O problema não são as autárquicas, é a condução política do PSD

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 07/04/2017)
Ilustração Susana Villar
1. Um dos aspectos mais vivos e dinâmicos do PSD sempre foi a sua actuação autárquica. O PSD tem obra em muitas autarquias, tem e teve excelentes autarcas e tem uma cultura de serviço nas autarquias que, no seu conjunto, o tornam um grande partido autárquico. Tem e teve também gente menos honesta, más escolhas e maus autarcas, e erros de gestão, como se passa com o PS. Mas, quando olhamos para o PSD nos dias de hoje é nas autarquias que ainda sobrevive o PSD de ontem. Muitas vezes sitiado, maltratado, desprezado, mas está lá com gente que conseguiu nestes anos do lixo manter uma relação dedicada e socialmente comprometida com os seus fregueses e munícipes. Nunca embarcaram no projecto de engenharia social do “ajustamento” e desconfiaram, e muito, do vezo anti-social de muitas medidas que eles sabiam muito bem vinham mais das ideias do grupo de Passos, do que eram exigidas, como hoje se diz falsificando a história, pela troika e aplicadas a contragosto. Eles também “ajustaram”, mas há uma enorme diferença entre o modo como o fizeram, mantendo preocupações sociais que não existiam no Governo PSD-CDS. Resistiram à forte guinada para a direita do PSD. Mantiveram por isso uma relação com as suas terras e as suas gentes que foi rompida no topo do PSD e que cada vez mais divorciado está do comum das pessoas, como se vê consistentemente nas sondagens.

2. Onde isso não aconteceu foi em Lisboa e no Porto e nas grandes cidades, onde a vida política tem, além de factores locais, elementos nacionais e onde pesa em primeiro lugar o “estado” nacional do PSD. Esta circunstância não era inelutável, mas exigia que houvesse candidatos excepcionais, mobilizadores por si mesmos, alargando o espaço partidário, e com uma relação tida como muito próxima das gentes e dos locais por onde concorrem. Ora, a crise nacional do PSD e o crescente aparelhismo que já vem muito de trás, seca tudo por onde passa e afasta os melhores, estiola as opções e não torna desejável concorrer pelo partido. Há gente muito capaz de ser um excelente candidato por Lisboa ou Porto, com as características de moderação, conhecimento e dedicação pela sua cidade, situados num espaço “central” entre o antigo PSD e o PS que considera que concorrer nos dias de hoje pelo PSD é pestífero. A história do Porto e de Sintra em 2013 é exemplar, com o aparelho do PSD a escolher candidatos pela fidelidade a Passos ou, pior ainda, a por interesses de carreira e ambição, e a abandonar um candidato que seria natural na sua área política como era Rui Moreira. O voluntarismo dos candidatos de Lisboa e do Porto, já que em Sintra o PSD teve que sofrer o vexame de aceitar que concorresse o candidato de 2013 que expulsou, não consegue resolver a ecologia nacional hostil.

3. Se o PSD autárquico ainda tem muitos traços do PSD dos “fundadores”, social-democrata, moderado, dedicado à justiça social, com obra feita, o seu grande inimigo é o PSD nacional, em particular a direcção política de Passos Coelho, mas também a sua corte no partido, gente muito diferente dos self -made men do passado, ou dos profissionais com prestígio que moldaram o PSD em tempos idos, muitos com uma cultura alheia ao PSD e comprometidos com vários interesses, a começar pela gestão da sua carreira, que são o lastro que tem que trazer atrás de si. O PSD ganhou as eleições em 2015, não me esqueço disso, nem me esqueço que o programa eleitoral tinha muitas das “reversões” que agora se atacam no PS, mas tem-nas perdido todos os dias.

Na verdade, como Portas intuiu quando se demitiu, o PSD e o CDS não voltam ao poder a não ser que tenham uma maioria absoluta, tão firme é a frente de rejeição que criaram nos anos da troika. Porque, se é verdade que o PSD ganhou, perdeu-as com idêntica legitimidade porque existia uma outra solução maioritária que até agora tem funcionado sem os cataclismos que foram previstos.

4. Porque é que o PSD começou a perder terreno, e muito, logo a seguir? Porque a condução política de Passos apontava, e aponta, num único sentido: a queda do Governo PS com um novo resgate e as sanções da Europa. Sempre disse que esta análise não é desprovida de alguma racionalidade – as bases do “sucesso” do PS são frágeis –, mas, o tempo e o modo como tem sido conduzida dá do PSD a imagem de que deseja tal crise e, na verdade, deseja-a. Ora, isso é mortífero para Passos e para o PSD, porque ninguém, a não ser os radicais à volta de Passos e a direita revanchista que o acompanha, aceita uma tese de quanto pior melhor.

5. E depois há um outro factor, a situação da Banca, que torna Passos e o PSD profundamente antipáticos em termos políticos, sem que haja por trás qualquer mérito em não se ser popular por se ser verdadeiro. Aqui é ao contrário, não só não se é verdadeiro, como atacar o PS pelo que se está a passar na Banca, é disparar contra si próprio, porque todos o problemas que o novo governo, mal, menos bem ou bem, está a resolver têm génese nas políticas do governo Passos, Portas e Maria Luís, por acção e omissão. É por isso que todas vezes que Passos abre a boca com arrogância para perguntar porque é que se vendeu assim o Novo Banco, a pergunta dá a volta à sala e volta-se para ele e diz “é preciso ter topete”. Quem paga o “topete” são os candidatos autárquicos.


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