Catalunha: se a Espanha aprendesse com o Reino Unido… 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 21/09/2017)

 

Daniel

Daniel Oliveira

Diz que paira sobre a Europa o espetro dos nacionalismos. Não apenas porque crescem os partidos que o defendem, à esquerda (no sul) e à direita (no norte), no campo democrático e fora dele, não apenas porque o projeto europeu está em crise, mas porque movimentos independentistas voltaram a ganhar força em várias nações dependentes. Perante isto, os mesmos que celebram a independência de Portugal arrepiam-se com o separatismo catalão.

Não sou um defensor da independência da Catalunha assim como não fui um defensor da independência da Escócia. É um assunto que só os próprios podem avaliar. Sou um defensor do direito à autodeterminação dos povos, o que obviamente inclui catalães e escoceses. E tenho uma certa dificuldade em compreender o que distingue a vontade de independência da Ucrânia ou da Croácia, celebrada por tantos supostos europeístas, da vontade de independência das nações do Estado espanhol ou do Reino Unido.

Sejamos honestos e aceitemos que a posição de cada um não resulta de nenhuma questão de princípio mas de cálculos bem interesseiros: as novas independências no bloco de leste foram boas para as potências ocidentais – incluindo as que resultaram no regresso da guerra ao solo europeu –, as do bloco ocidental são más. O nacionalismo é um anacronismo quando se quer ver livre de Espanha ou do Reino Unido, mas absolutamente natural quando se quis ver livre da Jugoslávia ou da URSS.

Quase todas as carpideiras súbita e seletivamente convertidas ao internacionalismo estão-se nas tintas para os males do nacionalismo. São os interesses egoístas de cada nação que determinam as posições sobre o nacionalismo alheio. Se se repetisse agora o referendo na Escócia, suspeito que assistiríamos a muitas cambalhotas nas posições de muitos observadores. E o nacionalismo escocês, agora que o Reino Unido saiu da UE, ganharia subitamente colorações moderadas e libertadoras.

Há quem argumente contra o nacionalismo catalão, assim como contra o nacionalismo escocês, dizendo que ele é egotista. Em contraponto com que altruísmo? O dos ingleses ou dos castelhanos? O da Alemanha e da França nesta União Europeia? Sim, é evidente que os nacionalismos crescem em momentos de crise. Mas ninguém sério pode negar que a Catalunha e a Escócia têm o independentismo bem arreigado na sua cultura política. Bem mais do que o Montenegro, o Kosovo ou a Eslováquia tinham.

Há, no entanto, uma diferença fundamental entre a Escócia e a Catalunha. A primeira está integrada num reino de pertença voluntária, que aceita o princípio da autodeterminação e viu como natural a realização de um referendo. A segunda está integrada num reino centralista, onde o referendo é tratado como um crime e a reação do Governo e da Justiça é digna de um regime autoritário, com ordens para a polícia apreender urnas de voto e perseguir políticos eleitos, numa espiral de conflito que só pode acabar mal.

Não é estranha a esta diferença de comportamento a tradição política dos dois Estados. O primeiro tem uma longa história democrática e a direita que o governa tem o parlamentarismo como património político fundamental. O segundo viveu décadas de ditadura e a direita que o governa é descendente direta do franquismo. Uma resolve o problema com campanhas e negociações, outra com polícia e ameaças. Uma acredita na união, outra na submissão. É esta diferença que pode vir a determinar a manutenção da Escócia no Reino Unido e a independência da Catalunha.


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