A crise da Direita

(António Guerreiro, in Público, 13/09/2019)

António Guerreiro

(A Estátua não usa chapéu mas, se usasse, tiraria o seu chapéu a este texto. Excelente e a merecer reflexão cuidada.

Comentário da Estátua, 13/09/2019)


As análises do presente momento político-partidário, em Portugal, convergem geralmente no diagnóstico de que há uma crise ou até mesmo uma decomposição da Direita. É uma situação estranha porque a crise é uma tradição da Esquerda, inscrita aliás nas suas elaborações teóricas sob a forma de uma afinidade semântica — etimologicamente certificada — entre “crise” e “crítica”.

Quando as noções de “Esquerda” e “Direita” desenhavam, com traços bem marcados, a paisagem política e proporcionavam uma visão totalizante, a Esquerda reivindicava legitimamente um lugar crítico (e, portanto, de crise), enquanto a Direita estava do lado das fundações mais perenes, voltada para uma cultura do enraizamento. Mas a Direita, entretanto, tornou-se “affairiste”, como dizem os franceses, isto é, integrou na sua doutrina o pragmatismo económico e o individualismo liberal, de maneira que ficou muito mais vulnerável às crises.

Esta recente crise da Direita, em Portugal, assim identificada pelos analistas, mostra uma situação muito mais complexa que não se deixa sintetizar na palavra “crise”; e mostra que é preciso politizar essa complexidade. Os nossos afectos políticos contemporâneos são marcados por tensões que já não são representáveis pelos partidos e pelos movimentos políticos que não tiveram a capacidade de interpretar a cartografia da paisagem política actual, de perceber que a polaridade única Esquerda-Direita recobre hoje uma multiplicidade de polaridades subjacentes que introduzem clivagens e nos fazem entrar em discussão no interior da nossa família política, mesmo a mais próxima. Falar da crise da Direita é continuar a conjugar a política no singular e insistir num confronto entre “governo” e “oposição” que já não é prioritário, como foi outrora. Mesmo um jornal como o Observador, que é talvez o lugar onde podemos observar com nitidez uma reconstrução ideológica da Direita, há tensões e polaridades visíveis, que têm que ver sobretudo com códigos e afinidades culturais e com políticas dos costumes. E um partido como o CDS (viu-se bem no episódio das “casas de banho”)  dissolve-se completamente nas suas contradições, ao querer rasurar as tensões internas que dilaceram o Partido: dele vêm simultaneamente as posições mais reaccionárias (no que diz respeito, por exemplo, a uma moral sexual e às questões do género) e os sinais envergonhados de que nada disso é a regra da vida interna e que até alguns dos seus dirigentes se envergonham com as declarações públicas de outros dirigentes e militantes.

Querendo rasurar as tensões e silenciar novas polaridades, os partidos afundam-se, ficam prisioneiros das palavras de sempre, que lhes moldaram o discurso desde a fundação. Enquanto o mundo tende para a crioulização, os partidos insistem em querer preservar uma “pureza” de fachada, como se permanecessem imunes a novas “correntes”, novas polaridades políticas, que implicam necessariamente um novo vocabulário que já não é o da política tradicional. Um vocabulário que não seja o da frustração e do rancor e que nos ajude a conceber de maneira diferente os problemas sempre diferentes de cada época. Crescimento, urgência das reformas, alívio fiscal, etc., etc.: tudo isto não é mais do que o consabido objecto de explorações demagógicas. Todas estas palavras que nos colonizaram, já só soam aos nossos ouvidos como estribilhos que ora nos fazem rir, ora nos suscitam a vontade de gritar: “Desaparece, deixa-me em paz!”.

Aquilo que os analistas hoje diagnosticam como uma crise da Direita não é senão a emergência de novas polaridades com as quais a Direita não está a conseguir lidar. O mesmo aconteceu, e continua a acontecer, à Esquerda, mas esta, como sabemos, já se pluralizou há muito tempo e tornou-se consubstancial à própria ideia de crise.

Uma cartografia actual das novas polaridades, das correntes e contra-correntes, mostrará que elas passam no interior dos partidos, que tentam anulá-las em vez de se adequarem a uma política das tensões. Agora, que as palavras “género” e “transgénero” designam uma das tensões vivas, talvez os partidos, que sempre foram instituições com um modelo homossexual clássico (não há nada mais clássico do que a homossexualidade) devessem tornar-se antes “transgénero”.


Livro de Recitações

“A classe média empobreceu e perdeu ‘o efeito amortecedor’ face a futuras crises” 
Título de uma entrevista ao sociólogo João Teixeira Lopes, in PÚBLICO8/9/2019

A classe média é um objecto-fetiche dos sociólogos, muito embora fiquemos sempre com a impressão de que nenhuma ciência consegue definir com rigor esse objecto. Ao excesso de presença sociológica da classe média, corresponde a sua falta de representação política. O que sabemos bem é que ninguém quer pertencer à classe média: aquilo a que todos os pobres aspiram é serem ricos sem terem de passar pelo grau intermédio, por um limbo desclassificado e desinteressante onde se situa a classe média. Esta, por sua vez, enquanto classe tardia, guarda ainda consigo a memória antiga da pobreza. Talvez por isso, um dos seus passatempos favoritos seja visitar os pobres na televisão, que é uma espécie de parque temático de pobres, para diversão e ilustração das classes medianas.

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4 pensamentos sobre “A crise da Direita

  1. A chamada crise da direita que também abrange alguma esquerda, como o PCP que parece não perceber o que tem acontecido aos seus votos. Está aqui tudo bem explicado.

  2. Nunca essas “novas polaridades” de que fala tiveram tão radical expressão como no, por enquanto, Reino Unido, país onde vivo há décadas e que se tornou a minha Pátria adotiva. O que vem acontecendo nestes mais de três anos que são passados após o Brexit é a completa evisceração da divisão da Sociedade segundo linhas partidárias, sociais e ideológicas. À Direita nada do que acontece é por acaso, com Dominic Cummins, aquele que vem da Cambridge Analytica que é tido como o responsável pela vitória do Leave no Referendo de 2016, e que é agora o ideólogo máximo que controla Boris Johnson e o Governo, e que prossegue com afã a politica a que chamou de “Destruíção Creativa”. E, para que não restassem dúvidas, assumiu que o seu principal objectivo é a obliteração do próprio Partido Conservador, tal como o conhecemos. A recente expulção do Partido dos 21 seus mais prestigiados e antigos Membros do Parlamento, e em cujo numero se inclui Nicholas Soames, neto de Winston Churchill, é de um aterrorizante simbolismo, como o é a suspensão do Parlamento por cinco semanas, que se vê assim impedido de escrutinizar o Governo neste período tão grave para o país. Mas a “Destruição Creativa” de Cummins vai mais longe e atinge a propria unidade nacional: Há dias o Supremo da Escócia, (que tem um Sistema Judiciário independente), julgou ilegal e improcedente a referida suspensão do Parlamento, acusando mesmo sem rebuços ter o Primeiro-Ministro Boris Johnson de ter mentido à Raínha afim de conseguir o “Royal Assent” que a tornou possivel. Tanto bastou para que um Ministro do Governo Britânico vir publicamente acusar os Juízes Escoceses de “parcialidade”. Hoje é tido como inevitavel a realização de um novo referendo na Escócia mas, desta vez, com um resultado favorável à independencia. Esta politica de radical divisão do país em dois campos irreconciliáveis, o Remain e o Leave, tem por objectivo ultimo a destruíção do tecido democrático. Não é por acaso que em Portugal e e Espanha surgem proto-partidos que são apenas os primeiros passos nesse sentido.

  3. Não me parece que a crise seja da direita em si, de facto, a direita nunca esteve tão forte no mundo.

    A crise é apenas da facção da direita globalista que tem dominado nos últimos 60 anos e que hoje em dia tem a concorrência de uma direita mais conservadora, que tinha sido dominante no passado mas havia sido remetido para segundo plano na ultimas décadas.

    No caso específico português foi precisamente a força cada vez maior da direita que forçou os partidos da esquerda a procurar um entendimento com o partido mais moderado de direita, o PS, para fazer frente á radicalização do resto da direita.

    Esta situação levou á criação de um “oásis” de tipo social democrata em Portugal, mas extremamente frágil e limitado.

    Embora isso já seja suficiente para perturbar os aparelhos partidários da extrema direita neoliberal que pensavam ter o caminho aberto a ficarem perturbados.

    Se conseguirmos manter esta situação já estamos bastante bem, mas não podemos pensar que a direita se está a afundar numa crise. Começa logo que, embora muitos esquerdistas não percebam, o nosso governo é de direita – embora moderado e espartilhado pelos acordos á esquerda.

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