Uma eleição promissora

(Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 05/12/2017)

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Agora que uns quantos – de Marcelo Rebelo de Sousa a Carlos Costa, de Marques Mendes a Passos Coelho, sem esquecer Teodora Cardoso -, já deverão estar a recuperar da crise de azia, que lhes terá suscitado a eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo, e que muitos apreciadores da maioria parlamentar terão reagido com o entusiasmo, que terá faltado às direções políticas do Bloco de Esquerda e do PCP, é altura de olhar para aquilo que o ministro das Finanças português se compromete a cumprir no novo cargo: “Questionar, encontrar os erros, trazer mais abertura a estas discussões”.

Dificilmente, pois, encontrarão os paladinos da austeridade um terreno fértil para darem como inquestionáveis axiomas o que demonstrou ser um erro de palmatória, se não mesmo um crime indesculpável para quem lhe arcou com as consequências, sobretudo os povos grego, espanhol e português.

Revelando a sua experiência enquanto secretário de Estado, que terá vivido o período mais difícil de demonstração da bondade da alternativa proposta pelo novo governo contra essa miopia schaubliana, Fernando Rocha Andrade prevê o alcance da mudança na titularidade da coordenação dos ministros das Finanças da zona euro: «As decisões do Eurogrupo são enquadradas e condicionadas pelas posições da tecnocracia, que são verdadeiras opções políticas para a zona euro disfarçadas de verdades técnicas. À maioria dos políticos, mesmo ministros das Finanças, falta muitas vezes a capacidade de questionar essas opções. Mário Centeno, que tem a competência para as discutir, e aplicou com sucesso uma alternativa, está agora na posição de confrontar essa tecnocracia e de lhe perguntar, relativamente a cada uma dessas opções: “Porquê?” Isso é bom para Portugal — e é bom para a Europa.» (Público, 5/12/2017)

Daí que confie na mudança representada pelo facto de «de as reuniões do Eurogrupo passarem a ser dirigidas por alguém que aplicou com sucesso uma política que visa garantir não só finanças públicas sustentáveis, mas também um euro socialmente sustentável.»

Nos próximos meses Centeno poderá ser determinante para intervir positivamente no possível alívio da dívida grega, nos planos de reforma da zona euro e nas mudanças nas instituições e nas regras orçamentais europeias.

«O que nós agora ganhámos foi a possibilidade de trazermos [para o debate sobre a construção europeia] um conjunto de princípios que são do PS, estão no programa de governo, e em que nada prejudicam a condução da política do Governo», disse na conferência de imprensa subsequente à sua eleição.

Aquilo que Dijsselbloem, mais do que não saber só sabotou –  fazer do euro uma ferramenta essencial na convergência real das economias que partilham essa moeda – poderá vir a ser concretizado por Centeno, através da harmonização fiscal, impedindo que alguns países como a Irlanda, o Luxemburgo ou a Holanda prossigam com o dumping, que justifica a deslocalização de grandes empresas para os seus territórios. Assim como poderá ganhar expressão o financiamento europeu de parte dos subsídios de desemprego em caso de crise num determinado país.

Avanços decisivos nessa direção  suscitarão um novo élan no entusiasmo pela União Europeia. Algo, que se perdeu nas últimas décadas.


Fonte aqui

Pedro Passos Coelho

(In Blog O Jumento, 05/12/2017)

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Não foi um qualquer ministro das Finanças a ser escolhido para presidir ao Eurogrupo, foi o ministro de um governo que durante quase dois anos foi considerado quase ilegítimo pelo ex-primeiro-ministro que não conseguiu uma maioria parlamentar, foi o mesmo ministro que a ex-ministra tentou humilhar com exercícios de aritmética, foi o mesmo que seria responsável pela vinda do diabo.

Ouvir os dois candidatos à liderança do PSD sugerir que a escolha de Centeno era em 50% resultado do trabalho de Passos Coelho só pode merecer uma gargalhada, mas as declarações desses dois artistas tiveram o mérito de trazer o ex-primeiro-ministro para o centro do debate. É impossível falar de Centeno sem referir Passos Coelho, sem recordar da exigência de sujeitar as suas propostas a um visto prévio ainda antes das eleições, das gargalhadas com que o tentou humilhar na sua ida ao parlamento, da forma desprezível como se comportou durante mais de um ano, convencido do fracasso do agora ministro.

A escolha de Mário Centeno é um espinho na garganta de muitas personalidades de direita, mas em relação a Passos Coelho é mesmo humilhante, ver aqueles a quem Passos foi pedir em Madrid, na reunião do Partido Popular Europeu, para chumbarem o novo governo ajudando-o a regressar ao poder, decidirem agora escolher Centeno para presidir ao Eurogrupo é uma chapada demasiado violenta para alguém a suportar.

Depois de forçado a abandonar a liderança do PSD, Passos é humilhado pelos seus parceiros europeus, incluindo a senhora Merkel a quem ele foi tão subserviente, em frente de quem chicoteou os portugueses pensando que assim a Europa reconheceria nele um grande líder. A escolha de Centeno é a derrota mais humilhante que Passos e todos os que apoiaram a sua política, de Teodora ao Costa, de Marques Mendes ao João Duque, de José Gomes Ferreira ao redator da Voz do Povo, de Cavaco Silva a Paulo Portas.

À direita anda só encontrei um comentador com lucidez, foi AlexandreHomem Cristo, no Observador:

«Ora, a extinção dessa associação expõe finalmente, no discurso da direita, o grande vazio de ideias com que tem feito oposição desde 2015: se não puder acusar a geringonça de ser irresponsável na gestão das contas públicas, que alternativa propõe a direita ao país? Nenhuma. Não se percebe qual é o projecto do CDS e percebe-se que o PSD não tem projecto. É, aliás, essa a nota dominante da actual campanha interna dos sociais-democratas – cujo partido, pela dimensão, tem a responsabilidade de liderar um projecto alternativo à frente de esquerda. Nem Rui Rio nem Santana Lopes são capazes de se definirem de direita, nenhum trouxe propostas para modernizar a política portuguesa, e a ambos falta a capacidade para desencostar o PSD ao Estado, abrindo as portas à sociedade civil – como bem notou Henrique Monteiro. Eis, portanto, a direita num beco. Em parte, porque lá se colocou a si mesma. Em parte, porque a vitória de Mário Centeno representa a derrota final do seu discurso político. E agora? Agora o tempo acabou: o que nos próximos meses a direita fizer para sair deste beco vai definir onde chegará nas eleições legislativas de 2019.»

A CAMBALHOTA DO CAG

(In Blog 77 Colinas, 04/12/2017)

cambalhota
– Boa noite, doutor Marques Mendes
– Boa noite, Clara.
– Está com um ar abatido.
– Acabo de dar uma valente cambalhota e aleijei-me.
– As melhoras. Há 10 meses atrás, disse que que a notícia de que Centeno tinha possibilidades de vir a ser o próximo presidente do Eurogrupo, era uma treta e que o ministro das finanças estava apenas a pôr-se em bicos de pés e a autopromover-se. Como avalia a atual situação?
– Em primeiro lugar, tenho de dar os parabéns ao Expresso porque acertou em cheio.
– E porque é que o senhor errou?
– A culpa é do Expresso.
– Como assim?
– Estamos habituados a seguir aquela norma de que, se dissermos o contrário do que o Expresso noticia, acertamos e desta vez eles acertaram e eu falhei.
– Doutor, eu pensava que isto era um programa de comentário político e não de previsões astrológicas.
– Claro, Clara. As minhas fontes é que deixaram de ser tão fidedignas, mas eu continuo a ser um CAG.
– Um quê?!!!
– CAG significa Comentador de Alto Gabarito.
– Bolas, que até me assustei.
– É apenas uma sigla. A minha esmerada educação não permitiria outra interpretação
– O que pensa da possível eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo?
– É uma vitória de Centeno, do Governo e do país.
– O seu camarada de partido Rangel não pensa assim
– Camarada?!!!
– Desculpe, o seu corre…ligionário de partido.
– Não ligue, esse ainda é mais parvo que eu.
– Doutor Marques Mendes, o que é que o levou a dar tamanha cambalhota?
– FU
– Outra sigla? Explique lá o quer dizer.
– Essa não explico porque preciso deste tacho.