Os quatro piscas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/05/2019)

Daniel Oliveira

(Daniel Oliveira defende que as decisões zigzagueantes do PS podem ser compreendidas à luz das ambições pessoais de António Costa em aceder a um cargo europeu de relevo, eventualmente a Presidência do Conselho Europeu. A ser verdade, e se o conseguir, vai deixar uma multidão de orfãos no PS, e mesmo noutros sectores de esquerda. Sobretudo se o seu sucessor, na liderança do PS, for o truculento Santos Silva como também o Daniel profetiza.

É que, a ser assim, nesse dia o PS entrará irremediavelmente na via da pasokização. As tendências europeias demoram a chegar cá mas acabam sempre por marcar presença.

Comentário da Estátua, 17/05/2019)


A mensagem de apoio de António Costa a Emmanuel Macron não mereceu interesse dos jornalistas. Estamos numa campanha para as europeias e seria um disparate perder tempo a falar da Europa. Costa apresenta a coisa como uma aliança progressista que vai de Macron a Tsipras. Chamar de progressista a uma aliança que junta o mais impopular Presidente da história recente de França, responsável por uma reforma ultraliberal da lei laboral, e o homem que, traindo o voto do seu povo, aplicou um programa de austeridade muitíssimo mais violento do que o de Passos, é obra. O Alexis Tsipras progressista foi aquele que Costa acusou, em 2015, de combater a Europa de forma “tonta”. Este é apenas um náufrago.

No comício de Estrasburgo em que Costa participou através de um vídeo estavam os Ciudadanos espanhóis, o Partido Liberal alemão, o Em Marcha! de Macron, vários partidos de centro-direita, e, da ala mais à direita dos socialistas, apenas o Partido Democrático italiano. Nesta aproximação ao centro-direita, Costa deu um passo inédito: transferiu o apoio ao PS francês, partido a quem o PS deve muito na sua história, para o centro-direita. Mário Soares deve estar a dar voltas na campa.

Costa tem dito que o caminho português é um exemplo para a Europa. E é assim que a esquerda europeia olha para cá. Estranharão que quem se faz exemplo de unidade à esquerda traia a sua própria família política na Europa para se aliar ao centro e à direita. Qual dos Costas se enganou? O europeu ou o nacional? Nenhum deles.

Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PS francês para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao” para entreter a esquerda. Já não pisca para a direita e para a esquerda, põe os quatro piscas ao mesmo tempo

Há quatro anos, acreditei que António Costa tinha sabido juntar os seus interesses pessoais a um olhar estratégico sobre o futuro dos socialistas, de maneira a dar-lhes espaço para não ficarem dependentes da direita para governar, salvar o PS do destino dos seus congéneres europeus e mudar o rumo da governação, com a construção de um bloco maioritário à esquerda. A fabricação da crise dos professores matou essa ilusão. Muitos olharam para ela pelo seu valor circunstancial – o conflito com a Fenprof – ou pelo seu objetivo tático – conquistar votos à direita.

Mas o objetivo estratégico era mais relevante: romper unilateralmente e de forma não explícita, e portanto sem custos, a geringonça. Costa está a abandonar os seus aliados externos e internos para se deslocar para o centro. E Augusto Santos Silva é o teórico desta estratégia. Acredita que será ele o Tony Blair português, sucedendo a Costa se ele for para a Europa.

António Costa sonha, talvez com excesso de otimismo, com a presidência da Conselho Europeu. Como se viu com Barroso ou Constâncio, a carreira europeia é o sonho dos políticos sem rumo mas com ambição. Internamente, precisa de se descolar da esquerda e, ainda assim, garantir um bom resultado nas eleições. Na Europa, precisa de estar no barco do centro e do centro-direita que não está com o PPE. Não é o escombro dos socialistas que lhe dará qualquer futuro. A solidariedade socialista fica para consumo interno, com a participação do candidato holandês à presidência da Comissão Europeia, Frans Timmermans, na campanha. Como há quatro anos, as alianças têm uma utilidade pessoal.

António Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PSF para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao”, como hino da candidatura europeia, para entreter a esquerda, que fica apenas com a melodia. Já não pisca para a direita e para a esquerda, põe os quatro piscas ao mesmo tempo.

Estando nós em campanha para as europeias, seria normal que isto estivesse no centro do debate político. Isto, e o facto de Paulo Rangel e Nuno Melo apoiarem, para presidente da Comissão Europeia, Manfred Weber, o homem que pediu sanções para Portugal quando nos reerguíamos da crise. Como a comunicação social é viciada na irrelevância, é possível fazer um discurso cá dentro e outro lá fora. Juntar a esquerda cá dentro e fazer uma geringonça de centro-direita lá fora. Ser patriota cá dentro e apoiar quem nos tentou lixar lá fora. Porque é que ninguém liga às europeias? Porque elas não têm nada a ver com a Europa, com Portugal e com nada.Voltar ao topo

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4 pensamentos sobre “Os quatro piscas

  1. DO continua a sua catilinária contra Costa; sem um cagagémimo de razão acerca do caso profs teima em bater, rebater, rerebater, rererebater na mesma tecla sem desafinar, “e não te cansas, DO?”(no sentido da cantiga de maldizer de Afonso Eanes de Coton em ‘Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” edição F.A.Edições S.A. Rio de Janeiro de1965)
    Esgotada a sua capacidade de argumentar racionalmente joga mão de todo o seu arsenal de engenhoca intelectual fazendo um linchamento moral de Costa com base nas suas próprias suposições e previsões oraculares acerca do que serão as intenções políticas futuras do actual PM: um mimo de cinismo e sofística patética.
    A nova engenhocaria intelectual de DO agora, mal engenhocada diga-se, é a metáfora dos piscas-piscas: logo ele que já fez duas vezes pisca-pisca à direita a chamar quatro-piscas a Costa que desde os 14 anos é PS e lá se mantém sem mudar de direcção ou usar pisca-pisca; uma engenhoca de metáfora que é um tiro no seu autor.

    • […]

      «António Costa alimentou uma crise com um discurso para a direita, apoia Macron contra o PSF para ganhar o centro na Europa e canta o “Bella Ciao”, como hino da candidatura europeia, para entreter a esquerda, que fica apenas com a melodia.», cito.

      Notas. 1. Muito útil o teu comentário, José Neves. Experimenta ler estes dois parágrafos ali em baixo, percebe-os primeiro, e, depois, se tiveres alguma coisa acertada para dizeres, volta aqui… ‘stá? A referênia à Fenprof foi duplamente instrumental, nos casos do PS e no da estrutura do artigo, e não tem que ver com o fundo da questão em que cada um de nós ainda é livre de ter as mais díspares posições. Que o António Costa não quis aproveitar os bastidores para negociar a sério, ponto, é o que diz e vem dizendo o Daniel. 2. «Acredita que será ele o Tony Blair português, sucedendo a Costa se ele for para a Europa.», cito também. Apesar de o Augusto Santos Silva ser sociólogo e de ter vibrado, seguramente, com os sonhos húmidos do sociólogo britânico Anthony Giddens, o teorizador da Terceira Via, a segunda parte da tese do Daniel, e que tanto parece ter escandalizado A Estátua de Sal, é simplesmente estapafúrdia. Que o Augusto seja o estratega de serviço no PS, que ele se veja a si próprio como Augusto e como um tipo assaz cabeludo se passar a usar uma peruca como os homens da corte do século XVIII, enfim, que consiga dar sucessivos banhos teóricos ao Pedro Nuno Santos, ao Duarte Cordeiro e à menina e aos meninos da JS, não ponho em causa, mas!, mas não tem nem jeito nem para Marechal, nem Idade para andar nos circuitos da carne assada, nem Tropas que lhe obedeçam para o seguirem a nado até a uma Caracolada em Almada ou no Barreiro (quanto mais até ao infinito)… MIT-CAB, olha um acrónimo.

      «Há quatro anos, acreditei que António Costa tinha sabido juntar os seus interesses pessoais a um olhar estratégico sobre o futuro dos socialistas, de maneira a dar-lhes espaço para não ficarem dependentes da direita para governar, salvar o PS do destino dos seus congéneres europeus e mudar o rumo da governação, com a construção de um bloco maioritário à esquerda. A fabricação da crise dos professores matou essa ilusão. Muitos olharam para ela pelo seu valor circunstancial – o conflito com a Fenprof – ou pelo seu objetivo tático – conquistar votos à direita.

      Mas o objetivo estratégico era mais relevante: romper unilateralmente e de forma não explícita, e portanto sem custos, a geringonça. Costa está a abandonar os seus aliados externos e internos para se deslocar para o centro. E Augusto Santos Silva é o teórico desta estratégia. Acredita que será ele o Tony Blair português, sucedendo a Costa se ele for para a Europa.», TPoM.*

      Asterisco. TPC, ou melhor Trabalho Para o Monte no caso do José Neves.

  2. Daniel Oliveira e a normalização do crime
    17 Maio 2019 às 9:13 por Valluupi

    XXXX
    18 de Maio de 2019 às 12:17
    O seu comentário aguarda moderação. Esta é uma pré-visualização, o seu comentário será visível depois de ter sido aprovado.

    Então, pázinho?

    17:27

    17 de Maio de 2019 às 14:15: aproveita para dares mais um sopro de vida ao Aspirina B, pá!, não sejas tanso.

    Nota. Assumiste que andas a toque de caixa, Valulupi? Não do José “dark side” Sócrates, desta vez, mas do tipo d’Ouriq que te mandou tomar calmantes?

    #homensemancipados, ó pá?

    09Mai19
    Daniel Oliveira e João Miguel Tavares

    Na verdade, a conversa foi morna, embora o Valupi talvez precise de calmantes para a escutar.

    https://ouriquense.blogs.sapo.pt/daniel-oliveira-e-joao-miguel-tavares-811195

    Tens cagufa do baile-mandado, vertigens ou sofres de algo assim?

  3. Daniel Oliveira e a normalização do crime
    17 Maio 2019 às 9:13 por Valluupi

    XXXX
    18 de Maio de 2019 às 12:17
    O seu comentário aguarda moderação. Esta é uma pré-visualização, o seu comentário será visível depois de ter sido aprovado.

    Então, pázinho?

    17:27

    17 de Maio de 2019 às 14:15: aproveita para dares mais um sopro de vida ao Aspirina B, pá!, não sejas tanso.

    Nota. Assumiste que andas a toque de caixa, Valulupi? Não do José “dark side” Sócrates, desta vez, mas do tipo d’Ouriq que te mandou tomar calmantes?

    #homensemancipados, ó pá?

    09Mai19
    Daniel Oliveira e João Miguel Tavares

    Na verdade, a conversa foi morna, embora o Valupi talvez precise de calmantes para a escutar.

    https://ouriquense.blogs.sapo.pt/daniel-oliveira-e-joao-miguel-tavares-811195

    Tens cagufa do baile-mandado, vertigens ou sofres de algo assim?

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