Costa, Macron e Pedro Nuno: a contradição da campanha

(Ana Sá Lopes, in Público, 24/05/2019)

O facto mais significativo da campanha das europeias aconteceu na segunda e terça-feira. Na segunda, António Costa foi a Paris visitar o sonami Macron, eufórico com a nova aliança que quer construir na Europa — e que não é nada mais nada menos do que uma reprodução com as devidas adaptações de contexto da grande aliança que fundou e sempre governou a Europa e a governa até hoje, a coligação entre socialistas e a direita europeia representada no PPE e no ALDE, a aliança liberal. Os resultados dessa coligação, em que os sociais-democratas foram cedendo progressivamente à direita, não foram bons para os variados PS europeus que desapareceram nos últimos anos. O próprio Macron é um beneficiário da volatilização do Partido Socialista Francês.

Costa, que ganhou espaço político por ter conseguido fazer sobreviver um partido socialista na Europa, tem Macron como aliado contra os nacionalismos que estas eleições europeias vão demonstrar com alguma certeza estarem muito mais fortes. Macron e Costa, disseram-no na segunda-feira, partilham “a convicção simples de que a União faz a força” e de que têm “um projecto de futuro com mais ambição para a Europa”. A verdade é que Macron está um ponto abaixo de Marine Le Pen nas sondagens para as europeias e o seu Governo passou o Inverno acossado pelos “coletes amarelos”.

É com Macron, e com as políticas de Macron, que se vai combater a emergência da extrema-direita? A ideia é tentadora, mas os últimos anos demonstraram que os extremismos floresceram à sombra da coligação PSE-PPE. 

Na terça-feira. Pedro Nuno Santos, o futuro candidato à liderança do PS, mostrou o programa antialiança com Macron. Foi no comício em Aveiro, em que pediu “humildade” para entender os novos fenómenos. “Temos de ter a honestidade de perceber as razões que levam tantos trabalhadores, operários, a votarem agora na extrema-direita.

Estes povos europeus não passaram a ser racistas e xenófobos, muito do movimento socialista europeu deixou de os representar, de falar para eles, de perceber os seus anseios, são cada vez mais os povos que marcam passo, sem crescimento económico com impacto nas suas vidas”, disse Pedro Nuno Santos num discurso que lhe é habitual, mas que dada a coincidência da reunião da véspera evidenciou a existência de dois PS dentro deste PS.

Qual das duas estratégias vai conseguir travar os extremismos europeus? Infelizmente, Macron não traz muito de novo à Europa, que está hoje afogada neles. Como se vê em França.


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Um pensamento sobre “Costa, Macron e Pedro Nuno: a contradição da campanha

  1. Não há contradição nenhuma. No Parlamento Europeu é preciso fazer alianças ao centro para tirar a Comissão Europeia das mãos do PPE, o que não é possível apenas à esquerda. Em Portugal existe a tal maioria de esquerda. Estou farto de análises superficiais.

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