Democracia não é telefonar ao Povo

(Raquel Varela, 08/01/2019)

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Alô Cristina, sou o Marcelo, irmão de Bolsonaro. Ainda bem que não entrevistou o neo-nazi! Temos que combater a extrema-direita.

Marcelo Rebelo de Sousa é um astro num deserto. A nossa sorte é que Portugal não é um deserto. Ainda. Pode ser, se continuarmos a assistir a esta Presidência de gestão uni-pessoal do país que eclipsa o Parlamento. Pondo assim em causa valores democráticos fundamentais da República Portuguesa.

Numa semana Marcelo, Presidente da República, chamou irmão a um neo-fascista, e abraçou-o. E na semana seguinte telefonou para o programa da Cristina, para aparecer como o Presidente que combate a entrevista a um neo-nazi.

Há muito que Marcelo se tenta fazer eleger no campo da unidade nacional, o político acima de todos os partidos e todos os interesses, o político neo-corporativo. Sendo ele próximo do sector mais à direita do PSD, com ligações de, pelo menos simpatia (não escondida em anos), a sectores tão conservadores como a Opus Dei, Marcelo percebeu que não basta o seu populismo para se fazer eleger – era preciso uma linha política. Essa linha era – e é – Marcelo aparecer como o homem da direita que combate a extrema-direita. Isto num mundo assustado com a ascensão do populismo e num país, como Portugal, com fortes tradições democráticas pós-Abril de 1974.

Tudo isto tem tido o silêncio do PS, ou da sua ala mais à direita, que na prática apoiou a candidatura de Marcelo, deixando os candidatos do PS “no ar”, e a mais lamentável inacção do BE e do PCP. Nada o espelha tão bem como o facto de Marcelo ter ido à tomada oficial de posse de Bolsonaro com o voto por unanimidade (será verdade?) na Assembleia da República, que tem que autorizar estas representações protocolares. Por ser a ida do Chefe de Estado está sujeito a voto, voto, sublinho.

Ora, é evidente que do ponto de vista da normalização do fascismo é muito mais grave politicamente o abraço a Bolsonaro do que uma entrevista no programa de manhã a um neo-nazi (entrevista que nunca deveria ter acontecido, mas que não tem o reconhecimento de Estado-nação, como a ida à tomada de posse). Ou seja, para a legitimação da extrema-direita, contra a qual Marcelo quer-se reeleger, a ida à tomada de posse é o acontecimento grave – os outros são repugnantes, mas fait divers.

O pior de tudo isto é que o contributo de Marcelo para a legitimação da extrema-direita está muito para lá do abraço a Bolsonaro. Marcelo está a criar, sem oposição crítica, e com total anuência dos media, uma visão do líder carismático e salvador uni-pessoal. Ele está em todo o lado, ele resolve tudo, ele é o pater familas, um Presidente que faz eclipsar o Parlamento. O omnipresente Marcelo cuida do povo e explica a cada um de nós e a todos os políticos o que devem fazer.

No mesmo momento em que abraçava Bolsonaro, Marcelo dava uma entrevista no Brasil a explicar aos trabalhadores portugueses que as suas greves não devem prejudicar os outros. Não se lembrou de falar de como os trabalhadores portugueses são prejudicados pelas condições laborais que vigoram em Portugal, paraíso de baixos salários, assedio moral e exaustão. Do Brasil, país de rastos, Marcelo pedia mais submissão, para Portugal. Quem o escutasse sabia que ele estava a reproduzir a Rerum Novarum de Leão XIII e a Doutrina Social da Igreja Católica, segundo a qual os trabalhadores devem aprender a obedecer, e os patrões a mandar, isto é, a “mandar bem”. Quem nasce pobre deve ficar assim, mas os patrões devem ser bonzinhos e pelo menos pagar-lhes para comer. Todos juntos, num interesse nacional uno e coeso, em que cada um não tem os seus partidos e interesses específicos. Cada um trabalha, e não discute política – há um Deus poderoso e centralizado que trata da política por todos os que trabalham.

A minha experiência, confesso é outra, diferente da de Marcelo. É que greves, quando são democráticas e combativas, juntam pessoas, fazem-nas crescer, dão-lhes responsabilidades, medem-lhes os limites, obrigam-nas a decidir, tornam-nas líderes de si próprios muitas vezes, e solidários. As greves – quando são sérias e a sério – transformam o povo infantilizado em trabalhadores conscientes de direitos. Mais iguais por isso, mais irmãos, uma sociedade menos desigual, e mais fraterna. Assim, democrática.

Porque a democracia, nunca é demais lembrar, é o exercício do poder pelo povo. Não é telefonar ao povo para ele obedecer e bater palmas.


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