo dia, quatro paquidermes flutuantes amarram em Lisboa e vomitam 20 mil turistas pela zona nobre da cidade, entupindo o trânsito e fazendo as delícias de taxistas, tuk-tuks e vendedores de souvenirs. Mas, no fim do dia, eles nem jantam nem dormem, a receita que deixam é mínima face ao transtorno que causam e à despesa feita pelo município para os receber, paga pelos impostos de quem cá vive. Vale a pena? Barcelona, Veneza, Dubrovnik, as ilhas gregas são exemplos, onde estive recentemente e onde nunca mais voltarei a não ser por razões de trabalho, de lugares outrora mágicos e hoje devastados por hordas de turistas vagueantes à procura da selfie perfeita, despejados como gado de charters e navios, tentando acreditar que estão em viagem e felizes. Bom, estão no seu direito. E quem os recebe e factura com eles, também. São direitos incontestáveis. Mas as cidades também são feitas de outras pessoas, não apenas turistas e comerciantes do turismo. No dia em que as ideias do meu taxista forem doutrina inquestionável (e já faltou mais) as cidades estarão mortas, os países estarão mortos. Seremos apenas uma Disneylância servida por aeroportos e portos para levar e trazer gente que não mora aqui.

Dêem-me todas as razões para um novo aeroporto, menos a da necessidade de ter de receber cada vez mais e mais turistas, sem fim à vista.


2 “Não há actividade humana que não provoque impactos sobre a natureza… O problema é que, reduzindo os riscos dos impactos ambientais a zero, não há alimentação para a Humanidade.” Não, esta frase não foi dita por Jair Bolsonaro para justificar a desmatação da Amazónia, a benefício dos criadores de gado e plantadores de soja. Mas podia muito bem ter sido dita, pois corresponde ao seu profundo pensamento em matéria de ambiente. Esta frase pertence a um responsável político de um partido oficialmente preocupado com as questões ambientais, de um país que se indigna com a destruição da Amazónia e a insensibilidade do Presidente brasileiro. A frase pertence ao nosso ministro da Agricultura, Capoulas Santos, e serviu-lhe para justificar a proliferação daquilo que se está tornar na monocultura do olival superintensivo no perímetro de rega do Alqueva. Rebatendo uma das várias críticas aos danos ambientais causados por essa monocutura — o uso abundante de herbicidas e pesticidas — sossegou-nos ainda o ministro dizendo que “o nosso país situa-se no espaço europeu, onde a utilização de pesticidas é mais restrita”. Anda muito distraído, o ministro! Este Verão, a UE não conseguiu impor aos Estados-membros, capturados pelas multinacionais do sector, uma alta significativa ao uso de pesticidas, apesar da divulgação de um relatório que estima em 75% o desaparecimento de insectos, em especial as abelhas, no território europeu, nos últimos 30 anos (o que cada um de nós pode constatar, lembrando e comparando a quantidade de insectos que dantes morriam durante uma viagem no pára-brisas dos carros e a que morre hoje). E, com a morte dos insectos, como relatava uma reportagem do “Le Monde” de há uma semana, estamos também a assistir ao desaparecimento acelerado dos pássaros nos céus da Europa, por falta de alimento. É lastimável que um ministro da Agricultura não perceba a relação íntima que existe entre agricultura e ambiente e que apenas nos países do Terceiro Mundo é que se faz agricultura a olhar só para a geração de hoje e à custa da destruição da natureza. É muito fácil ser-se ambientalista …no quintal do vizinho.

Ao contrário do que diz Mariana Matos, representante dos industriais do sector, não se trata de uma querela entre os “urbanos que querem ir passear para o campo aos fins-de-semana e os agricultores que têm de ser pobrezinhos”. Para começar, não estamos a falar de agricultores, mas de industriais de commodities: nenhum destes supostos agricultores é capaz de enxertar uma árvore ou podar uma oliveira, as máquinas e o computador fazem tudo por eles. Depois, pobrezinhos é que eles não são: além do Grupo Melo e o seu Oliveira da Serra, a maior parte deles são empresários espanhóis, triplamente ajudados pelos nossos impostos: na construção do Alqueva, no preço político da água e nos subsídios dados ao negócio. Não há aqui nenhuma querela entre urbanos e campesinos: há é entre quem se preocupa com o que se passa no campo e quem se acha dono absoluto dele. Deixem lá de nos imaginar assim tão ingénuos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia



A crise da Direita

(António Guerreiro, in Público, 13/09/2019)

António Guerreiro

(A Estátua não usa chapéu mas, se usasse, tiraria o seu chapéu a este texto. Excelente e a merecer reflexão cuidada.

Comentário da Estátua, 13/09/2019)


As análises do presente momento político-partidário, em Portugal, convergem geralmente no diagnóstico de que há uma crise ou até mesmo uma decomposição da Direita. É uma situação estranha porque a crise é uma tradição da Esquerda, inscrita aliás nas suas elaborações teóricas sob a forma de uma afinidade semântica — etimologicamente certificada — entre “crise” e “crítica”.

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Quando as noções de “Esquerda” e “Direita” desenhavam, com traços bem marcados, a paisagem política e proporcionavam uma visão totalizante, a Esquerda reivindicava legitimamente um lugar crítico (e, portanto, de crise), enquanto a Direita estava do lado das fundações mais perenes, voltada para uma cultura do enraizamento. Mas a Direita, entretanto, tornou-se “affairiste”, como dizem os franceses, isto é, integrou na sua doutrina o pragmatismo económico e o individualismo liberal, de maneira que ficou muito mais vulnerável às crises.

Esta recente crise da Direita, em Portugal, assim identificada pelos analistas, mostra uma situação muito mais complexa que não se deixa sintetizar na palavra “crise”; e mostra que é preciso politizar essa complexidade. Os nossos afectos políticos contemporâneos são marcados por tensões que já não são representáveis pelos partidos e pelos movimentos políticos que não tiveram a capacidade de interpretar a cartografia da paisagem política actual, de perceber que a polaridade única Esquerda-Direita recobre hoje uma multiplicidade de polaridades subjacentes que introduzem clivagens e nos fazem entrar em discussão no interior da nossa família política, mesmo a mais próxima. Falar da crise da Direita é continuar a conjugar a política no singular e insistir num confronto entre “governo” e “oposição” que já não é prioritário, como foi outrora. Mesmo um jornal como o Observador, que é talvez o lugar onde podemos observar com nitidez uma reconstrução ideológica da Direita, há tensões e polaridades visíveis, que têm que ver sobretudo com códigos e afinidades culturais e com políticas dos costumes. E um partido como o CDS (viu-se bem no episódio das “casas de banho”)  dissolve-se completamente nas suas contradições, ao querer rasurar as tensões internas que dilaceram o Partido: dele vêm simultaneamente as posições mais reaccionárias (no que diz respeito, por exemplo, a uma moral sexual e às questões do género) e os sinais envergonhados de que nada disso é a regra da vida interna e que até alguns dos seus dirigentes se envergonham com as declarações públicas de outros dirigentes e militantes.

Querendo rasurar as tensões e silenciar novas polaridades, os partidos afundam-se, ficam prisioneiros das palavras de sempre, que lhes moldaram o discurso desde a fundação. Enquanto o mundo tende para a crioulização, os partidos insistem em querer preservar uma “pureza” de fachada, como se permanecessem imunes a novas “correntes”, novas polaridades políticas, que implicam necessariamente um novo vocabulário que já não é o da política tradicional. Um vocabulário que não seja o da frustração e do rancor e que nos ajude a conceber de maneira diferente os problemas sempre diferentes de cada época. Crescimento, urgência das reformas, alívio fiscal, etc., etc.: tudo isto não é mais do que o consabido objecto de explorações demagógicas. Todas estas palavras que nos colonizaram, já só soam aos nossos ouvidos como estribilhos que ora nos fazem rir, ora nos suscitam a vontade de gritar: “Desaparece, deixa-me em paz!”.

Aquilo que os analistas hoje diagnosticam como uma crise da Direita não é senão a emergência de novas polaridades com as quais a Direita não está a conseguir lidar. O mesmo aconteceu, e continua a acontecer, à Esquerda, mas esta, como sabemos, já se pluralizou há muito tempo e tornou-se consubstancial à própria ideia de crise.

Uma cartografia actual das novas polaridades, das correntes e contra-correntes, mostrará que elas passam no interior dos partidos, que tentam anulá-las em vez de se adequarem a uma política das tensões. Agora, que as palavras “género” e “transgénero” designam uma das tensões vivas, talvez os partidos, que sempre foram instituições com um modelo homossexual clássico (não há nada mais clássico do que a homossexualidade) devessem tornar-se antes “transgénero”.


Livro de Recitações

“A classe média empobreceu e perdeu ‘o efeito amortecedor’ face a futuras crises” 
Título de uma entrevista ao sociólogo João Teixeira Lopes, in PÚBLICO8/9/2019

A classe média é um objecto-fetiche dos sociólogos, muito embora fiquemos sempre com a impressão de que nenhuma ciência consegue definir com rigor esse objecto. Ao excesso de presença sociológica da classe média, corresponde a sua falta de representação política. O que sabemos bem é que ninguém quer pertencer à classe média: aquilo a que todos os pobres aspiram é serem ricos sem terem de passar pelo grau intermédio, por um limbo desclassificado e desinteressante onde se situa a classe média. Esta, por sua vez, enquanto classe tardia, guarda ainda consigo a memória antiga da pobreza. Talvez por isso, um dos seus passatempos favoritos seja visitar os pobres na televisão, que é uma espécie de parque temático de pobres, para diversão e ilustração das classes medianas.

O Jornalixo de alta intensidade

(Rodrigo Sousa Castro, in Facebook, 12/09/2019)

(Ó JOÃO MIGUEL TAVARES
Umas “carícias” da PIDE – daquelas de “baixa intensidade” -, é o que estás a precisar, até porque não te faziam mal nenhum, não é verdade?

Comentário da Estátua)


João Miguel Tavares, um cidadão que teve os favores do Primeiro Ministro e do Presidente da República em duas distintas ocasiões, sabe-se lá porquê, classifica a ditadura de Salazar e Caetano como uma ditadura de “ baixa intensidade”. (Ver artigo aqui)

Não, não foi. A ditadura de Salazar e Caetano foi uma ditadura de longa duração, promoveu uma longa, impiedosa e injusta guerra em África que provocou muitos milhares de vitimas de ambos os lados, retaliações e massacres inauditos e por fim o drama da descolonização.

Na Metrópole como era assim chamada, promoveu uma censura férrea, o completo cerceamento das Liberdades que hoje felizmente usufruímos e colocou Portugal no plano internacional como uma Nação pária, incomoda até para os seus aliados.

A par disso, votou Portugal a uma situação económica e social degradante e bastava saber-se que à data da sua queda o analfabetismo atingia mais de 40% da população para definir a ditadura como um regime abjecto e sem remissão.

A ditadura tinha todos os mecanismos repressivos em acção e actualizados ; policia politica, aparelho de censura prévia, forças para- militares, tribunais de excepção, três campos de concentração ( Tarrafal, Ibo e São Nicolau), a espaços fazia um simulacro eleitoral, etc. etc.

Comentadores e articulistas como JMT preferem o branqueamento silencioso dessa nódoa que manchou a História contemporânea da nossa Pátria.

O branqueamento dos crimes da ditadura e da sua natureza contribui mais que outra qualquer atitude para facilitar a ideia de que afinal a ditadura não era assim tão má e que a Democracia pouco lhe adianta.
Não vejo forma mais cínica de um lobo vestir a pele de cordeiro