Três lições simples da guerra com a Huawei

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 29/05/2019)

Daniel Oliveira

O primeiro efeito da ordem executiva que proíbe o uso de qualquer material da Huawei, assinada por Donald Trump, foi a suspensão dos negócios da Google com a operadora chinesa. A Huawei perde acesso a atualizações do sistema operativo Android, e a próxima versão dos seus smartphones fora da China vai perder acesso a aplicações como o Google Play Store e o Gmail app. Não é machadada pequena e o braço de ferro ainda agora começou, com os chineses a mostrarem a calma que os caracteriza e que os levará muito longe. É claro que o argumento da segurança, na boca de Trump, é uma piada. Estamos perante uma guerra comercial das antigas. Ponto.

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Qualquer coisa que se queira dizer sobre esta guerra será imediatamente interrompida por uma homilia sobre o mercado global. Infelizmente, os beatos da liberdade económica não costumam estar presentes nas procissões pela liberdade de movimentos de humanos – aí pedem sempre realismo – e não ficam incomodados com a frieza da realpolitik quando se trata de invadir ou bombardear um povo. Pois eu vivo melhor com disputas em torno de aplicações de telemóveis do que com milhares de mortos e deslocados. Mas mesmo com o novo tabu, que trata qualquer medida protecionista como a antecâmara de um holocausto, atrevo-me a enumerar três lições que, para já, podemos tirar deste episódio.

Primeira lição: os Estados podem muito mais do que nos dizem. A ideia de que num mundo globalizado as nações nada podem é falsa. Claro que não podem todas, e isso é dos poucos bons argumentos em defesa da União Europeia: Estados juntos num bloco económico podem mais facilmente ditar as regras. Isso não obrigava a uma moeda única e não se pode dizer que esta Europa crescentemente desindustrializada faça grande coisa com o poder que tem. Usa-o para interesses que nos ultrapassam.

Esse é o debate que deveríamos ter feito no último mês. Seja como for, a ideia de que as grandes multinacionais esvaziaram os Estados de poder é falsa. Foram os políticos que o fizeram e, para o certo ou para o errado, podem recuperar esse poder rapidamente. Trump pôde.

Segunda lição: a conversa sobre a liberdade económica global é uma treta. A Huawei fundou-se, ganhou músculo e internacionalizou-se a partir de uma economia planificada, com liberdade económica limitada e tutelada e isso não a impede de competir com outras grandes empresas, a ponto de as pôr em risco. A concorrência faz-se a partir de patamares diferentes, com ambientes económicos diferentes, e está muitíssimo longe de ser um jogo de mercado livre. Isso é conversa sobre os amanhãs que cantam. O mundo mudou menos do que pensamos.

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Terceira lição: as potências mais relevantes que se confrontam pelo domínio económico são razoavelmente protecionistas, apoiam as suas empresas e têm estratégias industriais nacionais. O liberalismo deixa andar é para papalvos e custará bem caro a quem o adotar. Por isso mesmo é vendido por potências a países periféricos como se fosse a última Coca-Cola no deserto. Veja-se como a Alemanha se prepara para mudar as regras da concorrência dentro da Europa para poder apoiar os “campeões europeus” (leia-se “campeões alemães”) contra o perigo chinês. Muitos que aplaudem esta reviravolta estarão na primeira linha do apedrejamento de Trump por ter violado tão abertamente o mito do mercado global livre. É um mito.

O grande risco disto tudo? Se esta estratégia de Trump correr bem, o povo ficará mais feliz e virá com isto tudo o resto: perseguição às minorias, ataques ao Estado de direito, violação das regras democráticas. Se a reação ao expansionismo chinês, bastante protegido pelo Estado, devolver empregos aos norte-americanos ninguém vai querer saber do resto. É por isso que ou os democratas abandonam de uma vez por todas a lengalenga das inevitabilidades e recuperam o poder dos Estados, ou a democracia está condenada. Porque o que fica a dizer às pessoas é que é fundamental que elas escolham livremente quem as governa, para que os governantes eleitos lhes expliquem que, neste mundo global, nada podem fazer por elas.


5 pensamentos sobre “Três lições simples da guerra com a Huawei

  1. Nuno Rogeiro,Daniel Oliveira e José Milhazes continuam a construir a sua versão de ” Quanto mais quente,melhor”.
    Onde contarão ir agora actuar e quem lhes pagará?

  2. O exemplo mais óbvio de como os estados oferecem o poder às multinacionais é o ISDS, o sistema arbitral de resolução de litígios que permite aos investidores processarem os estados. São os próprios estados que promovem esta justiça paralela unilateral, exclusivamente acessível às multinacionais e que estas utilizam quando os estados tomam decisões que possam ameaçar os seus lucros. A UE está neste momento a querer institucionalizar este mecanismo, que definitivamente submete o poder político ao poder da grande finança.
    Está a decorrer uma petição dos cidadãos europeus contra o ISDS, informe-se!

  3. O despacha chouriços não pára.
    Despachada uma carrada de chouriços conta Costa vêm despachar uma chouriçada sobre os altos negócios do mundo.
    Exactamente entre as duas maiores potências comerciais existentes e que contam cada uma com várias gigantescas entidades de técnicos, experts e sábios a estudar-se mutuamente.
    Essa gigantesca teia de gente dedicada a estudar as tácticas e estratégias de desenvolvimento para decidir um futuro no qual superem os adversários, mesmo esses, sabem que um pequeno “bater de asas” algures pode alterar as mais imaginativas e sábias estratégias traçadas.
    Contudo o DO oracular não se limita a dar oráculos délficos ambivalentes, não; ele dá lições.
    Ah! ganda DO.

  4. Não perca mais uma opinião sempre avalizada do Daniel no próximo número da Exame Informática. Como diz o gordo, Espéctáaaaaaaaaaaaaaculo!

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