Presidência do Eurogrupo seria um presente envenenado para Portugal

(Daniel Oliveira in Expresso Diário, 30/05/2017)

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Portugal tem sabido gerir a sua delicada posição negocial com Bruxelas. Sempre num ambiente de alguma tensão, foi revertendo medidas da troika mas mantendo-se sempre dentro dos limites impostos pela Europa. O orçamento de 2016, o aumento do salário mínimo nacional, as reversão de privatizações, concessões e outras medidas, tudo resultou de um braço de ferro que nunca chegou ao enfrentamento.

Tal só foi possível porque o Governo, também ele, se manteve dentro dos grandes objetivos europeus, mas contrariando a sua ortodoxia. Só assim a geringonça foi possível, aliás. Esta postura, cheia de contradições e dificuldades, não é possível se Mário Centeno tiver de representar a mediana europeia. Uma das formas mais eficazes de limitar o espaço de manobra deste Governo seria, por isso, entregar a Mário Centeno a presidência do Eurogrupo. Seria um presente envenenado para António Costa.

De cada vez que falasse na Europa Centeno deixaria de poder representar os interesses específicos de Portugal para passar a falar em nome de todos. Podendo parecer uma vitória para Portugal, a presidência do Eurogrupo seria um novo espartilho para o país no momento em que finalmente conseguimos respirar um pouco

É bom recordar que Centeno teria de acumular o cargo de presidente do Eurogrupo com o de ministro das Finanças. De cada vez que falasse na Europa deixaria de poder representar os interesses específicos de Portugal para passar a falar em nome de todos. E isso, num momento em que ganhamos alguma folga política, teria como único efeito limitar a nossa autonomia. Podendo parecer uma vitória para Portugal – que teria os mesmos resultados da ida de Barroso para Bruxelas ou de Constâncio para Frankfurt –, a presidência do Eurogrupo seria um novo espartilho para o país no momento em que finalmente conseguimos respirar um pouco.

Claro que há aqueles que acreditam que, mais importante do que os interesses nacionais, são os de toda a Europa. Mas quem pense que Mário Centeno no Eurogrupo poderia significar uma oportunidade para mudar alguma coisa na União ainda não percebeu nada do jogo político europeu. Numa estrutura marcada pelas relações entre os Estados e, acima disso, pelas posições das principais potências, não são os homens que fazem os lugares, são os lugares que fazem os homens. Porque os homens não são escolhidos pela vontade popular, mas pelos mesmos que têm determinado o caminho desta Europa. E deles dependem e dependerão absolutamente.

Dito de forma mais simples: Centeno só chegaria a presidente do Eurogrupo se Schäuble quisesse. E Schäuble, que não se costuma distrair, só o quererá se acreditar que Centeno lhe pode ser útil. Nem o presidente do Eurogrupo tem qualquer poder autónomo que lhe permita mudar o consenso imposto por Berlim, nem Berlim escolherá um presidente do Eurogrupo sem estar certo da sua obediência.


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2 pensamentos sobre “Presidência do Eurogrupo seria um presente envenenado para Portugal

  1. Caro Daniel Oliveira, não faria sentido o Dr Centeno ir para o Eurogrupo, continuando sendo Ministro das finanças! É mas que evidente que que deveria dar a sua demissão ao Primeiro Ministro ! O cumul dos mandatos… nunca ouviu falar ?

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