“Assalto ao BCP” para totós

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 27/06/2019)

BCP assaltado pelos irmãos Metralha… 🙂

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Indivíduos com responsabilidades no Parlamento, no Conselho de Estado e na “imprensa de referência”, inclusive no PS, têm feito repetidas declarações públicas onde garantem ter ocorrido um “assalto” ao BCP orquestrado por Sócrates com a cumplicidade de Teixeira dos Santos, Armando Vara, Carlos Santos Ferreira, Joe Berardo e Vítor Constâncio. Há versões onde se junta Ricardo Salgado ao bando, mas todas as variantes se fundamentam nas mesmas suspeitas contra Sócrates que ao tempo, 2007, logo apareceram mediatizadas. Quem propala esta tese igualmente pede a intervenção do Ministério Público e as respectivas condenações em tribunal que profetizam ser inevitáveis dadas as “evidências”. Será verdade? Será que existiram mesmo Doze anos de mentira como o poeta-Guerreiro detalha em delírio calunioso e abraçado a uma série de inacreditáveis mentiras do Público? Será que a Constituição, o Estado de direito, o sistema político, o poder dos magistrados e os poderes fácticos foram suspensos entre 12 de Março de 2005 e 21 de junho de 2011?

A narrativa do “Assalto ao BCP” tem uma origem que brilha ofuscante: Jardim Gonçalves. Recentemente, na Assembleia da República, Filipe Pinhal reproduziu-a, tendo sido de imediato amplificada e explorada por políticos e impérios mediáticos direitolas. Podemos ter a certeza de que o relatório final da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco a vai incluir como suspeita para a eternidade ondulando ao vento pois o PSD e o CDS não admitem que se acabe com esse maná de chicana contra os socialistas. Para quem tenha acompanhado as sessões dessa comissão, ficou patente que a narrativa não causa amargos de boca à esquerda, bem pelo contrário. Todos os partidos, talvez sem surpresa, mostram ter algo a ganhar com a permanência no espaço público de uma grotesca deformação da realidade. E há quem chame a isto “fazer política”, para a tragédia ser vexante.

O filme do “assalto” implica criar uma cenário de ficção, uma ilha algures no meio de um vasto oceano por identificar. Nesse reino, existiu uma pessoa muito má com algum poder (um primeiro-ministro) que colocava homens de mão em lugares-chave (num banco público) com a finalidade de obter o poder supremo (o “domínio da banca” e da “comunicação social”, pelo menos) para assim se perpetuar como tirano até ao fim dos seus dias (ou para obter uma fortuna colossal, tanto faz e vai dar ao mesmo). Onde é que já vimos isto? Em milhares de filmes, séries, livros. Gostamos desse tipo de historieta porque é básica e promete um final feliz onde o mau da fita é combatido, derrubado e castigado pelos bons. Não temos de nos esforçar para validar as informações, analisar os factos, entender as intencionalidades e filtrar as coincidências. Podemos descontrair quando temos tempo e pachorra para sermos enganados. O segredo da nossa adesão está na simplicidade diegética, a redução à caricatura das personagens e suas acções. É essa abstracção que permite ir desligando as capacidades cognitivas até mergulharmos na crença onírica de estarmos perante seres fantásticos com alguma realidade, alguma verdade. Quando a ficção é boa, um filme, uma série ou um livro fazem-nos sonhar – de olhos bem abertos. Quando é péssima, também – se precisarmos de adormecer. O nosso cérebro consome histórias maravilhosas e terríveis desde a criação da linguagem pela mesma razão que o nosso corpo consome alimentos: para que o organismo tenha energia e assimile substâncias para decompor, distribuir e voltar a reorganizar. No caso das histórias, cada um as decompõe de acordo com a sua idiossincrasia e volta a reorganizá-las de acordo com a sua circunstância. É por isso que o mesmo livro ou filme pode, ao ser consumido repetidas vezes ao longo do nosso crescimento e finitude, oferecer diferentes sentidos, diferentes interpretações, diferentes lições e experiências subjectivas de acordo com as possibilidades – e necessidades – neurológicas e psicológicas da situação que for a nossa aquando da assimilação de mais um “Era uma vez”. A ficção, seja de autoria vígil ou de autoria biológica no sono, consiste numa única fórmula estrutural: colocar-nos perante um problema (um ou mais desafios) e dar-nos a solução ou deixar-nos à procura dela (um final fechado ou aberto, unívoco ou equívoco). É por isso que precisamos de narrativas para além do pão nosso de cada dia, pois a vida em nós quer triunfar sobre a morte seja onde e como for; por exemplo, lá onde o pensamento mágico tem mais força do que a gravidade e o deus ex machina e guionista faz milagres no final de cada acto ou episódio.

Teixeira dos Santos disse que a ideia de escolher Santos Ferreira e Vara para a CGD foi dele, apesar dos avisos de Sócrates – mas isso não vem ao caso. Os empréstimos da CGD envolviam dezenas de técnicos e especialistas de diferentes áreas da Caixa desde o começo de cada processo até ao seu desfecho e eram aprovados colegialmente por 5 ou 6 administradores após extensa discussão – mas isso não vem ao caso. Celeste Cardona, então ex-ministra da Justiça pelo CDS, era colega de Vara e tinha o pelouro dos serviços jurídicos na administração de Santos Ferreira; ou seja, era ela a responsável pelas condições legais dos contratos de empréstimo, e a senhora foi para a comissão de inquérito falar desse tempo com orgulho – mas isso não vem ao caso. Empréstimos para comprar acções eram, e são, prática corrente na banca mundial; sendo que o valor concedido a Berardo em nada de nada era significativo para os capitais da CGD e parecia um bom negócio à luz das cotações e perspectivas de subida à época – mas isso não vem ao caso. O contrato obrigava Berardo a dar como garantias acções do BCP que já detinha, mais as que viesse a comprar (entre 9 entidades possíveis, não era só para o BCP) e ainda o espólio artístico da Fundação Berardo que valia mais do que o empréstimo – mas isso não vem ao caso. José de Matos presidiu à reunião no BdP, em Agosto de 2007, onde foi aprovado o pedido de Berardo para uma participação qualificada superior a 5%; se essa reunião foi fundamental para que o “Assalto ao BCP” ocorresse, como explicar que Passos Coelho tenha colocado o mesmo José de Matos como presidente da CGD em 2011? – mas isso não vem ao caso. Pedro Duarte Neves, responsável pela supervisão no BdP à época, declarou que não viu nada de errado na ida de Santos Ferreira e Vara para o BCP; este mesmo ex-vice-governador do Banco de Portugal teve o seu mandato renovado já com Passos Coelho como primeiro-ministro – mas isso não vem ao caso. Santos Ferreira e Armando Vara foram para o BCP por escolha de 97% dos votos do capital accionista presente na assembleia geral; o que significa que as acções de Berardo adquiridas com o empréstimo da CGD foram irrelevantes para essa escolha – mas isso não vem ao caso. Paulo Macedo foi vice-presidente de Santos Ferreira no BCP, logo terá sido a segunda figura mais importante no “assalto”, o mesmo Paulo Macedo que viria a ser ministro de Passos – mas isso não vem ao caso. Paula Teixeira da Cruz, essa mesmo, Filipe de Botton e Alexandre Relvas, muito próximos de Cavaco Silva, António Mexia, ex-governante com Durão Barroso, e Alexandre Soares dos Santos estiveram ao lado de Berardo durante e depois do “assalto” – mas isso não vem ao caso. Cavaco Silva promulgou o decreto-lei que criou a Fundação de Arte Moderna – Colecção Berardo, o tal negócio que se diz ter sido feito por Sócrates para vir a usar Berardo no “assalto”, o mesmo Cavaco que em momento algum dos seus dois mandatos se quis meter publicamente neste assunto por ele não ter ponta legal, sequer racional, por onde se pegar – mas isso não vem ao caso. Quando mais de 70% dos accionistas do BCP escolheram Santos Ferreira e Vara para tentarem salvar o banco a situação era de caos com a descoberta de que Jardim Gonçalves, ex-líbris da mais aristocrática elite financeira e católica em Portugal, era um escroque e um incompetente – mas isso não vem ao caso. Não há notícia de que a presença de Santos Ferreira e de Armando Vara no BCP tenha, fosse de que forma fosse, servido para dar a Sócrates algum tipo de benefício político, fosse ele qual fosse – mas isso não vem ao caso.

Na ilha onde se deu o “Assalto ao BCP” não havia Presidente da República, polícia, Ministério Público, tribunais, Assembleia da República, partidos para além do PS, imprensa livre, Conselho Superior do Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura, Estado de direito. Nem sequer havia, pasme-se, algum heróico sindicato de procuradores ou de juízes capaz de levar as “evidências” do “assalto” à bófia. Era um Estado de fantochada, todos sabiam o que se estava a passar, todos viam as “evidências”, mas ninguém podia fazer nada. Sócrates, telepaticamente, controlava ministros, administradores de bancos, o governador do Banco de Portugal e demais vice-governadores, a nata financeira portuguesa, até a madame que viria anos depois a ser a inventora do “fim da impunidade” e implacável perseguidora de socráticos, e não esquecendo o Rei de Espanha usado para varrer uma brilhante e corajosa jornalista, assim reza a teoria da conspiração já com direito a série na RTP. Eis a navalha de Occam transformada num alguidar. Obviamente, eram “evidências” a mais para se conseguir montar uma golpada judicial. Era estupidez, paranóia e alucinações a mais até para fanáticos e pulhas. Pelo que se foi por outro caminho, o da caldeirada de enguias à moda de Aveiro. A hecatombe do poder bancário da direita – onde BPN, BPP e BCP se afundaram em ilegalidades e as lideranças foram dizimadas – no meio da tempestade económica mundial obrigava a recuperar o poder governativo para conter os danos e salvar as jóias. Recuperá-lo a todo o custo e por todos os meios – especialmente, os ilícitos. A dimensão e gravidade da crise, o desespero e o pânico inauditos, levou a direita a fazer o que nunca antes tinha feito depois do 25 de Abril, mas que conhecia de ginjeira como saudosa memória. Jardim Gonçalves iria ter a sua vingança, Cavaco iria ter a sua vingança. O perfeito alvo para todos os ódios, o bode expiatório para todos os males, a manobra de diversão que permitia ocultar tudo o que a “gente séria” tinha abarbatado graças ao cavaquismo, era um político que não tinha medo da oligarquia, que parecia imbatível nas urnas, que apresentava um projecto para o País que dava resultados em crescendo – só interrompidos pela maior crise económica mundial em 80 anos. Nasceu o “Face Oculta”, um plano de espionagem de um primeiro-ministro em funções através de um seu amigo e companheiro político que igualmente se pretendia queimar em auto-de-fé, salgando o seu trajecto profissional e destruindo o seu bom nome. Nesta violenta caça aos “inimigos”, o aparelho de Justiça foi usado verticalmente para assassinatos políticos, tendo-se chegado à ignomínia de condenar um cidadão à pena máxima com prisão efectiva num suposto crime onde nem sequer se obtiveram provas para justificar uma pena suspensa. A mesma lógica – acima, abaixo e ao lado da Lei – na “Operação Marquês”, um processo concebido para ser em si mesmo uma condenação; daí se ter devassado, exposto e prendido vários cidadãos sem se saber porquê mas sabendo-se perfeitamente para quê. Alguma vez se fará o levantamento e exposição dos crimes e irregularidades cometidos por agentes da Justiça e jornalistas sob o pretexto de se estar a “combater a corrupção”? Não, jamais, é a resposta – se continuar a não existir no País uma única força política que pretenda fazer da Justiça um santuário dos direitos, das garantias, da liberdade.

O “Assalto ao BCP” foi criado, e é agitado, pelos mesmos que andam desde 2004 a usar polícias, magistrados e jornalistas para tentar obter pela Justiça o que não conseguem pelo voto. Aqueles para quem a política não passa de um assalto à cidade.


Fonte aqui

As inteligentes perguntas do PSD a Sócrates. As úteis e inteligentes Comissões Parlamentares de Inquérito

(In Blog Um Jeito Manso, 25/06/2019)

Ouvi na televisão que os deputados da Comissão de Inquérito à CGD querem lá o Sócrates e, não querendo ele oferecer-lhes o pratinho e optando por responder por escrito, vão enviar (ou já enviaram) perguntas.
 
Uma coisa meio maluca. Tudo isto é maluco, desprovido de senso. Ao fim de não sei quantos anos, os deputados resolvem acordar para a vida e, virgens de primeira viagem, ficam numa excitação, coisa adolescente, pueril, parvoíce de juventude retardada e bobinha….
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O Brazilgate transforma-se no Russiagate 2.0

(Pepe Escobar, in Resistir, 22/06/2019)

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Foi um vazamento, não um hack. Sim: o Brazilgate, lançado por uma série debombas revolucionárias publicadas porThe Intercept, pode estar a transformar-se num Russiagate tropical. 

O Garganta Funda de The Intercept – uma fonte anónima – finalmente revelou em pormenores o que qualquer um com meio cérebro no Brasil já sabia: que a máquina judicial/legal da investigação unilateral do Lava Jato era de facto uma farsa maciça e uma trapaça criminosa destinada a realizar quatro objectivos. 

  • Criar as condições para o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e a subsequente ascensão de seu vice, o fantoche manipulado pela elite Michel Temer. 
  • Justificar a prisão do ex-presidente Lula em 2018 – exactamente quando ele estava para vencer a eleição presidencial seguinte com uma vitória esmagadora. 
  • Facilitar a ascensão da extrema-direita brasileira via Steve Bannon (ele o chama de “capitão”) Jair Bolsonaro. 
  • Instalar o ex-juiz Sergio Moro como ministro da Justiça com esteroides capazes de promulgar uma espécie de Patriot Act brasileiro – pesado em espionagem e ligeiro quanto a liberdades civis.
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Moro, lado a lado com o promotor Deltan Dallagnol, o qual liderava as 13 forças-tarefa do Ministério Público, são as estrelas vigilantes da trapaça do lawfare . Ao longo dos últimos quatro anos, os hiperconcentrados media de referência brasileiros, afundados num pântano de fake news, glorificaram essa dupla como heróis nacionais dignos do Capitão Marvel. A arrogância acabou por afundá-los no pântano. 

Os mafiosos brasileiros 

The Intercept prometeu divulgar todos os ficheiros na sua posse, chats, áudio, vídeos e fotos, um acervo supostamente maior que o de Snowden. Aquilo que foi publicado até agora revela Moro/Dallagnol como um duo estratégico em sincronia, com Moro como um capo di tutti i capi , juiz, júri e executor numa só pessoa – repleto de falsificações em série de provas. Isso, por si só, é suficiente para anular todos os casos da Lava Jato em que ele esteve envolvido – incluindo o processo contra Lula e as sucessivas convicções baseadas em “evidências” que nunca se sustentariam em um tribunal sério. 

Em conjunto com uma abundância de detalhes escabrosos, o princípio Twin Peaks [1] – as corujas não são o que parecem – aplica-se plenamente ao Brazilgate. Porque a génese do Lava Jato envolve nada menos que o governo dos Estados Unidos. E não apenas o Departamento de Justiça (DoJ) – como Lula tem insistido há anos em todas as suas entrevistas. A operação foi do Estado Profundo. 

A WikiLeaks havia revelado isso desde o início, quando a NSA começou a espionar a gigante de energia Petrobrás e até mesmo o telefone smart de Dilma Rousseff. Em paralelo, inúmeras nações e indivíduos aprenderam como a auto-atribuída extraterritorialidade do DoJ permite que ele persiga qualquer pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar. 

Isto nunca foi sobre anti-corrupção. Trata-se, ao invés, da “justiça” americana a interferir em todas as esferas geopolíticas e geoeconómicas. O caso mais gritante e recente é o da Huawei. 

No entanto, o “comportamento maligno” dos mafiosos Moro/Dallagnol atingiu um novo nível perverso na destruição da economia nacional de uma poderosa nação emergente, um membro do BRICS e líder reconhecido em todo o Sul Global. 

O Lava Jato devastou a cadeia de produção de energia no Brasil, a qual por sua vez gerou a venda – abaixo dos preços de mercado – de muitas reservas valiosas de petróleo do pré-sal, a maior descoberta de petróleo do século XXI. 

A Lava Jato destruiu campeões nacionais em engenharia e construção civil e também em aeronáutica (como na Boeing comprando a Embraer). E a Lava Jato comprometeu fatalmente importantes projectos de segurança nacional, como a construção de submarinos nucleares , essenciais para a protecção da ” Amazônia Azul “. 

Para o Council of America – visitado por Bolsonaro em 2017 –, bem como o Council on Foreign Relations – para não mencionar os “investidores estrangeiros” – ter o Chicago boy neoliberal Paulo Guedes instalado como ministro das Finanças era um sonho ardente. Guedes prometeu de imediato colocar virtualmente todo o Brasil à venda. Até agora, sua tarefa tem sido um fracasso absoluto. 

Como abanar o cão 

Os mafiosos Moro/Dallagnol eram “apenas um peão no seu jogo”, para citar Bob Dylan – um jogo de que ambos estavam inconscientes. 

Lula enfatizou repetidamente que a questão-chave – para o Brasil e para o Sul Global – é a soberania. Sob Bolsonaro, o Brasil foi reduzido ao status de uma neocolonia de bananas – com abundância de bananas. Leonardo Attuch, editor do portal líder Brasil247 , diz que “o plano era destruir Lula, mas o que foi destruído foi a nação”. 

Tal como está, os BRICS – uma palavra muito suja na Beltway – perderam o seu “B”. Por muito que possam valorizar o Brasil em Pequim e Moscovo, o que está a funcionar no momento é a parceria estratégica “RC” , embora Putin e Xi também estejam fazendo o melhor que podem para reviver “RIC”, tentando mostrar à Índia de Modi que a integração eurasiana é o caminho a seguir, não o de desempenhar um papel de apoio na difusa estratégia indo-pacífica de Washington. 

E isso nos leva ao cerne da questão do Brazilgate: como o Brasil é o cobiçado prémio na narrativa estratégica mestra que condiciona tudo que acontece no tabuleiro de xadrez geopolítico no futuro previsível – a confrontação sem limites entre os EUA e a Rússia-China. 

Já na era Obama, o Estado Profundo dos EUA identificou que para incapacitar os BRICS a partir de dentro o nó estratégico “fraco” era o Brasil. E, sim; mais uma vez, trata-se do petróleo, estúpido. 

As reservas de petróleo do pré-sal podem ser avaliadas em até espantosos US$30 milhões de milhões. A questão não é apenas o governo dos EUA querer uma parte disso; a questão é ele quer controlar a maior parte da ligações petrolíferas do Brasil com a interferência dos poderosos interesses do agronegócio. Para o Estado Profundo, o controle do fluxo de petróleo do Brasil para o agronegócio equivale à contenção/alavancagem contra a China. 

Os EUA, o Brasil e a Argentina, em conjunto, produzem 82% da soja mundial. A China implora soja. Esta não virá da Rússia ou do Irão – os quais por outro lado podem fornecer à China petróleo e gás natural suficientes (ver, por exemplo, a energia da Sibéria I e II). O Irão, afinal, é um dos pilares da integração eurasiana. A Rússia pode eventualmente tornar-se uma potência exportadora de soja , mas isso pode levar até dez anos. 

Os militares brasileiros sabem que relações estreitas com a China – seu principal parceiro comercial, à frente dos EUA – são essenciais, seja o que for que Steve Bannon possa arengar acerca disso. Mas a Rússia é uma história completamente diferente. O vice-presidente Hamilton Mourão, na sua recente visita a Pequim, onde se encontrou com Xi Jinping, dava a impressão de estar a ler um comunicado de imprensa do Pentágono, dizendo à imprensa brasileira que a Rússia é um “actor maligno” que está a propagar uma “guerra híbrida por todo o mundo”. 

Assim, o Estado Profundo dos EUA pode estar a cumprir pelo menos parte do seu objectivo final: utilizar o Brasil na sua estratégia Divide et Impera, ou seja, abalar a parceria estratégica Rússia-China. 

Isto fica muito mais picante. O Lava Jato, recondicionado como Vaza Jato, também poderia ser descodificado como um jogo de sombras maciço; um cão a abanar, com a cauda composta por dois activos americanos. 

Moro era um activo certificado pelo FBI, CIA, DoJ e Estado Profundo. Seu uber-patrão seria, em última análise, Robert Mueller (portanto, Russiagate). No entanto, para a Equipe Trump, ele seria facilmente dispensável – mesmo se fosse o Capitão Justiça a trabalhar para o activo real, o menino Bolsonaro de Bannon. Se caísse, Moro teria a garantia do indispensável paraquedas dourado – completo, com residência nos EUA e palestras em universidades americanas. 

Greenwald, de The Intercept, é agora celebrado por todas as vertentes da esquerda como uma espécie de Simon Bolivar americano/brasileiro com esteróides. Mas há um problema enorme. The Intercept é de propriedade de um praticante endurecido da guerra da informação, Pierre Omidyar . 

De quem é a guerra híbrida? 

A questão crucial pela frente é o que as forças armadas brasileiras estão realmente a fazer neste enorme pântano – e quão profundamente estarão subordinadas ao Divide et Impera de Washington. 

Isto gira em torno do todo-poderoso Gabinete de Segurança Institucional, conhecido no Brasil pela sigla GSI . Os integrantes do GSI estão todos no consenso de Washington. Depois dos anos “comunistas” de Lula/ Dilma, estes sujeitos estão agora a consolidar um Estado Profundo brasileiro supervisionando o controle político em âmbito total, tal como nos EUA. 

O GSI já controla todo o aparelho de inteligência, bem como a Política Externa e de Defesa, através de um decreto sub-repticiamente lançado no princípio de Junho, apenas alguns dias antes da bomba de The Intercept. Até o capitão Marvel Moro está sujeito ao GSI; eles devem aprovar, por exemplo, tudo o que Moro discute com o DoJ e o Estado Profundo dos EUA. 

Como tenho discutido com alguns dos meus principais interlocutores brasileiros informados, o grande antropólogo Piero Leirner, que sabe em pormenor como pensam os militares, e o advogado internacional suíço e conselheiro da ONU Romulus Maya, um Estado Profundo nos EUA parece estar a posicionar-se como o mecanismo de desova para a ascensão directa dos militares brasileiros ao poder, assim como dos seus responsáveis. Conforme a necessidade, se não seguiu nosso roteiro ao pé da letra – relações comerciais básicas apenas com a China; e isolamento da Rússia – pode-se balouçar o pêndulo a qualquer momento. 

Afinal, o único papel prático que o governo dos EUA teria para as forças armadas brasileiras – na verdade, para todas as forças armadas da América Latina – é como tropas de choque da “guerra às drogas”. 

Não há arma fumegante – ainda. Mas o cenário do Lava Jato como parte de uma operação psicológica extremamente refinada, uma operação psyops com dominância de espectro amplo, uma etapa avançada da Guerra Híbrida, deve ser seriamente considerada. 

Exemplo: a extrema-direita, bem como sectores militares poderosos e o império de media da Globo subitamente começaram a propalar que a bomba de The Intercept é uma “conspiração russa”. 

Quando alguém acompanha o sítio web do principal think tank militar – com muitas coisas praticamente copiadas e coladas directamente da Escola de Guerra Naval dos EUA – é fácil ficar surpreendido com a crença fervorosa deles numa Guerra Híbrida Rússia-China contra o Brasil, onde a cabeça de ponte é fornecida por “elementos anti-nacionais” tais como a esquerda como um todo, bolivarianos venezuelanos, FARC, Hezbollah, LGBT, povos indígenas, pode escolher. 

Após o Vaza Jato, uma guerra relâmpago combinada de notícias falsas culpou o aplicativo Telegram (“eles são os maus russos!”) por hackear os telefones de Moro e Dallagnol. O Telegram oficialmente desmascarou isso em pouco tempo. 

Disseram então que a ex-presidente Dilma Rousseff e a actual presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, fizeram uma visita “secreta” a Moscovo apenas cinco dias antes da bomba Lava Jato. Confirmei a visita com a Duma [parlamento], bem como o facto de que, para o Kremlin, o Brasil, pelo menos por enquanto, não é uma prioridade. A integração eurasiana é. Isso, por si só, desmascara o que a extrema-direita do Brasil elocubra: Dilma a pedir ajuda a Putin, o qual então liberta seus maudosos hackers. 

A Vasa Jato – segunda sessão do Lava Jato – pode estar a seguir os padrões Netflix e HBO. Recorde que a terceira temporada do True Detective foi um êxito absoluto. Precisamos de rastreadores dignos de Mahershala Ali para detectar fragmentos de evidências sugerindo que as forças armadas brasileiras – com apoio total do Estado Profundo dos EUA – podem estar a instrumentalizar uma mistura de Vasa Jato e da Guerra Híbrida “dos russos” para criminalizar a esquerda para sempre e orquestrar um golpe silencioso a fim de se livrar do clã Bolsonaro e do seu QI colectivo sub-zoológico. Eles querem controle total – sem intermediários ridículos. Estarão eles a morder mais bananas do que podem mastigar? 


[1] Twin Peaks é uma série da TV, combinação de drama policial e surrealismo. O princípio Twin Peaks é que nada é verdade tal como aparece.. 


Fonte aqui