A propaganda da direita católica

(Joseph Praetorius, in Facebook, 15/09/2017)

 

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Joseph Praetorius

Há truques na propaganda da direita católica para os quais me falta a paciência.

Às vezes, confesso, basta que se pronunciem os daquela gente para eu tomar a posição contrária. Foi assim quando Zapatero aprovou o “casamento homossexual”. Sempre achei tal coisa um disparate. O Estado não deve celebrar ritos matrimoniais por não lhe incumbir a guarda de quaisquer altares, sendo a sua tarefa meramente registral quanto às decisões de vida em comum, quando lhe peçam tal registo (por razões fiscais e sucessórias entre muitas outras). Bastou a ousada e intrusiva sordidez do bispo de Ávila a “condenar”, para me parecer politicamente indeclinável enfiar-lhe o dito “casamento homossexual” pela cabeça abaixo.

Continua a parecer-me um disparate. Mas onde tais bocas se abram é aplicar-lhes a rebarbadora aos dentes que mostrem. Os cristãos que vivam de outro modo. Isso basta e tem de bastar à moral cristã, desde que essa liberdade não seja posta em causa.

A direita católica infesta com a opus, entre outras barbaridades, todas as escolas portuguesas de direito – e algumas de economia – ao ponto de as agrilhoar aos limites da quase indigência intelectual, tem extensões da “universidade de palma de baixo” em todo o país, sendo certo que ali conspira contra os direitos fundamentais de modo politicamente indecoroso, inclusivamente disseminando doutoramentos entre gente sua, para garantir promoções na estrutura dos serviços de Estado, como a judicatura.

A direita católica ousa mesmo desafiar a ordem constitucional de outros países, instrumentalizando aqui a liberdade religiosa e pondo a desfilar na procissão do senhor dos passos da graça e na do “corpo de Deus”– como num corso carnavalesco, com gente mascarada em conformidade – a “ordem constantiniana de S. Jorge”, reportada à Casa das duas Sicílias, pronunciando-se, portanto, pública e politicamente, contra a integridade territorial italiana (em Itália tal coisa daria prisão em flagrante) e isto sob a presidência do cardeal de Lisboa a quem tal delito não deveria deixar de ser imputado. (Acusatoriamente, sim).

A direita católica tem a moribunda (e prostituída) imprensa do território quase inteiramente nas suas mãos. Não há esparvoamento partidário onde a temibilidade e conveniência da sua pretensa influência popular não chegue (com três por cento de assistência aos cultos) ao ponto do presidente da câmara de Lisboa ser mero figurante nas suas encenações. (Um terror, isto).

Mas abre-se uma crónica da Maria João Avillez e vem ela dizer que se sente (a direita católica) sob perseguição e constrangimento invencível. Protesta.

Imagine-se.

O país onde a direita católica conseguiu que nunca fosse investigada a execranda pederastia do seu clero.

O país onde a direita católica conseguiu manter, até hoje, sem inquérito nem julgamento a pedoclastia das suas gentes (clericais ou do seu funcionalismo asilar).

O país onde a direita católica conseguiu ver entregue às estruturas, que para tanto constitui na órbita clerical, a nunca fiscalizada exploração (em regime de monopólio) dos subsídios estatais, a pretexto da assistência à miséria, na rua ou fora dela, bem como os da pretendida assistência aos refugiados e migrantes,

Compreendendo a assistência subsidiada às casas de detenção administrativa – onde não entram advogados – onde nenhum controlo jurisdicional existe, como não existe defesa possível, sendo duvidoso que ali haja, até, completo recenseamento e identificação dos sequestrados que não vejo outro nome a dar-lhes… (interessante que lhes entreguem um inferno onde possam desalterar-se das suas sedes de alma).

O país onde uma miríade de estabelecimentos de ensino básico e secundário são organizações parasitárias – ostensivamente confessionais e segregacionistas – claramente reportadas à direita católica, todas com subvenção estatal a que se julgam com direito, havendo até colégios de ordens religiosas entregues a meros funcionários, por falta de efectivos bastantes para garantir o respectivo funcionamento (não poderia haver – mas há – colégios de jesuítas sem jesuítas, por exemplo).

Um tal país é a terra onde a direita católica vem dizer-se perseguida.

Porquê? Porque não consegue impor o seu léxico.

A direita católica enfurece-se só por ouvir falar de outro modo. Porque isso significa que há quem pense de outro modo. Isso significa também que a Cidade não lhe pertence, que o país não lhe pertence, que as consciências não lhe pertencem, que a vida sobre a terra não lhe pertence.

Isso angustia-a.

À direita católica não lhe basta a possibilidade de responder a quem pense de modo diverso. Não, a direita católica proclama logo que se sente desapossada da cidadania, que nem sabe o que seja – e sob perseguição – pelo simples facto de notar quem viva de modo diverso, quem fale de modo diferente e quem pense de forma diversa. E como isso ocorre com a generalidade das pessoas, proclama a direita católica uma conspiração dos radicais da esquerda minoritária que lograriam assenhorear-se das consciências, por serem professores universitários, ou jornalistas. Imputa pois e por isso a essa imaginária esquerda o que ela própria, direita católica, tem feito. E teme.

Razões para temer não lhe faltam. Mas que não seja por isso.

A direita católica quer a censura, parece. Sob pena de se sentir angustiadamente desapossada dos seus direitos, pelo simples facto dos outros poderem falar. Creio, até, que reacenderia as fogueiras do asqueroso Domingos Guzmán, em razão da angústia que lhe suscitará a evidência da existência dos outros, porque existindo os outros descobre-se a convicção de não poder existir ela própria.

 

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