O nosso direito ao “não”

(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 23/05/2017)

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“Olá, como é que te chamas? – Desculpa, não te conheço. Estou com os meus amigos. – Vá lá, diz-me só como te chamas. – Não quero mesmo falar, desculpa. – Não? Porquê? – Não quero… – Anda lá, eu sei que queres! – Não, não quero, estou ocupada. – Achas que és boa, é?”

Ser mulher é ter de dizer “não” muitas vezes, porque um “não” raramente basta. Vamos naturalizando estes frequentes encontros, estes diálogos, e acabamos por encontrar as nossas próprias estratégias de defesa. Não dar demasiado nas vistas em certos ambientes, ou ter os amigos por perto para nos safar se a situação complicar. Habituamo-nos a esta insistência desconfortável da mesma forma que a sociedade se habituou a desculpá-la. Porque se estou ali sozinha é porque quero conhecer alguém. Porque se digo que não é porque me quero fazer de difícil. Porque se te olho é porque te quero provocar, e se te provoco é porque quero alguma coisa, mesmo que diga que não.

Já não as sentimos como tal, mas são violações, de diferentes formas, com diferentes graus de agressividade. Do tipo insistente do bar à oferta sexual que nunca pedimos ou desejámos. Do estranho que nos toca ao amigo que nos beija sem que queiramos, ou ao sexo não consentido, mas que até aconteceu sem resistência por qualquer razão, podendo a razão ser uma bebedeira. Conheço os contornos das histórias que encaixam nestas descrições. São as histórias das minhas amigas, e, nalguns casos, também as minhas.

A cultura da violação não vive apenas da imagem agressiva e violenta que o termo convoca. O piropo que não pedimos, o assédio light, a insistência desconfortável, o gesto não consentido partem todos do mesmo princípio. O princípio que o “não” de uma mulher vale menos que a vontade ou desejo de um homem. E que ao homem é dado o direito de expressar essa sua vontade, mesmo que isso signifique ir contra o direito de uma mulher se sentir incomodada, de não querer ser alvo dela.

A igualdade entre homens e mulheres teve importantes avanços nos últimos anos. Mas há direitos que não se conquistam apenas pela via legal, e há preconceitos que permanecem e se atualizam. O direito à igualdade do “não” é um deles. No dia 25 de maio, pelo menos em Lisboa e no Porto, as mulheres sairão à rua para dizer Não à Cultura da Violação. Que sejamos muitas.

DEPUTADA DO BE

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3 pensamentos sobre “O nosso direito ao “não”

  1. Irrita-me este “ser mulher” igual a “ser abusada”, a “ser objeto sexual”, a ser, no fundo, pasto para politiquice.
    O Feminismo tem de aprender que os velhos doentes e miseráveis, homens e mulheres, sofrem de violência todos os dias, surda e muda, invisível, sem género. As Mortáguas desta vida, feministas, têm o dever, se forem rigorosas, de o denunciar. Isso seria feminismo.
    Crianças, imigrantes, desempregados, caberia tudo no feminismo, sem sexismos, diria eu.
    O Feminismo tem de aprender que, no fundo, quem é fraco precisa de ser protegido.

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    • Sem querer generalizar esse comentário só poderia vir de um “machista desta vida” para quem, não só é incapaz de perceber ou reconhecer o problema (pois claro, não é o seu problema!), como ainda critica quem se mexe (claro esta que deve gostar de dar um piroposinho de vez em quando e olhar para as pernas das miudas novas). Como não é nada consigo sugiro que se ponha no seu lugar e deixe que uma das poucas mulheres da AR (que já começam a ser mais por imposição legal dessas tretas de igualdade de genero), represente as outras mulheres que sofrem todos os dias este problema e que (imagine só) constituem 50% da população! Com certeza a Dra. Mortágua esta a falar de uma minoria!

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    • Sem querer generalizar, esse comentário só poderia vir de um “machista desta vida”. Além de não se interessar pelo problema (afinal não é o seu problema) ainda critica quem tenta resolver. Com certeza, deve gostar de atirar um piroposinho a uma miuda nova enquanto lhe olha para as pernas. A Dra. Mariana Mortágua (o respeito começa logo por aqui não lhe parece?) é uma das poucas mulheres da AR (que já começam a ser mais devido a imposição de quotas legais, essas “tretas de igualdade de género”) que fala de um problema que afeta as mulheres todos os dias e que, vejam só, constituem 50% da população. Falta-lhe rigor?

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