O tiro ao Robles

(Paulo Casaca, in Jornal Tornado, 30/07/2018)

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Cada vez me sinto mais dissociado desta tendência da humanidade em reagir como cardume de piranhas ao sentir a presença de sangue na água, e essa tendência faz-se sentir em todas as latitudes, com a opinião pública a devorar qualquer figura pública apanhada em falso com um frenesim que só me faz lembrar essa espécie.

Para animar o noticiário de um Verão em que a vaga de calor e os consequentes incêndios rumaram para outras paragens, surgiu assim a história dos negócios imobiliários do vereador lisboeta do Bloco de Esquerda, que nada tem de actual mas que tem tudo de picante. Aparentemente, tudo ou quase tudo foi dito sobre o assunto, e no entanto, creio que tudo o que é essencial ficou por dizer, e é por isso que volto ao tema.

primeira nota é no plano partidário. Acho que pessoalmente ficou muito bem à líder bloquista a defesa cerrada que fez do seu colega de partido, com um toque de solidariedade partidária que já não se via há muito tempo, embora não seja menos verdade que – do ponto de vista do partido – a sua atitude foi indefensável e suicidária. O episódio no entanto evidencia o disfuncionamento do sistema partidário nacional em que se vota apenas em siglas e não em pessoas.

segunda nota é a de que na dissociação total entre a prática e o discurso do vereador, toda a gente trucidou a sua prática e poupou o discurso, e estou em crer que o mais aberrante não foi a prática mas o discurso que ataca todo o investimento imobiliário e o turismo como se estes fossem a doença do país em vez de serem a sua boia de salvação.

O problema não é o então deputado municipal ter comprado barato, é o Estado – e note-se que a segurança social era então gerida pela coligação de direita – ter desbaratado o seu património a preços de saldo. Como é possível que ninguém no Governo tenha entendido que o seu papel é vender o imobiliário quando o seu preço aquece e não quando arrefece, tanto como forma de regular o mercado como por forma a defender o interesse público?

E porque razão o leilão não foi divulgado internacionalmente? O discurso patrioteiro quer apenas dizer que os pobres (que dependem da segurança social) pagam as oportunidades para as fortunas dos ricos. Esse discurso é profundamente reacionário, e faz parte da deriva global da nossa extrema-esquerda para a extrema-direita.

Dir-se-á ainda, por que razão não exerceu a Câmara Municipal de Lisboa o seu direito de opção de compra? Na teoria, acho muito bem que a edilidade intervenha, reservando socialmente parte da habitação a recuperar, mas basta lembrar-nos do total clientelismo com que o município gere o seu parque habitacional, para dizer que nas condições presentes isso iria apenas agravar ainda mais as injustiças sociais.

terceira nota é a de que esse discurso demagógico e reaccionário contra o investimento, a modernização e o turismo do “Bloco de Esquerda” foi copiado pela quase totalidade do espectro político. Atente-se aliás aos termos burlescos do comunicado público do PSD que exige a demissão do vereador pelo crime de especulação imobiliária e não pelo que faria sentido, pela falta de sustentação prática do seu discurso.

Reduzir este episódio ao trucidar do Bloco de Esquerda apenas poderá contribuir para que tudo continue na mesma, com a mesma hipocrisia, a mesma cedência demagógica aos argumentos primários e o mesmo clientelismo que são iguais em todos os partidos.

quarta nota é para o que significa a “especulação imobiliária”. Quem tenha lidado com a literatura do princípio do século XX terá certamente reparado que a generalidade do investimento em novas actividades, nomeadamente industriais, era apelidado de “especulativo”, e hoje regressámos quase ao mesmo.

Em geral, o investimento é feito com base em especulação, ou seja, com base na hipótese de o mercado responder às expectativas dos investidores. Isso só não é assim em contratos ruinosos para o erário público como os feitos sob a sigla de PPP em que o investidor fica com os lucros garantidos pelo Estado e este com os riscos e as dívidas.

O problema da especulação imobiliária lisboeta é outro, que não o de especular no comportamento do mercado. É o de o investidor partir do princípio que o mercado sobe sempre e, como um inquilino é sempre uma maçada, manter um prédio velho e inabitável no centro da cidade é um bom investimento.

quinta nota é relativa ao comportamento exorbitante do mercado imobiliário da capital. Creio que devemos encarar o problema em duas vertentes distintas:

  1. A primeira é a da gestão da conjuntura que neste particular deveria ser feita pelo Banco de Portugal. Todos sabemos que uma das principais razões para a violência da crise de 2008 foi a febre imobiliária portuguesa. Menos entendido é o facto de isso ter sido particularmente mais grave em Portugal do que noutros países por ter sido alimentado por créditos internacionais concedidos à banca portuguesa que serviram simultaneamente para cobrir o défice das contas externas. Por outras palavras, o défice externo português é a outra face da febre imobiliária. Sabendo-se isso, sabendo-se que a única forma que na UEM temos de combater essas derivas é através da acção do banco central, é absolutamente incompreensível que este tenha voltado a deixar que voltássemos ao mesmo sem nada fazer, ou melhor, limitando-se a fazer umas hipócritas e ridículas pregações morais “contra o crédito imobiliário excessivo” depois do tempo e sem as acompanhar de medidas.
  2. A segunda vertente é a de existir uma procura real e estrutural de habitação na capital. É incompreensível que não existam programas públicos de recuperação e de construção de novas habitações – e o espaço existe em Lisboa – como forma de responder à procura. É claro que parte dessa habitação pode e deve ter fins sociais se assegurarmos a instituição de mecanismos de transparência e de rigor.

São cinco lições essenciais que creio que seria mais útil tirar do que alimentarmos o mórbido hábito de malhar em quem está caído no chão.


Fonte aqui

Erro de casting ou decadência das instituições?

(Carlos Esperança, 29/07/2018)

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Santana Lopes foi eleito académico de mérito da Academia Portuguesa da História. Não ficou registado em ata o nome do/a proponente, mas há decerto razões para distinguir o ora académico de mérito da Academia de Ciências de Lisboa, instituição que tem por objeto, entre outras atribuições, “…estimular o estudo da língua e literatura portuguesas e promover o estudo da história portuguesa…”.

O novel académico não tem carreira fulgurante no campo cultural. Quando secretário de Estado da Cultura, de Cavaco Silva, ficou manchado pelo veto do seu subsecretário, Sousa Lara, a ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’, de José Saramago, à candidatura do Prémio Literário Europeu. Não foi também o envio de felicitações a Machado de Assis, falecido em 1908, com votos de sucesso literário pessoal no lançamento da reedição de Dom Casmurro, em Lisboa, para que fora convidado como presidente da Câmara, que lhe ampliou o prestígio cultural.

Apesar do gosto pela música erudita e de «adorar ouvir os violinos de Chopin” [sic],não tinha obra de investigação ou publicações que o recomendassem, mas a cultura não lhe é alheia e a aprovação unânime pelos 14 ‘académicos de número’ presentes, justifica-se:

– O ora académico da prestigiada instituição apoiou a publicação da Obra Completa do Padre António Vieira (2013-2014), com 500 mil euros, montante com que a Santa Casa da Misericórdia participou quando era ele o Provedor;

– Quando presidente da Câmara de Lisboa, cedeu à Academia Portuguesa da História as instalações que ainda hoje ocupa, facto citado pela presidente da Academia Portuguesa da História, Manuela Mendonça, no elogio feito ao novo membro honorário.

Como se vê, a Academia Portuguesa da História estava em dívida para com ele, dívida reparada neste mês de julho e que dá jeito no currículo de qualquer fundador de um novo partido político.

Um honrado professor da Escola Naval, oficial superior da Marinha de Guerra, das suas numerosas condecorações, apenas tinha orgulho na medalha do Instituto de Socorros a Náufragos, resultante de um donativo seu, não da Associação dos Pupilos do Exército, de que era presidente.

Sem retirar mérito académico a Santana Lopes, imagino o Aiatolá Khomeini galardoado pela Confraria do Leitão à Bairrada, o que não surpreenderia depois de Cavaco Silva ter sido agraciado com o Grande-Colar da Ordem da Liberdade.

Erros de casting.

A generalizada e epidémica falta de bom senso

(Pacheco Pereira, in Sábado, 29/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

O bom senso não comanda a vida, nem tem muita fama em tempos em que as pessoas se acham imaginativas, criadoras, inovadoras, pensam fora da caixa, voam no plano artístico, são originais, etc., etc. Também é verdade que ninguém sabe muito bem o que é o bom senso, mesmo quando o bom Descartes lhe deu fama filosófica.

Mas se podemos não saber o que é o bom senso, estou mais que certo de que sabemos muito o que é a falta de bom senso. Aqui vão alguns exemplos.

Centeno faz uma segunda versão do que disse Santos Silva
O que é que leva os ministros socialistas a andarem à compita para irritarem a geringonça? Há a tese conspirativa de que estão combinados com Costa para fazerem de polícia mau enquanto o primeiro-ministro transpira de amor e juras eternas à geringonça como polícia bom, se é que há tal coisa. Numa situação como a que se vive hoje entre PS, PCP e BE, haver irritantes é tudo menos racional. Mesmo quando tenham de lhes dizer que não, façam-no com discrição para lhes dar margem de recuo. Algum bom senso faz falta.

Avô, avó, pai, mãe, filho, bebé e cão – todos apostam
Há problemas que a gente vê a caminho, quase a galope, na nossa direcção. Acabei de assistir a um dos muitos reclames de apostas online, este com um pai e um filho adolescente a comparar sucessos nas apostas. Não sei se há alguma regulação para este tipo de anúncios, mas colocar adolescentes a jogar online é alargar para um sector etário muito vulnerável uma prática que já não é saudável nos adultos. Algum bom senso faz falta.

Cromos de criminosos
Não sei o que passa pela cabeça da Europol para fazer uma colecção de cromos de criminosos com o objectivo de popularizar as caras dos ditos e, eventualmente, localizá-los e prendê-los. Nos cromos aparecem como jogadores de futebol, com camisolas idênticas aos clubes, e esta encenação normaliza-os e dá-lhes um aspecto em nada diferente dos jogadores. Alguém vendeu esta ideia à Europol, mas a ideia é má. Quando prenderem o primeiro por causa dos cromos digam-nos. Duvido e muito. Algum bom senso faz falta.

O Rei Leão das Patilhas 
Eu não sei quem é o senhor Rei Leão das Patilhas que compra carros, mais acho o nome magnífico, como um Ricardo Coração de Leão ou Príncipe Negro. Mas o dito senhor é um vândalo certificado. Cola ou manda colar os seus cartazes com o nome e número de telefone em cima de tudo o que mexe, vidros de paragens de autocarro, cartazes institucionais ou partidários, publicidade, placas de direcções, paredes que estavam intactas. Se fossem grafitos, ou aquela coisa imbecil dos tags, a polícia ia atrás, como é um Leão tudo lhe é permitido. E se as pessoas lhe começarem a responder em espécie com brigadas anti-Leão a varrer os milhares de números de telefone para compra de carros? Algum bom senso faz falta.

Não lhe ponham um açaimo e vão ver
Meter Trump no meio de Centeno, Europol, as apostas online e o Leão das Patilhas é muita falta de bom senso, até porque o problema que ele é está muito para lá de qualquer variante, positiva ou negativa, da palavra senso. Trump é o maior perigo para a paz do mundo nos dias de hoje e a escalada com o Irão injustificada (a pressão sobre o Irão é-o, a escalada não) vem do pior dele mesmo. Nós estamos sempre a tentar racionalizar o que ele faz, a encontrar um fio condutor para a sua política por muito que seja caótica, e, nalguns casos, essa lógica existe. Mas estão subsumidos pela sua obsessão consigo próprio do domínio do patológico e como ninguém consegue pô-lo na ordem, ele anda aos urros quando alguma coisa lhe corre mal. E muita corre-lhe mal.