A luta sempre continua

(Alexandre Abreu, 01/01/2018)

abreu

Tristes tempos estes, em que um sociopata que prega o ódio e o desrespeito pelos valores mais básicos da humanidade e da decência é eleito presidente do Brasil. Este é um tempo de monstros, em que os piores indivíduos canalizam os piores sentimentos de medo e revolta das pessoas.

Veremos agora se as instituições brasileiras de defesa da Constituição e da lei são suficientemente sólidas para refrear os ímpetos mais nefastos de Bolsonaro e dos seus apoiantes. Isso está muito longe de estar garantido: vimos de que forma o Congresso brasileiro afastou uma presidente eleita a pretexto de uma irregularidade menor em matéria orçamental para em seguida proteger Temer, contra quem existiam provas flagrantes de corrupção, de ser julgado. Sabemos como Sérgio Moro, que se prepara para continuar a julgar o processo penal contra Lula, fez abertamente campanha por Bolsonaro e está a ponderar aceitar o lugar de ministro da justiça. Escutámos as ameaças de auto-golpe por parte do General Mourão, o vicepresidente eleito.

Não sabemos até que ponto Bolsonaro conseguirá concretizar a liberalização da posse de armas e as consequências que isso poderá ter num país em que está em curso uma epidemia de homicídios, mas conhecemos bem os resultados do modelo norte-americano de liberalização. Garantidos, em contrapartida, até porque já começaram, estão as ameaças e ataques, nas ruas e nos organismos do Estado, contra os direitos civis, a liberdade de expressão e as minorias.

Na economia, é claro ao que vêm Bolsonaro e os que o rodeiam. Paulo Guedes, futuro ministro da economia e finanças e mais recente Chicago boy a assegurar o alinhamento neoliberal da extrema-direita latino-americana, indicou já as linhas-mestras da política económica do futuro governo: privatização do que resta do sector empresarial do Estado, reforma da Segurança Social e reforma orçamental. A reforma da Segurança Social passa pela introdução de contas individuais segundo um modelo de capitalização e pela entrega da gestão ao sector privado. A reforma orçamental assenta na redução drástica das despesas sociais e em tornar os impostos menos progressivos. Tudo em linha com o cânone neoliberal, tudo de molde a agradar aos ricos e à bolsa, que exultou em reacção ao resultado eleitoral.

No país em que se situa de longe a maior parte da Amazónia, Bolsonaro prepara-se para fazer desaparecer o ministério do ambiente, fundindo-o com o da agricultura e subordinando-o aos interesses agroindustriais que ajudaram à sua eleição. O Brasil deverá abandonar o acordo de Paris. As acções dos trabalhadores sem-terra deverão ser tipificadas como terrorismo. Os direitos dos indígenas são para ignorar e atropelar.

No meio de todo este horror, é fácil sucumbir ao desânimo e ao medo. Mas há sempre quem continue a lutar, sabendo que atrás de tempo, tempo vem. Este é por isso também o momento de retirar inspiração da luta dos indígenas e negros brasileiros, que resistem há séculos contra o genocídio e opressão. É também tempo de resistência, solidariedade e coragem. Como recordou no início desta semana Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, não há vitórias ou derrotas definitivas: os únicos derrotados são os que cruzam os braços.

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