A vitória morna dos democratas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/11/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Ontem, esperava-se pela confirmação de que os democratas conseguiam conquistar a maioria do Congresso, já que o Senado era praticamente impossível. Conseguiram. Isto onde permitir garantir que o debate sobre os cuidados de saúde fica onde está, impedir cortes nos apoios sociais, bloquear mais benefícios fiscais para as grandes empresas e impedir muitas das medidas que o presidente tem planeado para a imigração.

No limite, até permite um processo de impeachment, que seria um erro sem que os democratas estivessem em condições de se apresentar como alternativa. E não faria descansar ninguém quando o ultraconservador Mike Pence é o homem que se segue. Os democratas podem, de certeza, fazer a vida dos republicanos num inferno. E terão a oportunidade de o investigar, que é sempre o seu maior problema. O anúncio de “sucesso tremendo”, no twitter do Presidente, foi por isso francamente exagerado. Os próximos dois anos serão bem mais difíceis para ele do que os anteriores.

Mas os democratas ficaram bem longe da onda azul com que sonhavam. Apesar de terem crescido e vencido no voto popular, acabaram por perder senadores e as grandes esperanças em eleições de governadores não se realizaram. A maior aposta de Donald Trump estava no Senado e correu bem. Quem julgue que a perda de congresso é um cartão vermelho a Trump não olhou para os resultados com atenção. A oposição costuma vencer as intercalares. E a onda azul não aconteceu porque Trump se envolveu na campanha e tentou fazer dela um referendo a si mesmo.

Os democratas sabiam disso e não fizeram desta campanha um confronto sobre Trump. Conseguiram, por uma vez, unificar o discurso em vez de se dispersar em dezenas de temas mais ou menos identitários. E não deixaram que fosse Trump a definir a agenda. Falaram de Medicare. Segundo um inquérito do “Washington Post” nos 69 distritos fundamentais destas eleições, o único assunto tão importante como “Donald Trump” para os eleitores eram os “cuidados de saúde”. Curiosamente, Trump não escolheu o seu maior trunfo, que é a situação económica. O tema é demasiado complicado, demasiado simpático e pouco mobilizador. Preferiu dedicar a campanha a uma caravana de imigrantes que centro-americanos que se dirige para a fronteira. A verdade é que a exploração do medo vale, para Donald Trump, mais do que o seu sucesso económico. E, se os democratas não tiverem um candidato que mobilize, as duas coisas juntas irão garantir-lhe a reeleição.

MULHERES E MINORIAS

Para além de saber que espaço de manobra teria Donald Trump a partir daqui, estas eleições estavam cheias de novidades. Que se anunciaram logo nas primárias, com 474 mulheres a concorrerem para o congresso e 47 mulheres a concorrem para governadoras. Um aumento de 60% em relação ao recorde anterior que se deveu sobretudo ao Partido Democrata, responsável por 75% das mulheres que se apresentaram nas primarias para o congresso e 70% das concorrem às assembleias estaduais. O Congresso terá pelo menos 100 mulheres, coisa nunca vista. Mikie Sherrill, de New Jersey, Lauren Underwood, do Illinois, Abigail Spanberger, da Virginia, ou Scharice Davids, do Kansas (nativo-americana e gay) são algumas das estrelas do dia.

A outra novidade foi o crescimento de candidatos de minorias étnicas. Dois ganharam especial relevância. Os dois negros, os dois democratas, os dois com progressistas (ala esquerda), os dois ficaram a muito pouco da eleição: Andrew Gillum e Stacey Abrams. Gillum bateu-se por uma vitória na Florida, Abrams foi a primeira mulher negra candidata a governadora. Chegou até às urnas através de uma longa campanha de recenseamento dos negros da Geórgia. Fica, como nota, a chegada de duas muçulmanas e de duas nativo-americanas pela primeira vez ao congresso.

A vitória dos democratas foi morna. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao Congresso dão alguma esperança

Não desprezo nenhuma destas tentativas de romper com bloqueios raciais e de género. E ficou aquém do que poderia ter sido: a eleição de Stacey Abrams na Georgia, a primeira candidata negra a governadora, seria de tal forma importante que Obama, Hillary e Sanders se empenharam nela. Mas todos nos lembramos do momento histórico em que Barack Obama foi eleito. E só alguém muito distraído não percebe o que significou para uma história de descriminação racial nos Estados Unidos. Mas foi depois de Obama que Donald Trump venceu. Porque as marcas deixadas por uma brutal crise financeira mudaram os EUA. Também a vitória de Hillary Clinton teria sido um momento histórico para as mulheres. Mas não mudaria mais do que Obama mudou. A escolha de uma candidata marcada pela sua relação íntima com Wall Street e com todos os interesses de que Washington é refém para enfrentar Trump foi fundamental para a sua vitória. Era tudo o que Trump precisava para ser ele a representar a revolta americana contra o sistema. Como explicou Alexandria Ocasio-Cortez, uma socialista eleita ontem para o Congresso por Nova Iorque com quase 80%, não chega ser mulher ou de uma minoria étnica. Apesar de ser mulher e porto-riquenha, quando o seu oponente democrata nas primárias puxou dos pergaminhos cosmopolitas, ela respondeu: “o que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe”.

MAIS À ESQUERDA?

É uma vitória democrata que não pode ser contestada ter uma Câmara dos Representantes que trave a agenda fiscal e xenófoba de Trump. E é um passo em frente ter uma representação política que reflita cada vez mais a diversidade dos Estados Unidos. Mas a questão fundamental era saber se estas eleições preparavam o caminho para travar a reeleição de Trump daqui a dois anos. E isso dependeria, do meu ponto de vista, de alterações internas no Partido Democrata. Que passavam por uma renovação política, dando mais força a uma agenda progressista e motivadora, e uma renovação de pessoal político (concorreram 158 estreantes, um recorde absoluto), com a chegada de gente capaz de representar o cansaço dos norte-americanos. Por isso estive atento ao candidatos que tiveram a audácia política de desafiar um consenso moralmente derrotado dentro do Partido Democrata.

Ficou o amargo de boca de ver Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embaraço para os republicanos. Foi um trunfo

Casos como Andrew Gillum e Stacey Abrams, candidatos democratas mais à esquerda em estados que não são liberais, ou da candidatura de Beto O’Rourke, um liberal com uma agenda descaradamente progressista para a imigração e em defesa das minorias no Texas (apesar de, ao contrário de Gillum e Abrams , não ser consensual que esteja no campo progressista), jogavam um papel importante. Os três perderam por muito pouco em Estado difíceis, conseguiram resultados que há uns meses seriam inesperados e, com eleitorados tidos por conservadores, não caminharam para o centro para conquistar os votos. A primeira candidata negra a governador, na sulista Geórgia e nos EUA, ficou a 2% de Brian Kemp e conseguiu o melhor resultado dos democratas para governador desde 1998, o negro progressistas Andrew Gillum ficou a 1% de Ren DeSantis e o liberal pró-imigração Beto O’Rourke ficou a 3% de Ted Cruz no vermelhíssimo Texas. Os três morreram na praia e as suas derrotas fizeram a diferença entre a festa e a desilusão. Não faltará quem, entre os democratas, responsabilize a esquerda por estas derrotas. Mas a verdade é que três candidatos improváveis, com discursos improváveis, morderam vitórias quase impossíveis e abriram um caminho. E os três são novas estrelas políticas no campo democrático.

Foi Ocasio-Cortez, uma empregada de mesa de 29 anos, que deu o pontapé de saída às surpresas que começaram a virar os democratas à esquerda. Com um décimo do dinheiro do seu opositor, um democrata com duas décadas de Congresso que deveria vir a ser o líder da bancada democrata, Ocasio esmagou-o com 60% dos votos no distrito eleitoral que inclui parte de Queens e do Bronx. Depois dela, muitos outros surpreenderam. Sobretudo muitas outras. Inspirados por Bernie Sanders, vários candidatos progressistas fizeram cair a velha oligarquia democrata com uma agenda descarada. Mas a coisa não se fica pela agenda ideológica. Houve candidatos centristas que também representaram uma revolução no Partido Democrata. Vêm da base e conquistaram a pulso um lugar nestas eleições. É o caso Abby Finkenauer, foi eleita para o congresso, pelo Iowa, com apenas 29 anos. Não tem dinheiro para ter um carro novo ou casa própria. A chegada deste tipo de pessoas à alta política é um sinal de que alguma coisa está a mudar.

A esperança para uma mudança no Partido Democrata está mesmo nos eleitores. Entre os maiores apoiantes das candidaturas rebeldes estiveram sempre os jovens. Aqueles que começaram a pensar em política depois da crise financeira. Uma crise que deixou marcas politicas profundas que as cúpulas dos dois principais partidos norte-americanas desprezaram. Que se traduzem em números expressivos: hoje, 37% dos norte-americanos têm uma imagem favorável do socialismo. Entre os eleitores com menos de 29 anos esse número salta para os 51%, mais 12 pontos percentuais do que há oito anos. Quando Sanders concorreu às primárias democratas os seus opositores no partido diziam que o septuagenário apenas conseguiria os votos da sua faixa etária. Acabou com mais de 70% do voto jovem.

Muito mais do que a divisão do congresso entre democratas e republicanos e do que o número de afro-americanos ou de mulheres eleitas, é da capacidade dos democratas representarem em esperança o que Trump representou em ódio que depende o futuro. Perderam essa oportunidade em 2016 e o mundo está a pagar por isso. Esperamos que não as voltem a perder daqui a dois anos.

Ontem, a vitória foi morna. Mas, por uma vez, tiveram uma mensagem clara sobre um tema – cuidados de saúde –, não sendo nem reativos, nem dispersos. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao congresso dão alguma esperança. Ficou o amargo de boca de ver, por três unhas negras, Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embraço para os republicanos. Foi um trunfo.

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