Paulo Rangel, o candidato dos casos e da situação

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/05/2019)

Daniel Oliveira

Se falássemos do que vão fazer os deputados que elegeremos no domingo, havia uma pergunta a que Paulo Rangel não poderia escapar: como pode apoiar Manfred Weber, o homem que defendeu sanções contra Portugal quando o país começava a recuperar da crise, para presidente da Comissão Europeia? Enquanto Carlos Moedas, honra lhe seja feita, fazia lóbi pelo país, Rangel fazia tudo para que em Bruxelas se acreditasse que o país iniciava o caminho para o abismo. Todos os desmentidos que então fez caem agora por terra, com o apoio político a quem poderia ter matado à nascença a recuperação económica.

Só que não estamos a falar do que vão fazer os eurodeputados. Não me queixo disso. Nunca se discutiu Europa na campanha para as eleições europeias. Não há um sentimento de pertença que dê substrato a esse debate, apesar dele ser indispensável. É verdade que foi António Costa quem defendeu que estas eleições eram um referendo à governação, nacionalizando-as. Tem sido sempre assim: se os Governos são impopulares querem que se fale de Europa nas europeias, se sentem que são populares querem referendos à governação. Mas, na verdade, quem mais ganha com este desvio dos temas europeus é Rangel. Não porque não esteja preparado para os discutir. Arrisco-me a dizer que é dos mais preparados. Mas porque o apoio a Manfred Weber não é um engano. Corresponde ao alinhamento geral de Rangel com o poder em Bruxelas.

Paulo Rangel é, em todas as campanhas em que participa, o principal fator de rasteirização política. Não é que Rangel não seja capaz de melhor. Acha é que nós não somos. Não se tratada de convencer os indecisos, trata-se de mobilizar os convencidos. E, para isso, as campanhas negativas são melhores. Isso, e fazer regressar o fantasma de Passos Coelho.

Se há alguém que, nestas eleições, representa a situação na Europa é Rangel. As responsabilidades pela construção deste euro e desta União são partilhadas por socialistas e populares europeus. Mas no que a Europa é hoje e será nos próximos anos manda o PPE. E Rangel, mais do que Nuno Melo, é seu militante acrítico e entusiástico. Como ninguém vai discutir isso por cá, pode sê-lo. Até pode apoiar alguém que quis tramar Portugal sem que isso seja um problema.

Em todas as campanhas em que participa, Paulo Rangel é fator de rasteirização. Não se trata de saber se os casos que escolhe em cada dia são muito ou pouco chocantes. São sempre chocantes e são sempre casos. E nunca têm alguma coisa a ver com o cargo que vai ocupar. Não porque Rangel não seja capaz de mais. Acha é que nós não somos. E sabe que a campanha de casos é taticamente acertada. Não só porque o afasta do lugar incómodo de homem da situação, mas também porque lhe permite endurecer o discurso. E é isso que mobiliza os mais fanatizados a sair de casa para irem votar. Com abstenções superiores a 60%, é aos indefetíveis que cada um dos candidatos se dirige. Não se tratada de convencer os indecisos, trata-se de mobilizar os convencidos. E, para isso, as campanhas negativas são melhores. Isso, e fazer regressar o fantasma de Passos Coelho. Rangel só leva tudo isto mais longe. Talvez longe demais. No dia 26 de maio saberemos.


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