Se não há material para dramatizar, importam-se dramas de Espanha

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/09/2019)

Daniel Oliveira

(Depois de Passos ter ameaçado com o diabo e ele não ter vindo, bem pode Costa ameaçar de novo com o mafarrico se não lhe derem a maioria absoluta. Ninguém o leva a sério pelo que é falta de tacto político ter usado tal argumento. Não havia necessidade. São tiros no pé uns a seguir aos outros… 🙂

Comentário da Estátua, 02/09/2019)


António Costa disse isto numa entrevista à Lusa: “Seria um pouco incompreensível que nós deitássemos pela janela uma solução que tem funcionado bem para irmos cair numa situação de impasse à espanhola que, manifestamente, creio que não pode ser o futuro que cada um de nós deseja. (…) Se tivéssemos um PS fraco e o Podemos forte, estaríamos na situação do impasse espanhol.” Ou seja, António Costa pede um reforço da sua votação face aos seus concorrentes para não cairmos no impasse em que Espanha se encontra.

Esqueçamos a crise constitucional espanhola, relacionada com as autonomias. Fiquemos por uma diferença essencial: aqui há três partidos nacionais relevantes à esquerda, em Espanha há dois e uma multiplicidade de partidos regionais, o que baralha qualquer comparação. Posto isto, vamos aos resultados das últimas legislativas: o PS teve 32,31% e Bloco e PCP tiveram cerca de 18,5%, juntos. Veja-se o resultado das últimas eleições em Espanha: o PSOE teve 28,7% e o Podemos 14,3% (não está forte, até teve uma grande queda). Ou seja, os aliados à esquerda do PS tiveram mais 4% do que o Podemos e o PS teve mais 4% do que o PSOE. A não ser que António Costa insista no absurdo insultuoso de retirar o PCP desta equação, a correlação de forças é semelhante. A grande diferença é que o PSOE ficou à frente do PP e o PS atrás da aliança de direita. O que quer dizer que o PS partiu bem mais fragilizado do que o PSOE para a negociação com os partidos à esquerda.

A “solução que tem funcionado bem” e que até serviu de inspiração inicial para o tentar em Espanha não resultou da correlação de forças entre socialistas e os aliados à esquerda, que é semelhante lá à que foi cá. Resultou da diferença de comportamento dos interlocutores

Ainda assim, o PS conseguiu fazer um acordo estável com bloquistas e comunistas e o PSOE não o conseguiu fazer com o Podemos. A “solução que tem funcionado bem” e que até serviu de inspiração inicial para a tentar em Espanha não resultou da correlação de forças entre socialistas e os aliados à esquerda. Resultou da diferença de comportamento dos interlocutores. O Podemos exigiu entrar para o governo com pastas ministeriais muitíssimo relevantes, BE e PCP não o fizeram. Pedro Sánchez quis transformar esta negociação numa humilhação do Podemos para o esvaziar e António Costa não o fez. Houve “geringonça” em Portugal porque os três partidos foram adultos, não houve em Espanha porque isso não se passou por lá.

A tentativa de importar uma crise em Espanha quando Portugal demonstrou de forma clara que ela não é inevitável é um argumento desesperado para tentar criar um processo de amnésia coletiva em relação à extraordinária conquista de há quatro anos. E para, a partir dela, vender a estafada ideia do “eu ou caos”, que já teve líderes do PS e do PSD como autores.

Foi por não ter feito este jogo que António Costa entrou na História como alguém que derrubou um tabu de meio século. E é também por isso que, ao contrário de Pedro Sánchez, é admirado na Europa.

Ao ajudar a construir a “geringonça”, Costa esvaziou os argumentos para a dramatização do voto útil. De tal forma que precisa de importar dramas alheios para voltar à velha rábula que PSD e PS sempre usaram para pedir maiorias absolutas sem as pedir. Mas as contas não ajudam. E em condições iguais ou piores do que as que o PSOE tem hoje, conseguiu um acordo com o BE e o PCP. Nada impede a renovação da “geringonça”. Nem sequer seria preciso os socialistas reforçarem a sua votação – e todos sabem que isso vai acontecer. Pelo contrário, um PS com maioria absoluta ou próximo disso é que matará a possibilidade de continuar com a “solução que tem funcionado bem”. Como dizia o outro, é fazer as contas.

2 pensamentos sobre “Se não há material para dramatizar, importam-se dramas de Espanha

  1. Vamos lá ver
    A Unidas Podemos queria (quer) ministérios que garantissem orçamento equivalente à % de votos e queria implementar as politicas do seu programa nesses ministérios. Claro que foi recusado e foi-lhes dito que não queriam dois governos num só conselho de ministros. Nunca li nada sobre medidas acordadas entre PSOE e Podemos. Iam para o governo e pronto. Até teriam uma vice presidência….
    Honestamente acredito que a comparação de Costa até não está mal feita. E o caso em Espanha não está confinado só às autonomias . E depois não me admira que o único alcalde eleito pela Isquierda Unida, ( em Zamora) venha dizer que o Podemos são especialistas em teatro, só sabem fazer teatro….

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