Jerusalém: mais uma vez, Trump é a consequência  

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/12/2017)  

Daniel

Daniel Oliveira

A transferência da embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém não se limita a deixar o mundo islâmico irado. Dizer as coisas assim é virar o mundo de pernas para ar, fazendo parecer que há um grupo de muçulmanos hipersensíveis. Ao reconhecer Jerusalém como capital israelita, coisa que nenhum Estado do mundo ainda tinha feito, reconhece-se a anexação de toda da parte oriental e retira-se aos palestinianos o direito à mesma pretensão. Esta pretensão dos dois Estados não é um pormenor para qualquer solução pacifica, por mais improvável que ela seja.

Qualquer negociação para este conflito tem cinco temas essenciais: as fronteiras dos dois Estados, sendo as de 1967 a base inicial da negociação; os colonatos, que ou têm de ser desmantelados, já que se encontram em território que em nenhum caso é israelita, ou implicam permuta de terras; os refugiados, que ou têm o direito de retorno das terras de onde foram expulsos ou poderão ser compensados; a segurança, que para não ficar nas mãos dos israelitas tem de corresponder a um controlo das alas mais radicais pelos próprios palestinianos; e o estatuto de Jerusalém, que ambos os Estados reclamam como sua capital e cuja ocupação da parte oriental pelos israelitas é ilegal. Qualquer negociação séria e sustentável passa pelo equilíbrio entre estas várias questões. Se se fecha uma, torna-se mais difícil encontrar solução para as restantes.

Esta é a primeira razão pela qual o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel mata qualquer solução para este conflito: porque é umas das peças fundamentais para a negociação entre os dois Estados. E mesmo que o resultado dessa negociação viesse a permitir este reconhecimento, os moldes teriam de ser negociados ao mais ínfimo pormenor, tendo em conta a importância que aquela cidade tem para várias religiões, conseguindo garantias sólidas de acesso de todos a locais sagrados. Só o total analfabetismo histórico e político de Donald Trump permite que desconheça o vespeiro em que acabou de dar uma paulada. Pelo menos desde 1929 que pequenos acontecimentos naquela cidade, sobretudo relacionados com o acesso a espaços sagrados, chegam para iniciar conflitos que duram anos.

Como podem os EUA querer ser árbitro de uma negociação quando são eles mesmos a declarar unilateralmente o seu resultado? Não podem. Mas, para ser honesto, já não podiam. É importante recordar que a decisão de fazer a transferência da embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém já foi tomada em 1995 e tem força de lei. Apenas se dá ao poder executivo a possibilidade de, a cada seis meses, adiar a decisão. É o que têm feito, sucessivamente, exibindo a absoluta hipocrisia da posição dos EUA neste conflito, já que eles próprios reconhecem a irresponsabilidade das suas decisões.

Tenho-o escrito várias vezes e repito: os EUA são os principais responsáveis pela crise do Médio Oriente. Ao tornar o debate sobre Israel num tabu interno – ao pé da fúria que cai sobre quem se atreva a criticar Israel o famoso “politicamente correto” é uma brincadeira de crianças –, a proteção política, militar e financeira dada àquele Estado tem sido incondicional.

Os EUA permitem, apoiam e por vezes até incentivam a violação constante de leis internacionais e regras básicas de relações com outros Estados. Israel transformou-se num Estado inimputável, que ocupa território, expropria terras e casas, expulsa pessoas, constrói colonatos em terra que não é sua e cerca povoações com muros, sabendo sempre que nada lhe acontecerá. Foi essa sensação de inimputabilidade que o levou a ultrapassar todos os limites até qualquer solução razoável ser impossível. A partir daqui, a crescente radicalização dos dois lados tornou-se inevitável.

É falsa a ideia de que Donald Trump está a agir ao arrepio da política norte-americana para o Médio Oriente. Não é preciso outra prova: Trump limitou-se a aplicar uma decisão que era adiada de seis em seis meses. O apoio incondicional a todas as invasões, ocupações, expropriações e crimes não nasceu com Trump. É filho do tabu que foi imposto à sociedade norte-americana (e europeia, mas com menor eficácia), em que qualquer debate sério sobre Israel se transforma numa acusação de antissemitismo, insultando, antes de tudo, a própria memória do povo judeu. O que Trump está a fazer, talvez por ser mais ignorante do que os seus antecessores ou por ser um sociopata sem qualquer preocupação pelas repercussões dos seus atos, é levar a sério a retórica dominante na política norte-americana. Ele não é a exceção, é a consequência. Exceção tentaram ser, sem qualquer sucesso, Jimmy Carter e Barack Obama. Um continuou ao longo da vida, o outro desistiu à primeira resistência.

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5 pensamentos sobre “Jerusalém: mais uma vez, Trump é a consequência  

  1. Pois,
    Invadir, ocupar, desrespeitar, explorar, escravizar, aprisionar, vender, deportar, torturar, matar, dizimar populações inocentes, explorar recursos naturais alheios, dividir regiões e países contra a vontade dos Povos, fazer duas guerras mundiais e tantas outras locais com as dramáticas consequências humanas, sociais e económicas, provocar duas crises globais com outras tantas devastadoras consequências para humanidade e de que ainda se não saiu da última e já lá vão quase dez anos, provocar (com a mera implementação de uma norma jurídica com força de lei aprovada “democraticamente” pelo “parlamento” da maior e mais avançada “democracia” do planeta Terra!?!?!?…. “um verdadeiro e mais robusto estado de direito em vigor….”) guerras locais para assegurar a continuação da venda de armamento (afinal a sua maior fonte de receita que alimenta os falcões domésticos e não só) em grande escala para manter a guerra e a exploração dos Povos, etc., etc., TUDO isto, como se fosse pouco ou não bastasse, NÃO TEM UM DENOMINADOR COMUM que se designa por CAPITALISMO, esse hediondo sistema económico-social que já vigora como sistema dominante há mais de 400 anos!!!!!…

    Não, nada disto se encaixa na realidade, nada disto interessa salientar aos DOs e quejandos enquanto escribas da côrte, desta pequena quanto mísera côrte lusa, inserida que está, e dependente, numa mais vasta côrte europeia e no conjunto dos países que compõem o pomposa e burguêsmente designado “mundo ocidental” onde, também e de igual modo, evacuam, desbocadamente, estes arautos da burguesia capitalista assassina!…

    NÃO, NADA DISSO, desta vez o culpado é o Trump (que, imagine-se — ó democratas da merda e defensores do “estado de direito democrático”, o vosso — até APENAS se limitou a promulgar, finalmente, uma norma a que, “democraticamente”, um poder legislativo eleito deu força de LEI), um miserável de um pedante mentecapto a quem, também “democraticamente”, foi, pelo voto do seu povo, conferido o estatuto de presidente do seu país!!!!…
    Miseráveis, de espírito…aos níveis que vão descendo estas direitas lusas, pela pena dos seus escribas!…
    NÃO lhe perdoais SENHOR….porque sabem o que dizem/escrevem!…

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  2. Que me seja perdoada a ignorância mas, para já, não vejo motivo para tanta exaltação, especialmente a vinda dos judeus espalhados pelo mundo e que, esperava-se, deveriam ver nesta decisão o reconhecimento do que, creio, é por eles visto como um direito religioso e histórico. É certo que as verdadeiras convicções exigem sacrifícios que podem ter custos materiais elevados que nem todos estarão disponíveis para arcar. Atribui-se a Lord Rostchild – o homem que comprou aos turcos o território onde se instalou o primeiro ’setlement’ israelita reconhecido como estado pelos ingleses através da Convenção Balfour – a seguinte frase, que define as diferentes escalas do judaísmo: “Um sionista é um judeu americano que envia dinheiro para Inglaterra para serem enviados judeus polacos para Israel”.
    Não vejo como, para além do aspecto simbólico que alguma comunidade internacional lhe atribui, a deslocação da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém possa ter uma tal relevância! Seria atribuir aos EUA um poder soberano que nenhum estado detém. Acresce que, ao que parece, nenhum outro estado estará disposto a seguir-lhe o exemplo, pelo que a dita embaixada estará condenada a ser um caso isolado no vasto mundo diplomático.
    Acresce que Trump, desde o início, demitiu os States de se envolverem em guerras que não digam directamente respeito à ‘América’. Isso tem-se revelado inclusivamente no modo como, apesar de muito instado, Trump tem evitado o confronto com a Coreia do Norte. O apoio de Trump em relação a conflitos entre países outros parece residir apenas na venda do sofisticado armamento que os EUA possuem para que os países amigos se possam defender. Não promove guerras nem envia soldados americanos que tão castigados foram no século passado em guerras que foram postos a guerrear em defesa do ideal americano e contra o perigo que a União Soviética seria para a persecussão desse ideal que, mais do que identicar-se com a civilização ocidental, se identificava com o ‘Americam Way of Life’, apropriado pela Europa mas bem diferente da sua essência.
    Custa crer que Trump – que será tudo menos estúpido – tenha anunciado tal decisão sem que previamente tenha negociado acordos entre ambas as partes, acordos que, à medida que for possível dá-los a conhecer no complicado mundo Árabe, poderão trazer vantagens para todas as partes envolvidas e pouparão vidas. Talvez seja boa-vontade ilusória da minha parte mas é nisto que acredito.

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