Uma grande família

(José Soeiro, in Expresso Diário, 29/03/2019)

José Soeiro

(Pois é. As verdadeiras famílias, as que contam, as do dinheiro graúdo tem o pé direito no PSD, o pé esquerdo no PS e o dedo do meio no CDS a benzer os euros. Os grandes escritórios de advogados são todos “primos” uns dos outros, os do PS jogam à bisca com os do PSD e querem continuar a usar o Parlamento para fazer leis por encomenda que beneficiem os seus clientes. O piorio do centrão continua a funcionar, isso sim, uma verdadeira FAMÍLIA de respeitáveis mafiosos.

E nesta matéria, António Costa não consegue fazer melhor que o PS de outras eras.
Já nem questiono se alguma vez quis ou se alguma vez teve poder para fazer diferente.

Estátua de Sal, 30/03/2019)

Paulo Rangel, atolado na desventura em que se transformou o PSD e no vazio de diferenças entre a sua política europeia e a de Pedro Marques, encontrou nos laços de parentesco de assessores e Governantes o tema central da sua campanha. Só que, como lembrou e bem Adriano Campos, o rei da “caça à família” foi até há pouco tempo o sócio e advogado do Cuatrecasas, um escritório que assessorou as privatizações da ANA e da TAP no anterior Governo, que participou da resolução do Banif, que deu apoio à elaboração das escandalosas parcerias público-privado com a Ascendi na rodovia (essas mesmo que valeram a tantos portugueses, além do buraco no Orçamento do Estado, as cartinhas do Fisco, feito cobrador de fraque de uma entidade privada). Famílias há muitas e as que resultam dos negócios são tanto mais eficazes quanto se escondem em formas de afinidade e vínculo que não precisam da consanguinidade para ativarem os mecanismos de proteção e de cumplicidade de quem pertence ao mesmo clã.

Na verdade, enquanto PS e PSD trocavam acusações tonitruantes sobre o parentesco dos membros dos gabinetes, preparavam nos bastidores um entendimento de última hora que surpreendeu os que acreditaram que as juras de amor à transparência eram, desta vez, para levar a sério. De que falo? Da proposta do PSD que – apresentada sem aviso e contra a anunciada intenção de aumentar as restrições à acumulação da função de deputado com outras que podem entrar em conflito com aquela – visa permitir que os deputados que são advogados, membros de sociedades de advogados ou que vêm do setor financeiro intervenham no processo legislativo, mesmo que as suas sociedades estejam envolvidas nos processos abrangidos por essa legislação. Como diz o Público, o que os deputados do PSD fizeram foi, em conjunto com os do PS que garantiram a sua aprovação, “abrir alas àquilo que antes queriam evitar”.

Nada disto é novo. Só mostra como, neste campo, nada mudou. Lembro-me bem de como no passado, por exemplo, deputados dos grandes escritórios se juntaram para chumbarem uma proposta do seu próprio Governo que obrigava os estagiários na área do Direito a serem remunerados. Ou de, mais recentemente, nos trabalhos para rever a legislação laboral, os deputados próximos do setor do trabalho temporário mexeram os seus cordelinhos para que o PS não aceitasse mexer em nada de essencial no setor. A ordem reina.

Claro que, para desviar o assunto, ouviremos falar da “importância da regulamentação do lobbying”, conversa que é pura areia para os olhos, quando, no essencial, PS e PSD se juntaram para garantir a continuidade das portas giratórias entre interesses económicos e poder político que têm sido uma característica estruturante do capitalismo português.

Vai de vento em popa o país de Maria Luís Albuquerque e da promiscuidade com os fundos abutre, de Adolfo Mesquita Nunes e da Galp rentista, de Carlos Peixoto e dos escritórios dos vistos Gold, de António Vitorino e da EDP, de Carlos Moedas e dos CTT privatizados (logo dirigidos pela sua mulher, depois do negócio ruinoso da privatização).

O centrão e o mundo dos negócios sempre formaram uma grande família.


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2 pensamentos sobre “Uma grande família

  1. É curioso que, tal como na protecção laboral, são os socialistas que passam leis a legalizar a corrupção. Já Sócrates o fez quanto aumentou as contribuições.
    Mas a culpa é de quem faz greves e protestos, claro, depois admirem-se em Maio e Outubro.

  2. […]

    A regra é falar sob anonimato. Poucos
    no PS ousam hostilizar abertamente o
    líder, até porque grande parte do núcleo
    duro de António Costa está comprometido. Incluindo o próprio, que se rodeou
    politicamente de dois dos melhores amigos (Pedro Siza Vieira e Diogo Lacerda
    Machado, padrinho de casamento de
    Costa). Mas também porque Carlos Cé-
    sar (presidente do PS), Ana Catarina
    Mendes (secretária-geral-adjunta), os
    ministros Eduardo Cabrita, Ana Paula
    Vitorino, José António e Mariana Vieira
    da Silva, Pedro Nuno Santos, Francisca
    Van Dunem, João Matos Fernandes, e
    Duarte Cordeiro (secretário de Estado
    dos Assuntos Parlamentares), todos,
    apesar dos diferentes contextos, apareceram no retrato da grande família
    socialista. Esse retrato é ainda mais alargado por nele se incluírem as ligações familiares que existem noutras secretarias
    de Estado e na bancada parlamentar. “O
    número conta”, lembrou Vital Moreira,
    no blogue Causa Nossa. E são já mais de
    40 as relações de afnidade. “A ética republicana vai muito além do respeito da
    lei e toda a imprudência será castigada”,
    avisou o antigo eurodeputado socialista. “O problema disto é que são muitos
    casos”, reconheceu Jorge Coelho, na
    “Circulatura do Quadrado” (TVI24). “O
    PS transformou-se num partido de clãs.
    É profundamente lamentável…”, diz
    outro histórico socialista ao Expresso.

    O próprio ADN de Costa, criado entre
    a elite lisboeta, ajuda a explicar, em parte, o fenómeno. “Perdeu-se uma certa
    noção de elevador social que existia no
    partido nos tempos de Guterres, Sócrates e Seguro, todos eles homens que vieram província. Este PS é agora de gente
    que andou nos mesmos liceus de Lisboa,
    nas mesmas faculdades, frequentam os
    mesmos restaurantes, vão aos mesmos
    concertos… Estão fechados no mesmo
    círculo”, lamenta um histórico socialista.

    Expresso, 30.3.2019, p. 8.

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