‘Brexitofobia’

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/03/2017)

Autor

                               Daniel Oliveira

Nas trincheiras do simplismo instalou-se uma dicotomia: de um lado, os cosmopolitas abertos ao mundo e tolerantes com a diferença, do outro, os nacionalistas assustados com o exterior e com a mudança. Não se sabe bem onde fica Viktor Órban, que fez campanha contra o ‘Brexit’ em anúncios pagos nos jornais britânicos, mas adivinha-se onde estão Schäuble e Dijsselbloem. Uma leitura da realidade excelente para o confronto entre xenófobos e neoliberais, mas suicida para tanta esquerda que a patrocina. Aqueles que defendem os direitos dos imigrantes e a solidariedade entre povos aparecem de braço dado com o exército de ex-comissários da concorrência, governadores do BCE e presidentes da Comissão que estagiaram ou se reformaram na Goldman Sachs, para, com eles, defender o “cosmopolitismo” da livre circulação de capitais. Só assim podem isolar os velhos, os pobres e os excluídos da globalização nas suas cavernas de “ignorância” e “preconceito”. E representarem as “forças mais dinâmicas da sociedade”, uma pequena mas agradável elite da geração Erasmus que surfa sem medo no novo mundo global. Fazem todas as alianças erradas e desistem do papel da representação das aspirações populares. Desculpem se não lhes faço companhia em tão glamorosa demanda.

Foi esta estranha aliança entre direita liberal e esquerda Uber que, esta semana, liderou o coro condenatório aos britânicos. Discordo ainda mais do que a maioria dos europeístas das razões dos ingleses. Mas não confundo a Europa que desejava com a que tenho. O projeto comunitário baseava-se no modelo social europeu, na convergência económica e social das nações e no aprofundamento de uma democracia partilhada. Tudo o que nos preparava, como um bloco, para enfrentar o processo de globalização.

A União é hoje um cavalo de Troia que impõe uma agenda não sufragada de desmantelamento do Estado social e de subjugação dos serviços públicos e do papel económico do Estado à lógica da sacrossanta concorrência.

Desde o nascimento do euro, o projeto de integração passou a fazer-se por via da divergência económica e social das nações. Uma divergência que se traduz numa assimetria crescente do poder político de cada Estado que brevemente será institucionalizada numa “Europa a várias velocidades”.

E a prometida democracia europeia redundou num poder discricionário de uns Estados sobre os outros e de burocratas livres do escrutínio eleitoral sobre os eleitos nacionais.

É verdade que ao mesmo tempo que o euroceticismo medra a norte e a sul, o ‘Brexit’ e o crescimento da extrema-direita fizeram cerrar fileiras em defesa da União. Só que este apoio não se funda num projeto comum. Baseia-se apenas no medo. Dirão, e com toda a razão, que o medo pode ser construtor de projetos políticos ganhadores. A questão é se uma agenda emancipadora de esquerda terá qualquer futuro no pânico claustrofóbico e paralisante que mantém de pé esta União. É em nome dela que a esquerda desistiu de representar os excluídos, deixando esse papel à extrema-direita. Assim, em vez da alternativa se construir em nome dos trabalhadores, baseia-se na etnia. Em vez da defesa do Estado social e da soberania democrática, a xenofobia. Em vez da revolta pela mudança, o ódio pelos ainda mais pobres. E a culpa é dos que deixaram cair as suas bandeiras para se enfiarem numa trincheira que não é sua.

Advertisements

3 pensamentos sobre “‘Brexitofobia’

  1. O Daniel Oliveira pode perfeitamente fazer uma defesa completamente coerente de uma Europa de Estados Soberanos, sem xenofobia e onde a política económica é muito mais protecionista do que é hoje. Claro, é discutível se a proteção de trabalhadores é consistente com a livre circulação de pessoas (e o RU prepara-se para ter problemas devido à falta de mão de obra autóctone qualificada em caso de hard-Brexit). E é razoavelmente fácil não se ser xenófobo em sociedades etnicamente homogéneas, ao estilo da RDA. O problema começa com a convivência com o outro e com a tendência natural dos seres humanos em porem as culpas em quem é diferente e quem é fraco. Sucede que tudo isto passa ao lado da questão principal. Se ele defende, como eu defendo, uma Economia aberta ao exterior (mesmo se para ele devem existir os tais controles de capitais, comércio e mão de obra, no fundo, o regresso aos anos 70 ou 80, num mundo em que a tecnologia alterou significativamente as relações de trabalho e num panorama neoliberal que surgiu precisamente porque o keynesianismo falhou redondamente e gerou stagflation), como é que ele ultrapassa o simples facto de que teremos sempre que nos submeter aos ditames dos ‘mercados’ se quisermos obter financiamento internacional? Lamento dizê-lo, mas aí a Direita tem mesmo razão. A Esquerda não pode, qual May, querer o bolo e comê-lo. Ou se habitua a viver com pouco e recupera a ‘soberania’ (e lá se vai o generoso Estado Social) ou se quiser prosseguir com políticas desenvolvimentistas, está mesmo obrigada a ter orçamentos razoavelmente equilibrados em períodos de fraco crescimento (e o fraco crescimento provavelmente veio para ficar por razões que têm pouco a ver com o nosso modelo económico). A questão não está entre não ter austeridade ou a ter para um País largamente endividado (e a dívida precisa de ser renegociada, mas com jeitinho e sem fúrias que estamos do lado fraco da corda). Está sobre quem ela se deve exercer. Aquilo que António Costa, que compreende bem que Portugal nada tem a ganhar com derivas protecionistas, porque é e sempre foi uma Economia Aberta ao exterior (Pedro Lains fez notar que acumulamos deficits da balança comercial desde os anos 50, só compensados com as transferências dos emigrantes) anda a implementar. O resto é ‘pie in the sky’…

    Gostar

  2. Sou europeista.Quero ficar!…preparada para pior…
    Todas as instituiçoes devem faxer os TPC
    Agitar e semear descrença nao me parece um bom serviço á populaçao.

    .!

    Gostar

  3. A pergunta é quem decide os TPC. Enquanto se considerar a Europa como uma escola em que os países mais ricos ensinam os mais pobres, não vamos lá…

    Gostar

Obrigado pelo seu comentário. É sempre bem vindo.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s