QUE FUTURO, ESQUERDAS?

(Joaquim Vassalo Abreu, 15/11/2018)

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Habituei-me durante toda a minha vida, pela educação dos meus Pais, pelos ensinamentos colhidos dos Professores e também pelo ouvido de gente mais velha, que o “óptimo é inimigo do bom”, que “quem tudo quer tudo perde”, mas que só com luta e perseverança se consegue alcançar o que consideramos justo se quem o deveria proporcionar disso não se lembra sem que haja essa luta perseverante…

E, exceptuando o período a seguir ao 25 de Abril de 1974 em que várias coisas de dignidade mínimas foram por decreto estabelecidas, como o Ordenado Mínimo por exemplo, nada mais os Trabalhadores, sejam eles Privados ou Públicos, conseguiram dos sucessivos governos, em tudo o que à dignificação do sagrado valor do Trabalho diga respeito, sem uma luta firme da Classe Trabalhadora, impulsionada pelas suas estruturas Sindicais e, ainda, pelos Partidos que na Assembleia da República maioritariamente os seus interesses representam.

Isto é um dado objectivo e para mim inquestionável e esta constatação advém do facto de o Partido charneira do nosso sistema politica, o PS, que até é composto maioritariamente por gente das Esquerdas, ter tido sempre e sempre uma politica de privilegiar a Direita nos seus acordos Sociais e Parlamentares. E eles diziam sempre que era “em nome da responsabilidade”!

Esta foi sempre a principal razão, a falta de confiança absoluta, que me levou vezes e vezes, praticamente sempre, a votar na CDU e não no PS! Dizia eu, meio a brincar e meio a sério que, assim, nunca me doeriam as mãos…A CDU foi sempre, para mim, um depositário fiável do meu voto…

Mas ansiei sempre e sempre que as coisas se alterassem e que fosse possível haver enfim, já não digo uma união, mas ao menos um acordo das Esquerdas em questões básicas, como finalmente veio a acontecer. Como antecipadamente escrevi (e a memória escrita não deixa mentir…), senti que as condições, depois do tremendo e imperdoável erro histórico do PCP e do BE quando votaram contra o PEC IV e escaqueiraram as portas do poder à Direita, estavam a fortalecer-se e decidi votar COSTA!

E posso afirmar, agora de coração aberto (abstraindo-me, é claro, da minha vida familiar e particular), ter sido este curto período da minha vida (incluindo aquele logo a seguir ao 25 de Abril) em que a minha alma se sentiu mais cheia e me levou, como nunca, a dar Graças à Vida! E a gritar: finalmente!

O meu “feeling” estava correcto e, como escrevi no anterior artigo, Portugal tem vivido um período que, ainda que curto, mas de resultados jamais expectáveis, tem sido um período de afirmação internacional e um período de aumento e confiança e auto estima nele próprio que não me lembro de ver, mas que lhe colocam, a si, ao Governo e às forças que no Parlamento o apoiam, desafios de enorme relevância!

E aqui, embora haja pessoas que, no seu pleno direito à discordância, digam que eu faria bem melhor se estivesse calado,pretendendo certamente dizer que há “vacas sagradas” nas quais não podemos mexer, sob pena de sermos abjurados por essas Esquerdas, eu só posso dizer a essas pessoas e demais que me leiam que eu, depois de quase 500 (quinhentos) textos publicados, em que à saciedade exprimi as minhas opiniões, não é agora que me vou calar… Ainda por cima por opiniões que estão abertas a todos e quaisquer contraditórios…

Se mudei de opinião? Muitas vezes já mudei e “Se na Vida tudo muda, que eu mude não é estranho…” (Julio Numhauser e Mercedes Sosa – TODO CAMBIA)!

E quais são esses desafios? Há um primeiro e essencial que é um certo deslumbramento, principalmente do PS, quanto à situação da Direita, não levando em conta do que ela é capaz, tal como tem sido bem espelhado em recentes eleições, mesmo em países Europeus. Eles são capazes de tudo e eu realço a capacidade de se colarem aos protestos dos Trabalhadores e das suas Organizações Sindicais, fazendo crer que este Governo poderia e deveria ter feito muito mais e só não o fez porque não quis ou não teve competência para tal! Competências que eles já demonstraram ter, certamente…

Depois, eu tenho visto com alguma preocupação este fenómeno de, depois deste Governo ter restituído tudo o que anterior “confiscou”, de ter reposto tudo o que anterior “retirou” e ter, ainda, restabelecido o que, não só o anterior, mas também anteriores alienaram, haver tantas greves e tantas lutas sectoriais e desgastantes, muito embora eu continue e pensar não estarem elas a ser acompanhadas ou apoiadas por uma Sociedade que, em geral, se mostra mais consciente dos resultados conseguidos pelo Governo. Mas…

Isto é, esta Oposição, inoperante, ausente de ideias e propósitos, enleada nas suas próprias idiossincrasias e nas suas contradições, vale-se das posições dos parceiros deste Governo para, através deles e das suas contradições, fazer oposição.

Pois, como entender que Partidos que votaram a favor do Orçamento na Generalidade, anunciem propostas que visam deturpá-lo na sua essência e mesmo desvirtuá-lo? Como entender? E como entender que estes Partidos (PCP e BE) aceitem que o PSD a eles se alie na reprovação de certos items? Como entender?

Como entender também que, em relação a medidas positivas conseguidas (e para isso lá estão), venham de imediato reclamar a sua autoria ou pressão definitiva, não demonstrando qualquer solidariedade com um Governo que no fundo vão suportando, mas no qual não se revêm e, por isso, recusaram e recusam dele fazer parte?

Será que, por exemplo, os Professores, ou melhor os seus representantes, os que se sentam diante do Governo para negociar, pensam mesmo que o Governo não lhes dá o que eles reclamam, sendo que tanto já lhes deu do que roubado lhes foi, porque não lhe apetece ou mesmo não quer? Ou, antes pelo contrário, pretendem mesmo uma outra politica, como em 2011 sucedeu?

Dá às tantas para subentender que, como profissionais que são, pois a maior parte deles outra coisa nunca na vida fez, desejam que tudo volte ao antes para assim poderem exercer o seu múnus, mas um múnus de que, infelizmente, durante os governos da direita muito se esqueceram…

E atenção, muita atenção, aos jornais e televisões pois, embora eu pouco as veja, já notei estarem a potenciar estes, para já, pequenos pormenores, como no “Expresso” vir “escarrapachado” que “os salários cresceram, mas o poder de compra está aos níveis de 2011…”.

Toda a gente percebe ser isto uma inverdade (basta atentar no aumento do consumo) e mesmo um silogismo, mas…que eu estou preocupado? Lá isso estou…

Mas entendo aproximarem-se tempos de decisões e destes Partidos dizerem sem sofismas o que pretendem. Eles têm medo do PS, é óbvio, e desejam que, acima de tudo, que o Povo veja reconhecida a utilidade decisiva do seu “apoio” ao Governo. Mas, também no meu entender, o Povo perguntará: e que vão fazer a seguir? Apoiar ou ser contra? E aqui torna-se tudo mais difícil para eles…

É que, depois, voltará o de sempre, o velho discurso: o de que o PS é um aliado da direita, que quando é governo só faz politicas de direita etc, etc..

Pois é! Mas durante estes três anos quem “obrigou” o PS a fazer politicas de Esquerda? Foram eles ou não? Estiveram dentro estando fora ou estiveram mesmo fora fingindo estar dentro?

Por isso vão ter de o dizer! Ou sim ou não. Ou estão dentro permanecendo fora ou estão mesmo fora não pretendendo fingir que estarão dento. Eu, pelo menos eu, já não dou para esse peditório.

E, como exijo e vou exigir essa clarificação, muito embora não pretenda uma maioria absoluta de Costa, não hesitarei em nele votar se tal clarificação não se verificar…

E se esta pressão contranatura se mantiver…Eu não pensarei duas vezes!

Tenho dito e fica escrito!


Fonte aqui

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6 pensamentos sobre “QUE FUTURO, ESQUERDAS?

  1. «depois deste Governo ter restituído tudo o que anterior “confiscou”, de ter reposto tudo o que anterior “retirou” e ter, ainda, restabelecido o que, não só o anterior, mas também anteriores alienaram»
    Seria para rir, se não fosse tão trágico. Tal como qualquer declaração sobre o emprego ou sobre as contas certas. Socialismo não é certamente, e sustentável, económica e politicamente, também não, como a próxima crise irá demonstrar com facilidade.

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  2. Quem fala assim, não é gago! Parabéns; pena é que não haja mais vozes a bater nas cabecinhas tontas, para lhes mostrar que “ esticando muito a corda, vai partir por qualquer lado”!
    O resultado de 2011 não foi nada agradável

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  3. Como podem os profes reclamar o tempo se, não tiveram tempo
    para serem devidamente avaliados? Não estão acima de outras
    carreiras da função pública! O comissário Nogueira está fora do
    prazo de validade há vários anos … devia partir para uma meia
    reforma e voltar para a Madeira onde foi muito feliz!!!

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  4. Será que a lição ainda não foi aprendida?!!! Que as legislativas elegem 230 deputados e não um primeiro-ministro ou governo? Se isto não fôr entendido, quantos votos serão desbaratados pela ignorância e quantos mais se perderão nesse “enorme partido” que é a abstenção. É que a maioria esmagadora do eleitorado português está ao CENTRO ou, pegando nas palavras de Aristóteles em Ética a Nicómaco “ao MEIO, onde está a VIRTUDE, sendo os extremos VÍCIOS…

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  5. Inteiramente de acordo, mas não devemos esquecer que há patronato a provocar. Tenho uma familiar que é professora num colégio particular numa zona especialmente rica e ganha uma miséria. Nunca fizeram greve porque iam logo para a rua.

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