Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas

(José Pacheco Pereira, in Público, 14/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Não costumo muito ficar envergonhado com a atitude de outros, em particular quando não tenho muitas expectativas sobre o seu comportamento. Mas envergonha-me a cena de submissão que os dirigentes europeus da UE e da NATO têm feito diante de um Trump que os insulta, ataca, ameaça, mente descaradamente, gaba-se, batendo no peito como os gorilas, faz afirmações inaceitáveis, chantageia-os com tomadas de posição de enorme gravidade para a paz e segurança dos seus países, mostra desprezo pelos seus acordos e alianças, interfere na política interna das democracias (nas autocracias e ditaduras nem uma palavra), ou seja, faz tudo o que não deve fazer por nenhuma regra diplomática, de bom senso, de educação, e eles sorriem, baixam a cabeça, apressam-se a correr para o lugar na fotografia, como gnomos que são.

Ao lado do que aconteceu nesta visita europeia de Trump, as declarações do G7 parecem um acto de heroicidade, pelos vistos já esquecido. Ver Theresa May ao lado de Trump a comportar-se como uma ovelhinha, a permitir que ele minta descaradamente sobre o que disse no dia anterior, a acusar os jornalistas do Sun de manipular as suas palavras, quando estes tem a entrevista gravada e passaram as partes controversas logo a seguir para mostrar quem mente, a aceitar os elogios do mesmo homem que lhe provocou no dia anterior consideráveis estragos num poder já de si muito frágil, diz muito da covardia e da hipocrisia da senhora.

Mas o que é mais grave é que, nessa entrevista a dois, Trump recusou-se a responder a uma pergunta da CNN por ser “fake news”, para responder a Fox News “real news”. May estava ao lado, nem piou, nem sequer tomou a iniciativa de dar ela a palavra ao jornalista da CNN, para mostrar a diferença. Nada. Mas a verdade é que os jornalistas presentes continuaram como se nada se passasse. Havia um ambiente de boa disposição, sorrisinhos, anedotas, tudo bons amigos, babados por estar diante do homem mais poderoso do mundo. Uma vergonha esta complacência com Trump e os seus abusos, que mostra como se pode ser o bruto que ele é e passar impune.

O que faz falta é que alguém diante de Trump e em directo lhe responda de forma clara e inequívoca, que se levante e lhe diga algumas verdades, já que não conseguirá dizer muitas, porque será calado e escoltado para fora da sala. Que faça aquilo que os anarquistas chamavam “a propaganda pelo exemplo”, uma das coisas mais poderosas quando se pode fazer diante de milhões de pessoas que estão a ver ou vão ver, como seja dizer esta simples frase: “O senhor Presidente, sua Excelência, Sir, sua Majestade, sua Eminência, Grande Negociador, etc., por que razão o senhor mente tão sistematicamente, por que razão é um mentiroso?” Não lhe perguntem sobre políticas, que ele aí vai dizer o que quer, dependendo de quem está ao lado e, no dia seguinte, muda tudo na solidão do Twitter ou vice-versa. Mas duvido que hoje abundem as pessoas que possam ter estatuto para estar diante dele, sejam governantes, sejam jornalistas, e que tenham essa pequena coragem, nem muito especial, nem muito coragem, de não ter transigência, nem complacência com Trump e o confrontar.

Eu admito que eles possam ter medo de Trump e, pensando bem, não é uma atitude desprovida de sentido, porque o homem é muito perigoso. Mas o que estes gnomos fazem está muito acima do medo, é um exercício que mistura reverência ao poder, subserviência, e pura e simplesmente vaidade por estarem ali ao lado do Presidente dos EUA, a bater nas costas uns dos outros, e pensando: “Que importantes que nós somos.” Eles não gostam de Trump, riem-se dele em privado, denunciam-lhe as grosserias entre amigos, contam as anedotas malévolas sobre as Stormy Daniels da vida dele, sugerem que ele está nas mãos de Putin, mas lá, diante dele, perdem a bazófia toda.

Desde o primeiro dia que penso e escrevo que com Trump só resulta a intransigência total. Nem salamaleques, nem sorrisos, nem sequer vontade de estar perto. As pessoas dignas do Reino Unido estão na rua a protestar, sob a imagem cruel do balão representando um bebé Trump birrento, mau como só uma criança pode ser.

No fundo, estamos na pátria de William Golding, o autor de O Senhor das Moscas, que retrata como um grupo de crianças regressa à selvajaria quando deixados sós numa ilha. Levantem bem alto o balão e passeiem-no bem visível diante de Theresa May e dos seus confrades europeus, crescidos no corpo e na idade e pequeninos em tudo, servos do Senhor das Moscas.

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2 pensamentos sobre “Os gnomos de Trump e o Senhor das Moscas

  1. Trump ganhou as eleições há um ano? Dois?
    Não sei porque sempre me importei menos com Trump do que com Pacheco. Um é o “verdadeiro artista troca-tintas estúpido americano” que os americanos terão de resolver, o outro é o “verdadeiro artista troca-tintas intelectual sério à portuguesa” que me preocupa porque, sendo ele português e político, também é comigo.
    Sim, este mesmo Pacheco que imediatamente a Trump ganhar as eleições o avaliou, gabou e elogiou grande a inteligência de ter percebido e compreendido o mundo dos abandonados e deserdados, arruinados e desprezados trabalhadores do Midwest americano. Cantou esse lado iluminado de Trump em contraponto aos obscuros comportamentos e acções políticas e militares de Clinton pelo mundo como dirigente Democrata.
    O pensamento(m-l) de juventude nunca o largou e sempre que qualquer louco idiota proclama umas “bocas” anti-sistema logo o Pacheco o toma como o revolucionário do dia. Assim, aderiu de repente às “certezas” catedráticas infalíveis de Cavaco, à certeza das “bombas” nucleares no Iraque avistadas pelos “quatro” a partir dos Açores, às certezas de que Sócrates é corrupto, que Trump é inteligente e nunca teve dúvidas que Duarte Lima foi sempre o seu chefe de bancada sério.
    Já se calaram tantos oráculos falhados e tu não te calas?

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  2. Excelente artigo de opinião. Diz aquilo que todos vemos e que nos envergonha, mas que poucos denunciam com o brilho e a clarividência do Pacheco Pereira. Obrigada e oxalá comecem a aparecer exemplos, entre os governantes europeus, de intransigência zero em relação ao Trump. Entre muitas outras atitudes, a UE carece urgentemente de dignidade e ousadia no respeita à sua relação com esta América.

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