Não devemos ceder à BlackRock e à Pimco? Não temos de agradar aos mercados?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 30/03/2017)

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                         Daniel Oliveira

Como sabem, Portugal foi obrigado a experimentar uma solução para o Banco Espírito Santo que era uma experiência. Como sabem, a experiência correu mal e nunca mais será utilizada noutros países. Como sabem, os mesmos que nos transformaram em cobaias não serão responsabilizados por isso. Porque essa é a forma de funcionar da União: uns são eleitos, outros decidem; uns mandam, outros lidam com as consequências. Esta anomalia democrática explica grande parte dos erros cometidos na União: poder sem responsabilidade, soberania sem eleição. E como sabem, o Novo Banco será, seja qual for a solução, o pior negócio do século.

Mas hoje quero falar de outras consequências. Ao lidar com a solução que, diga-se em abono da verdade, apoiou e levou à prática, o Banco de Portugal decidiu, em dezembro de 2015, transferir algumas obrigações seniores do Novo Banco para o BES mau. Com esta decisão, vários grandes investidores ficaram a arder. É natural que assim seja. Foram eles que decidiram, mesmo quando muitos dados eram conhecidos, arriscar o investimento naquele banco. Foram enganados? Foram. Mas não foram enganados pelo Estado português. Foram enganados por um banco privado. E a razão pela qual pagam muito dinheiro aos seus quadros superiores é exatamente para evitarem estes enganos. Não foram enganados como a maioria dos lesados do BES. Arriscaram o engano, que é coisa diferente.

Houve quem nos tentasse convencer que a desconfiança dos investidores com Portugal tinha sido por causa do apoio de comunistas e bloquistas ao novo governo. Apesar de algum alarido pouco sério feito por alguns jornais internacionais – vale a pena ler algumas coisas que se escreveram para passar a desconfiar do rigor da imprensa económica de referência –, os investidores estão-se nas tintas para essas minudências. A decisão do Banco de Portugal em relação a grandes investidores no BES teve muitíssimo mais importância para o alarme criado.

Depois de recorrer aos tribunais, e esperando uma derrota provável porque a lei está do lado da decisão tomada, um grupo de investidores liderado pela BlackRock e pela Pimco decidiu lançar um boicote a Portugal. Não se trata de uma medida preventiva – não têm nada para prevenir –, mas de uma forma pública de pressão. O boicote mantém-se até o Estado decidir sacar aos seus contribuintes o dinheiro perdido por estes investidores num banco privado. E a pressão vai aumentar à medida que o BCE vá diminuindo a compra de dívida, explicam. Trata-se de uma chantagem assumida e sem qualquer prurido.

Aqueles que têm defendido que a política deve trabalhar a pensar nos “mercados” têm o dever de ser coerentes e defender uma cedência portuguesa. Os investidores fazem os seus investimentos e os contribuintes devem assumir os seus riscos. Caso contrário, pagam a fatura com boicotes, porque a vida é mesmo assim e tudo o mais são formas encapotadas de socialismo. E, por favor, não me digam que isto se resolve não tendo dívida. Os países com menor dívida pública e sem petróleo são Cuba, Kosovo e Suazilândia. Ter uma economia aberta obriga a ter acesso a crédito. É assim com as empresas, é assim com as Nações.

Os mercados são compostos por investidores que se estão nas tintas para a racionalidade económica ou a sustentabilidade dos países. Procuram quase sempre benefícios de curto prazo e quem governa ao sabor dos seus humores está condenado a atirar-se do precipício. Quem acha que não pode enfrentar os “mercados” deve estar preparado para destruir o Estado de Direito, rebentar com a democracia e assaltar os contribuintes em nome dessa demanda. Porque, estando em causa o dinheiro investido, nada disso é relevante. Nem quando as suas perdas resultam de decisões por eles tomadas.

Como se resolve isto? Voltando ao básico: ou dominamos os mercados ou eles nos dominam a nós. Não porque os mercados sejam maus, mas porque trabalham apenas com vista aos seus interesses. Cabe aos Estados pensar nos nossos. E é por isso que retirar aos Estados instrumentos fundamentais de soberania financeira, monetária e económica é um erro.

Claro que o BCE podia impedir tudo isto. Assim como a União Europeia podia vergar quem se atreve a tão descarado ato de chantagem política. Mas, como sabemos, os senhores de Frankfurt e de Bruxelas estão tão preocupado com o nosso futuro como os da BlackRock e da Pimco.


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3 pensamentos sobre “Não devemos ceder à BlackRock e à Pimco? Não temos de agradar aos mercados?

  1. Caro Daniel :
    Deixe que lhe conte uma história de encantar :
    Quando Theresa May se viu catapultada para o cargo de Primeira-Ministra, (catapultada, porque não eleita), um dos seus primeiros gestos foi despedir sumariamente George Osborne, o até então Chanceler do Tesouro e, (aqui está o busílis), grande amigo de David Cameron.
    E o que fez o pobre George desde então ? Bem, do lugar de Membro do Parlamento, (£ 76.000/ano), eleito pela circunscrição de Tatton em Cheshire, que fica a umas 200 milhas de Londres, não abriu mão, o que não foi obstáculo para que aceitasse pressuroso uma oferta da velha conhecida do Daniel, a BlackRock, para trabalhar um dia por semana ao ritmo de £650.000/ano.
    Mas George é verdadeiramente omni-competente, daí que também aceitasse o lugar de Director do London Evening Standard, jornal que como o nome indica se publica na Capital, muito embora se lhe desconhecesse até agora qualquer queda para o jornalismo. O dono da coisa, o oligarca Russo Alexander Lebedev, justificou a escolha por ser George, “Um Londrino a 100%, que melhor que ninguém defenderá os interesses da cidade”. Quanto à massa que o omnisciente George vai abichar nada foi dito: Entre cavalheiros essas questões de dinheiro são de um imenso mau gosto. Quem levou as coisas um bocado a mal foram os 65.000 eleitores de Tatton que contavam com o seu Membro do Parlamento para defender os seus interesses e agora se sentem um pouco…enganados, ao saberem que ele é “100% Londrino e que é Londres que vai defender”.
    Mas o nosso heroi também, e simultaneamente, já recebia de uma organização cujo objectivo era promover o emprego no Norte de Inglaterra a bagatela de £120.000/ano, (A Northern Powerhouse Partnership), o que não o coibiu porém de arranjar tempo para fazer desde o verão passado 14 discursos 14, um fenomenal tour-de-force intelectual pelo qual cobrou, para ser exacto, £ 786.450 !
    Tudo isto fez erguer algumas sobrancelhas no Parlamento, mais foi consensual entre os colegas Conservadores do visado que “Era do interesse da Câmara ter entre os seus membros alguém que possuísse interesses tão diversos como o mui ilustre George Osborne”.

    Por isso, caro Daniel, tudo não passa de uma imensa piada : A Democracia, os Direitos, a Liberdade, etc. Nada é para levar muito a sério. Nunca em parte alguma.

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  2. Daniel Oliveira tem toda a razão. Uma Economia aberta requer financiamento externo (será que há algum Português, mesmo no PCP, que prefira Cuba ou a Venezuela à nossa ‘prisão por dívida’ presente, onde os comboios circulam, os hospitais funcionam, os super-mercados dispõem de alimentos e outros bens de consumo, a eletricidade não é cortada, as pessoas podem circular livremente e por aí a fora?). Ainda não vi ninguém do PCP-PEV ao CDS dizer o contrário. O que isto significa é que quem empresta dinheiro dispõe de ‘leverage’ sobre quem toma emprestado e isso era sabido há muito tempo. O risco de default (seja do BES, seja do País), representa sobretudo um perigo reputacional. Não existe nenhuma obrigação moral de pagar uma dívida se se pagou um prémio de risco que justifica a assunção de tal risco pelo investidor, mas quem falha o pagamento não pode esperar muita condescendência se quiser que lhe voltem a emprestar dinheiro no futuro. De novo, o que aqui temos é um argumento moralista, e o DO deveria ser mais inteligente e não cair nisso. É que o recurso a tal argumento indica a total falta de capacidade do Daniel Oliveira em propor meios efetivos para fazer outra coisa que não ceder à pressão dos investidores. Um Marxista não cometeria esse erro e limitar-se-ia a olhar para as relações de força e elas indicam que nós estamos do lado fraco da corda. Quanto aos ditos ‘instrumentos efetivos’, cabe lembrar que não foram eles que impediram Portugal de ter que recorrer ao FMI nos anos setenta e oitenta (e de ter falido aí umas cinco vezes durante a sua História). Chamem-me o que quiserem, mas quem desejar prosseguir políticas keynesianas de endividamento progressivo que implicam uma Economia que cresce continuamente a taxas de 2%-3% para manter a relação dívida/PIB constante (e note-se que Keynes não subscreveria provavelmente tal visão, ele defendia austeridade contra-cíclica para evitar as bolhas), tem que se preparar para duas coisas (pelo menos se não é dono de uma moeda como o dólar, o euro ou o yen): ceder aos ditames de quem empresta dinheiro e estar preparado para em situações de grave crise internacional correr o risco de roturas de tesouraria. Se quiserem, isto pode ser tudo resumido ao argumento algo brutal da Doutora Ferreira Leite, quem paga, manda! Habituem-se.

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