Espanha não está apenas a perder a Catalunha, está a perder a dignidade 

(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 03/10/2017)  

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Um dos principais ensinamentos de Mahatma Gandhi foi a de que mais vale usar a força do outro em nosso favor do que perdermos a razão com o uso da nossa própria força. E por isso, a sua estratégia sempre foi a da resistência pacífica e nada passiva. Provocava o poder de Londres de forma a que ele usasse a sua força e, aos olhos do mundo e dos indianos, perdesse a sua autoridade.

Claro que a Catalunha não é uma colónia, mas o princípio que usou foi o mesmo. Conhecendo a natureza do poder de Madrid, escolheu a via democrática que a lei espanhola proíbe para que o poder centralista mostrasse a sua natureza. E, porque a reação foi a esperada, ganhou.

É bom recordar que, em 2010, o Tribunal Constitucional de Espanha travou, por iniciativa do PP, um novo Estatuto da Catalunha, aprovado em referendo por larguíssima maioria, matando assim soluções intermédias e empurrando os catalães para o independentismo. Vale a pena recordar que Zapatero foi o primeiro chefe de governo espanhol a tentar dar passos sérios na aceitação de uma realidade cultural que as leis e a política que faz as leis se recusa a aceitar: que Espanha é um Estado plurinacional. E que contou com um boicote ativo da direita e de muitos sectores do PSOE.

Todo o debate mais ou menos histórico sobre a legitimidade das aspirações independentistas de parte da Catalunha é estéril. Primeiro, porque nenhuma independência nasceu sob um certificado de legitimidade histórica, nasceu sempre de circunstâncias políticas. Depois, porque a negação dessa legitimidade histórica ignora um elemento que ninguém sério pode negar: que os catalães são, apesar de décadas de repressão no período franquista, como os bascos e os galegos, um povo.

Terceiro, porque quando há fortes sentimentos nacionais que perduram durante décadas eles próprios constituem o corpo político que constrói a legitimidade de uma independência. A nacionalidade não é um fenómeno natural, é um fenómeno político. E ele obviamente existe na Catalunha.

Todo o debate que se concentra na questão da legalidade pretende enfiar-nos num beco sem saída. A legalidade espanhola é a de Espanha. Qualquer pretensão separatista propõe, por natureza, uma ruptura com a legalidade vigente. Nenhum país se tornou independente sem romper com a legalidade do Estado de que se quis separar. Sobretudo quando, da parte de Espanha, a indisponibilidade para soluções intermédias tem sido quase total. E é por isso que, perante um fenómeno como o que está a suceder na Catalunha, as respostas meramente jurídicas são um esconderijo para quem não quer dar respostas políticas.

Quando dentro de um Estado naturalmente plurinacional uma das partes quer reforçar a sua autonomia ou até ser independente há três caminhos possíveis: a aceitação dessa pretensão, a negociação política ou o uso da violência que quase sempre garante uma espiral de conflito imparável. É digno de ditaduras tratar confrontos políticos como uma questão de ordem pública.

Durante muito tempo a ETA foi o antídoto contra as pretensões independentistas ou apenas nacionalistas dentro de Espanha. Mas a sua derrota teve um efeito: passou para o campo democrático a luta independentista. E dentro do campo democrático ela ganha facilmente força: os independentistas catalães conseguiram, graças à reação brutal de Madrid, mais num dia do que os bascos em décadas de bombas. Porque provaram que o problema de Madrid não é o terrorismo, são todas as pretensões independentistas ou apenas federalistas das nações do Estado espanhol. Pior: provaram que Madrid, negando qualquer solução política, quer empurrar essas pretensões para o campo da violência, o único em que parece conseguir operar. No domingo, Madrid não se limitou a deslegitimar uma saída democrática para as pretensões independentistas da Catalunha. Com a sua violência contra o voto, ofereceu uma inaceitável legitimidade política aos movimentos violentos que massacraram Espanha com crime, sangue e vergonha.


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4 pensamentos sobre “Espanha não está apenas a perder a Catalunha, está a perder a dignidade 

  1. Mariano Rajoy deveria pedir a demissão. O que se passou em Barcelona é inadmissível, e nesse caso também, a Europa não disse nada ou reagiu arrastando os pés, sem unidade… não se quer molhar…Não há Europa! Só para impor regras económicas indecentes aos mais pobres…

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  2. Texto correcto e uma abordagem acertiva. Nao é por acaso que em Espanha, existiram ja e eventualmente continuem latentes 3 movimentos requerendo estatutos de “diferença”. Os Bascos, os Galegos e os Catalaes. Ha decerto algo em comum entre eles. No minimo nao se identificam com “Castela e Leon”. Madrid é distante, é despota; e é um sorvedouro da riqueza produzida alem “reino”, é um condado que vive na época medieval enviando as suas tropas sempre que alguem requer que a riqueza la (longe) produzida, por la fique e seja usada. Para Madrid o Suzerano continua a exigir o pagamento do tributo. Espanha podia ter tirado liçoes do Reino Unido, que (com a excepçao da Irlanda) tem sabido bem gerir os problemas autocnes do Pais de Gales, da Inglaterra e da Escocia.

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  3. O poder instalado é, por norma , totalitário e fecha os olhos, tapa os ouvidos, porque lhe convém não dar valor à vontade manifestada pelo povo . O uso da violência nunca será o melhor meio para dissuadir os que sonham . Pelo contrário . É arma de arremesso com consequências imprevisíveis. Os Catalães não vão acobardar-se nem calar-se. Madrid não quererá uma guerra fraticida. Aguardemos manifestando a nossa repulsa por atitudes tão degradantes contra cidadãos pacíficos. Para bem ou para mal ,tal como Afonso Henriques em 1143 separou o Condado Portucalense de Castela , os Catalães têm o direito de escolher o seu destino.

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  4. Ainda vai havendo muita gente que confunde (ou mistura) «identidade nacional» com luta de classes.
    Claro que os Catalães têm direito à sua auto-determinação. Claro que o governo de Rajoy procedeu estupidamente ao querer resolver pela via «jurídica» um problema de natureza política.
    Mas depois há a Catalunha da realidade demográfica (e económica…). Aquela em que, segundo o próprio governo da Catalunha, a maioria dos habitantes fala Castelhano, como língua primária (ou língua-mãe)… A explicação para isso é relativamente simples: o processo de industrialização levou a que emigrassem para a Catalhuna alguns milhões de espanhóis de outras comunidades. (Relatório «Usos lingüístics. Llengua inicial, d’identificació i habitual. Institut d’Estadística de Catalunya). De acordo com as estatísticas disponíveis 46% dos «catalães» usam o Castelhano em família, enquanto que apenas 36% o fazem em Catalão. Os restantes 18% são de origem estrangeira (muitos magrebinos e europeus). As estatísticas variam, mas não muito. O ponto fundamental é que os Catalães «verdadeiros» (nativos, aborígenes, autóctones…) estão em minoria já há umas décadas. Os resultados dos «referendos» (o de 2014 e o de 2017) reflectem essa mesma realidade. O problema é que os outros «catalães» também contam…
    Se o governo de Rajoy fosse minimamente «esperto» (como o governo de Londres tem feito em relação à Escócia), fazia o referendo com toda a pompa e circunstância e depois logo se via…

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