Os gargantas fundas

(In Blog O Jumento, 15/02/2017)
É um dos lados escuros da política portuguesa de quem ninguém fala, os militantes ou simpatizantes que os partidos colocam em altos cargos da Administração para que lhes sirvam de informadores quando não estão no poder. Não raras vezes vemos políticos da oposição a fazerem intervenções que fazem supor um conhecimento dos dossiers que vai muito para além do que seria permitido pela sua confidencialidade.
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Esta prática vai tão longe que até temos um comentador televisivo que semana após semana aparece na SIC ganhando protagonismo graças à facilidade com que acede a dossiers a que um mero advogado privado seria suposto não aceder. O momento mais alto desta orgia aconteceu quando Marques Mendes tornou públicas as propostas do Banco de Portugal. É óbvio que acedeu a um dosseir altamente confidencial e só “desbocou” quando sabia que o dossier já tinha chegado ao governo. Não se sabe de onde veio a fuga de informação, se do BdP ou do governo, desta forma todos saem incólumes e o “garganta funda” de Marques Mendes não foi denunciado.
Este é um exemplo que salta aos olhos, se ouvirmos com atenção as intervenções de Passos Coelho percebe-se com frequência que acedeu a mais informação do que aquela que a lei permite que seja tornada pública ou mesmo comunicada ao parlamento. O mais recente exemplo desta forma de fazer oposição sucedeu com a suposta mentira de Centeno. Quando a direita exigiu a correspondência entre Centeno e Domingos fê-lo de uma forma que deixava óbvio que sabia que daí poderia vir matéria para alimentar o folhetim. E assim foi.
Agora insistem, em ter acesso aos SMS entre Centeno e Domingos, algo que muitas vezes apagamos, da mesma forma que não gravamos as conversas telefónicas.
A direita exige algo que só em crimes com penas superiores a 3 anos a justiça pode exigir, e fá-lo em condições que as polícias não podem fazer, exigem gravações. É óbvio que a direita sabe muito bem o que está nos SMS, também sabe que Centeno pode argumentar que os apagou, como faz qualquer pessoa. Então porque motivo a direita insiste? A direita sabe que existem os SMS, porque alguém os guardou e  os colocou à disposição de quem quer tramar Centeno.
Já não estamos no debate de ideias ou mesmo no apuramento da verdade, estamos no domínio da intriga e do golpe baixo. A partir de agora é bom que os políticos evitem enviar SMS, pois nunca saberão se o SMS ingénuo a que estarão a responder não será uma cilada; a resposta que estão a dar de forma informal com meia dúzia de caracteres pode ir parar às mãos de Passos Coelho ou de qualquer outro político no dia seguinte.
Não é a primeira vez que Passos Coelho e a sua equipa recorrem a truques na política, a sua equipa que ganhou experiência nas lutas das associações de estudantes, usaram e abusaram de truques nas redes sociais e nos programas com participação de ouvintes, nas rádios e televisões. Agora vão mais longe, estão usando informação privilegiada e pessoal para montar ciladas. Perdida a esperança do segundo resgate, falhada a vinda do diabo, Passos e a sua equipa de extremistas socorre-se de todos os meios para sobreviver.


A noiva, o corno e a alcoviteira

(Por Estátua de Sal, 15/02/2017)

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Sempre fomos um país de originalidades e propenso aos folhetins de escárnio e mal-dizer. Desde Gil Vicente, pelo menos, que o género faz sucesso em terras lusitanas, sendo tal sucesso tanto maior quanto mais escandaloso e apimentado for o enredo.

Vem isto a propósito da novela que perpassa em toda a comunicação social acerca da mensagens trocadas entre António Domingues, ex-presidente da CGD, e o ministro das finanças, Mário Centeno. A direita explora até à náusea o tema, arma-se em flibusteira da verdade, ela que tem o maior currículo de vigarice encartada e de escola de trampolinice.

Como em todos os namoros, Centeno terá trocado com Domingues emails e SMS, tentando acordar no que deveria ser o dote do enlace e lavrar, em conformidade,  um documento pré-nupcial. A noiva fazia o que podia para cair nas boas-graças do disputado pretendente, almejando consumar o desejado nó, e tentando satisfazer-lhe as exigências. Mas, como todas as noivas, tinha as suas limitações. O pai da noiva, Costa de seu nome, lá ia abrindo os cordões à bolsa, aceitou tudo, menos uma das condições avançadas pelo pretendente, a saber que este não tivesse que revelar à populaça o dote próprio com que ele mesmo se apresentava para a união. E Centeno, como todas as noivas, tentou ultrapassar o confronto, tentando que uma, ou ambas as partes, fossem menos irredutíveis na sua disputa.

Como sabemos, não conseguiu.  O pretendente Domingues, sentiu-se corneado e bateu com a porta. A história podia ter acabado aqui. Mas não. Como alguém disse, de forma lapidar, a dor de corno é a maior dor do mundo, e origina acções de vingança e malvadez. Uma das formas modernas da vingança do corno é publicar no Youtube, para gáudio da devassa pública e humilhação da outra parte, filmes de cenas íntimas ocorridas antes de selado o desencontro do par. Não tendo havido sexo, no caso em apreço, restavam a Domingues as mensagens de telemóvel usando-as de forma sonsa e furtiva, de modo a ocultar o seu despeito.

E é nesse processo de sonsice e de ocultação do despeito que o papel da alcoviteira, neste caso o também sonso Lobo Xavier vem a terreiro, prestando-se a um papel de mensageiro do mexerico e da intriga, e fazendo chegar as mensagens trocadas ao maioral da urbe, de seu nome Marcelo. Julga Xavier que assim reforça a sua importância pública. E isto porque supostamente sabe coisas que a populaça não sabe. Ataca a noiva e o pai da noiva, não em nome próprio – porque também é sonso -, mas em nome do corno de quem é uma espécie de trombeteiro, para que a indignidade do dito cujo, revelando mensagens privadas, não venha ao de cima.

Meus caros, este é o folhetim que vai entretendo o país nos dias de hoje. Se os maus fígados do corno e a ausência de escrúpulos da alcoviteira são mais que evidentes, o que também fica claro é que a noiva não se deve deixar seduzir por luzidias promessas de felicidade e deve ser mais exigente e escolher melhor os pretendentes. E sobretudo deve descartá-los sem tergiversar mal fique claro que são conflituosos e avarentos, não tentando mudá-los apaziguando-lhes os defeitos e os vícios.

Nesse contexto, meu caro Mário Centeno, deixo-lhe por isso um verso de Rimbaud, que espero lhe sirva de lição: Par délicatesse j‘ai perdu ma vie.

DANIEL, UM NOVIÇO EM NABIÇAS!

(Joaquim Vassalo Abreu, 15/02/2017)

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Antes de mais, e para introdução ao tema, vou aqui reproduzir o essencial de um texto que o Daniel Oliveira publicou no Expresso, acho que Diário, e também via dele no Facebook e a que ele chamou de “O nabo perdeu a sua primeira vida”!

O nabo é, neste caso e para o Daniel, o Centeno! E diz ele: …”no fundo é um zero em política e só está lá a prejudicar o Costa. Não tem capacidade para gerir pequenos problemas, deixando que eles cresçam de forma desastrosa- enredando-se nas suas próprias asneiras. Quanto melhores forem os números da economia maior será o cerco a Centeno, por causa da CGD. É uma lei da “física” na política. Por isso ter na principal pasta do governo um “nabo” como Centeno é uma dor de cabeça para Costa. Ainda por cima um “nabo” que já perdeu uma vida. Os gatos têm sete, os nabos não”. Assim rematou o Daniel Oliveira.

Depois de ter isto lido e ter tirado a primeira e óbvia conclusão de que, para o Daniel, Político é aquele que apenas tem capacidade para gerir pequenos problemas, passou-me assim uma nuvem pelos olhos, apeteceu-me logo dizer e emitir coisas impróprias, mas mantive-me sereno e calmo e comecei a ler as reacções. Não foram bonitas, como bonitas não foram as respostas do Daniel que quando é infeliz não o reconhece e desata logo e sempre a zurzir quem o critica.

E então diz que ao chamar “nabo” ao Centeno responde que apenas fez “comentário político”! Mas perguntado se chamar nabo a alguém é um comentário político ele responde que um “nabo era quem fazia nabices”… e etc.

Ora bem, meu caro Daniel Oliveira, eu desde já, e para que não restem dúvidas, declaro que me acho, eu e muitos, em certas alturas da vida, um valente e robusto “nabo”! Porquê? Simples: quem é que perante qualquer asneira feita, qualquer coisa óbvia que não alcança ou qualquer erro de avaliação comum, nunca disse: “Sou, ou fui, um grande nabo”? Assim como quem diz: “Sou, ou fui, muito burro”? Quem? O Daniel Oliveira, o infalível. O único nabo à face da terra que nunca o foi. Porquê? Porque é comentador político, claro.

Não vou aqui discutir se o é ou não mas, pelo que vejo, todos podemos ser comentadores, mas comentadores políticos, só quem andou ou anda na política. Ora o Daniel pode ser comentador, mas não é político.

Primeiro não sabe distinguir um nabo de uma nabiça. Pensa que a nabiça sai do nabo, mas é o inverso e não sabe sequer quantos nabos tem um molho! O nabo não faz nabices, Daniel: as nabices é que fazem o nabo. Por exemplo você, mal o “acomparando” a um nabo, que já sei que não é, foi espetado pequenino como nabicinha, com dez anitos não foi, no PCP e saiu de lá, já com uns vinte, já nabiça bem verdejante para o BE, para onde foi ocupar um lugar como aquele do Zeca Mendonça no PSD, adido de imprensa, e enquanto a nabiça bem crescida se tornou já flor, em grelo portanto, saiu e tornou-se “Livre”, em verdadeiro nabo.

É que o nabo é uma raiz, Daniel, e a nabiça uma folha, homem. Você de nabiças é ainda um noviço e de nabos nem sabe quantos tem um molho. Quer que lhe diga? Três! É aquilo que o Daniel é em política: um molho de nabos!

O Daniel pensa que pode entrar por todos os caminhos e atreve-se a dizer mesmo que o Centeno, não sendo um gato, já perdeu a vida que tinha. Que o têm tentado assassinar a gente sabe, agora que o Daniel o dê já por morto… Será isso também comentário político? E aqui chegando isso faz-me lembrar daquilo que se diz que o Mark Twain terá dito mas que, segundo um amigo meu que sabe tudo do dito, parece que não teria dito bem assim, mas o que consta que terá dito foi: “O anúncio da minha morte é nitidamente exagerado “. Seria ele gato?

Pois é Daniel, eu sou da terra dos nabos! Gandra, Gemeses, Marinhas, Fão, Apúlia, aquelas zonas junto ao rio Cávado, em Esposende, e de nabos e nabiças sei desde pequenino e até nos matavam a fome quando em crianças andávamos cinco quilómetros a pé para ir para a Escola, em Esposende.

E também conheço desde pequeno aquele ditado: “Seja moderado com chouriças e coma mais nabiças”. Era o que fazíamos. Poucas calorias e muito ferro e coisas mais, todas saudáveis.

O Daniel estava tão bem a falar de chouriças e vem-me agora falar de nabiças!

E nisso não passa de um noviço! Mas o Expresso e a SIC agradecem…Entendeu, ou quer que lhe arranje outro molho?

Com perdão a todos os que se acham “nabos”, nos quais eu me incluo!


Fonte aqui