Quando os elefantes lutam

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 20/12/2018) 

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Os economistas e especialistas em relações internacionais dividem-se quanto à questão de até que ponto é que a hegemonia norte-americana se encontra em declínio. Seguramente, os Estados Unidos da América continuam a ser a maior economia mundial em termos absolutos, controlam a infraestrutura do sistema financeiro internacional, emitem a moeda-base do sistema global, exercem uma enorme influência cultural sobre o resto do planeta e possuem um poderio militar sem rival. Além do mais, a economia norte-americana encontra-se neste momento a viver um dos mais longos períodos de expansão da sua História e a taxa de desemprego encontra-se no nível mais baixo dos últimos cinquenta anos.

Porém, o conceito de hegemonia é necessariamente relacional. A questão não é se os EUA se encontram num processo de declínio absoluto, mas se o seu poder relativo tem vindo a ser erodido ao ponto de podermos desde já antecipar uma transição hegemónica. E para isso é inevitável que olhemos para a China e para o fulgurante crescimento da sua economia e da sua influência externa.

A China tem vindo a crescer economicamente ao ponto de ir em breve ultrapassar em termos absolutos a dimensão da economia norte-americana, tem construído gradualmente um conjunto de estruturas institucionais de apoio a essa expansão (dos BRICS ao Fórum de Cooperação China-África e do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas à Iniciativa “Uma Faixa, uma Rota”) e tem adoptado uma política muito forte de empréstimos externos e aquisição de activos por todo o mundo, incluindo em países do Sul da Europa como Portugal. Não há dúvida que o seu poder global é crescente e, nalgumas regiões como África ou o Sudeste Asiático, rivaliza claramente com a influência norte-americana. A abertura em 2017 da primeira base militar chinesa no estrangeiro no Djibouti, junto à entrada do Mar Vermelho, constituiu um momento particularmente significativo.

Xi Jinping tem asseverado – ainda há poucos dias o fez novamente, num discurso pelos quarenta anos do início das reformas de Deng Xiaoping – que a China não pretende disputar a hegemonia global. No contexto da actual rejeição do multilateralismo por parte da liderança norte-americana, tem até assumido o papel de defensora de uma ordem internacional multilateral e baseada em regras, o que não deixa de denotar uma brilhante capacidade de aproveitamento da oportunidade para aumentar o seu próprio “soft power”.

Porém, independentemente das intenções de uns e outros serem mais ou menos pacíficas, a expansão global da influência chinesa implica materialmente uma probabilidade cada vez maior de ocorrência de confrontos entre interesses chineses e norte-americanos em diferentes pontos do globo. De forma para já relativamente circunscrita e por “procuração” através de agentes locais (como no Sudão ou no Mar do Sul da China), estas colisões de interesses estão já a ocorrer e vão tender a intensificar-se à medida que a China continuar a alargar a sua influência.

Para a maioria dos teóricos das transições hegemónicas, os períodos de declínio de uma potência hegemónica e de afirmação crescente de uma ou mais potências rivais são tendencialmente períodos de instabilidade e conflitualidade acrescidas no sistema internacional. A natureza inter-imperialista dos confrontos de interesses entre a anterior potência hegemónica (a Grã-Bretanha) e as potências emergentes à época (EUA, Alemanha e Japão) é certamente uma parte importante da explicação para o período de turbulência global e conflito generalizado entre 1914 e 1945.

A forma como terá lugar a erosão da hegemonia norte-americana e a ascensão da China será uma das grandes questões para a paz e para o futuro da humanidade neste Século XXI. Como afirma o provérbio africano, quando os elefantes lutam a erva sofre.

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