A generalizada e epidémica falta de bom senso

(Pacheco Pereira, in Sábado, 29/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

O bom senso não comanda a vida, nem tem muita fama em tempos em que as pessoas se acham imaginativas, criadoras, inovadoras, pensam fora da caixa, voam no plano artístico, são originais, etc., etc. Também é verdade que ninguém sabe muito bem o que é o bom senso, mesmo quando o bom Descartes lhe deu fama filosófica.

Mas se podemos não saber o que é o bom senso, estou mais que certo de que sabemos muito o que é a falta de bom senso. Aqui vão alguns exemplos.

Centeno faz uma segunda versão do que disse Santos Silva
O que é que leva os ministros socialistas a andarem à compita para irritarem a geringonça? Há a tese conspirativa de que estão combinados com Costa para fazerem de polícia mau enquanto o primeiro-ministro transpira de amor e juras eternas à geringonça como polícia bom, se é que há tal coisa. Numa situação como a que se vive hoje entre PS, PCP e BE, haver irritantes é tudo menos racional. Mesmo quando tenham de lhes dizer que não, façam-no com discrição para lhes dar margem de recuo. Algum bom senso faz falta.

Avô, avó, pai, mãe, filho, bebé e cão – todos apostam
Há problemas que a gente vê a caminho, quase a galope, na nossa direcção. Acabei de assistir a um dos muitos reclames de apostas online, este com um pai e um filho adolescente a comparar sucessos nas apostas. Não sei se há alguma regulação para este tipo de anúncios, mas colocar adolescentes a jogar online é alargar para um sector etário muito vulnerável uma prática que já não é saudável nos adultos. Algum bom senso faz falta.

Cromos de criminosos
Não sei o que passa pela cabeça da Europol para fazer uma colecção de cromos de criminosos com o objectivo de popularizar as caras dos ditos e, eventualmente, localizá-los e prendê-los. Nos cromos aparecem como jogadores de futebol, com camisolas idênticas aos clubes, e esta encenação normaliza-os e dá-lhes um aspecto em nada diferente dos jogadores. Alguém vendeu esta ideia à Europol, mas a ideia é má. Quando prenderem o primeiro por causa dos cromos digam-nos. Duvido e muito. Algum bom senso faz falta.

O Rei Leão das Patilhas 
Eu não sei quem é o senhor Rei Leão das Patilhas que compra carros, mais acho o nome magnífico, como um Ricardo Coração de Leão ou Príncipe Negro. Mas o dito senhor é um vândalo certificado. Cola ou manda colar os seus cartazes com o nome e número de telefone em cima de tudo o que mexe, vidros de paragens de autocarro, cartazes institucionais ou partidários, publicidade, placas de direcções, paredes que estavam intactas. Se fossem grafitos, ou aquela coisa imbecil dos tags, a polícia ia atrás, como é um Leão tudo lhe é permitido. E se as pessoas lhe começarem a responder em espécie com brigadas anti-Leão a varrer os milhares de números de telefone para compra de carros? Algum bom senso faz falta.

Não lhe ponham um açaimo e vão ver
Meter Trump no meio de Centeno, Europol, as apostas online e o Leão das Patilhas é muita falta de bom senso, até porque o problema que ele é está muito para lá de qualquer variante, positiva ou negativa, da palavra senso. Trump é o maior perigo para a paz do mundo nos dias de hoje e a escalada com o Irão injustificada (a pressão sobre o Irão é-o, a escalada não) vem do pior dele mesmo. Nós estamos sempre a tentar racionalizar o que ele faz, a encontrar um fio condutor para a sua política por muito que seja caótica, e, nalguns casos, essa lógica existe. Mas estão subsumidos pela sua obsessão consigo próprio do domínio do patológico e como ninguém consegue pô-lo na ordem, ele anda aos urros quando alguma coisa lhe corre mal. E muita corre-lhe mal.