Os nossos erros e o oportunismo de outros

(José Soeiro, in Expresso Diário, 03/08/2018)

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José Soeiro

Comecemos pelo fim. Sim, o negócio da família de Robles, como esteve para ser feito no ano passado, entrava em contradição com o que o Bloco defende para a cidade. Sim, nós somos o que defendemos e as posições por que lutamos, mas somos também o que fazemos. E se quem é de esquerda não tem de viver num planeta paralelo e muito menos de ser um asceta, convém que aquilo que fazemos contribua o mais possível para o tipo de mundo por que lutamos, e não para o tipo de sociedade que combatemos. Havia pois uma incongruência entre a intenção de fazer aquele negócio e o programa que o vereador defendia. Robles não retirou privilégios do seu cargo e, como se sabe, os apartamentos de Robles não foram vendidos. Mas existiu a possibilidade de o serem, isso minou a confiança das pessoas e justifica a renúncia de Robles. O Bloco errou na sua análise e reação inicial? Sim. Errámos. Só não reconhece o erro quem não está disposto a corrigi-lo.

É certo que este episódio não apaga a prestação do Bloco na Câmara de Lisboa nos últimos 9 meses: as propostas justas sobre creches públicas (380 vagas a ser abertas), acesso gratuito a manuais escolares, direitos LGBTQ+, saúde pública, redução de riscos (e a primeira sala de consumo assistido do país que será aberta), regulação do turismo e acesso à habitação (o Programa Renda Apoiada, negociado por Robles, prevê a disponibilização de 3 mil fogos durante o mandato e a oferta de mais 400 camas/ano em residências universitárias). Só que o exercício de um mandato não depende apenas das propostas, mas também de confiança – e a congruência conta. Concordo que não devemos desvalorizar isso. Sermos mais exigentes connosco à esquerda é normal. A política e a vida não são duas coisas separadas. E mal estaremos quando forem.

Para além do que ficou dito, há outras duas questões importantes a propósito deste caso, colocadas por dirigentes de outros partidos.

Uma delas explicitou-a João Ferreira, vereador do PCP em Lisboa: “Para nós, a questão relevante não é o caso individual, mas é o facto de este caso evidenciar, tal como muitos outros, a dinâmica de especulação em que a cidade está mergulhada”, disse o dirigente comunista. Na verdade, pergunta-se, então: por que razão o coro dos indignados com a “intenção especuladora da família Robles” não se indigna com as operações especulativas já realizadas ou em vias de se realizar pela cidade? A resposta é simples: uma grande parte dos que utilizaram o “caso Robles” para berrar contra a especulação estão-se pura e simplesmente nas tintas para a especulação, quando não mesmo a glorificam. O seu interesse era outro: zurzir e desacreditar o Bloco, por ser justamente um partido que tem feito um combate sem tréguas à especulação através das suas propostas, e que tem hoje um papel determinante no país e na solução política que existe. Notícias e comentários ridículos que, dias depois, foram publicados ou as declarações indecorosas de Assunção Cristas (a responsável da lei que mais promoveu o fenómeno) são eloquentes a esse propósito.

A segunda questão colocou-a Rui Rio – alguém com quem estou quase sempre em desacordo – quando disse esperar que a decisão de Ricardo Robles “sirva de exemplo a pessoas noutros partidos, que com coisas ainda piores, às vezes até do foro judicial, não tomam a mesma atitude”. O desafio é forte: gostaria de dizer que ansiamos todos uma enxurrada de notícias sobre os responsáveis políticos dos vários partidos com negócios ligados ao imobiliário ou à turistificação e uma catadupa de demissões. Mas desconfio que nada disso vai acontecer. O desafio de Rui Rio vai cair em saco roto e muitos dos que se aproveitaram do caso para destilar o seu ódio contra o Bloco não só não querem que isso aconteça como se empenharão ativamente para que isso não possa jamais acontecer.

Esta é a parte de enorme hipocrisia que, à boleia do caso Robles, transbordou nos últimos dias. Onde está este coro de indignados relativamente ao veto do Presidente, esta semana, a uma lei proposta pelo Bloco e aprovada pelo PS, Bloco, PCP, Verdes e PAN, que protege os inquilinos e que combate a especulação, dando aos moradores o direito de preferência?

Como é evidente, todas as leis podem sempre ser melhoradas. Mas ao adiar a promulgação, Marcelo desprotege gravemente os moradores: daqui até setembro, que é quando a lei voltará a ser discutida, a Fidelidade terá o tempo de concluir o negócio que envolve 277 imóveis e mais de 2000 frações, pondo em causa o direito à habitação de centenas de famílias. Isto é gravíssimo. A proteção deste negócio especulativo pelo Presidente já mereceu o aplauso do CDS e do PSD (e, mais discreto, mas não menos relevante, do fundo imobiliário Apolo, que comprará os imóveis). As famílias sabem com quem contam e com quem não contam para lutar pelos seus direitos. Seria bom que a indignação explodisse também a propósito disto.

Estes episódios, ensinam-nos por isso também alguma coisa sobre dirigentes políticos e colunistas cuja indignação é seletiva e cujo duplo padrão em termos de exigência é uma máscara para o oportunismo. A política não pode, evidentemente, ser um exercício de clubismo ou de lealdades afetivas: é curiosidade, humildade, capacidade de aprender com o que fazemos. Mas a política é combate. E não nos deixemos distrair: ele está aí – e em força.

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2 pensamentos sobre “Os nossos erros e o oportunismo de outros

  1. Onde está a capa do Jornal Económico com o Marcelo e este veto?

    Onde está a enxorrada de paineleiros a exigirem explicações sobre este acessoria?

    Onde estão as perguntas incómodas dos jornalistas sobre este conflito de interesses?

    Onde estão as exigências de demissão de Presidente que deixa 2000 famílias em risco de despejo, graças a um veto acessorado por um especulador com interesse total neste veto?

    Onde está o jornalismo de investigação, em relação a isto, ao “tutti-fruti”, aos 7 milhões de fundos europeus roubados pela Tecnoforma, etc?

    Agora que o golpe está consumado (fragilização do mais forte opositor à especulação, o BE, e veto Presidencial com cobertura jornalística quase zero, já em modo silly-season), agora já não é preciso mais “jornalismo de investigação” nenhum…

    Quando estas pessoas forem todas despejadas, se o BE reclamar, lembrarão de imediato o Robles (que por acaso não despejou morador nenhum, nem especulou com a renda, ao cobrar apenas 170 € por mês), e mata-se o assunto de vez. O acessor do Marcelo abre o champanhe, e siga para a próxima manchete de um qualquer blog de propaganda da direita-radical a fazer de conta que é um jornal.

    Ainda não tinha decidido em quem iria votar em 2019 (a indecisão era entre BE, Livre, e PAN), normalmente faço-o 12 meses antes das eleições, que são um triste espetáculo em que recuso participar ou sequer visualizar, mas depois deste ataque, ficou claro quem me defende: BE. Está decidido.

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