Dijsselbloem no bordel

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 21/03/2017)

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Dijsselbloem nunca enganou ninguém: para ele Portugal é mais ou menos um bordel frequentado por pândegos. A Europa está uma coisa linda. Desfaz-se nesta comédia de homens gravíssimos com cauda na intensíssima cabeça.

“Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda”, disse ele, e nem sequer com ponto de exclamação, porque fala do alto e não para o alto. É uma declaração maravilhosa. Jeroen Dijsselbloem sonha com Lucrécias Bórgias e imagina um país de bacos, bacantes e bacanais a gastar em lixos, luxos e luxúrias, de homens lúbricos de prazeres ímpios troando orgasmos fiados com os cantos da boca molhados pela língua a baloiço. Ó homem, que pena Cesariny não estar aqui para rir à gargalhada! Que pena Gil Vicente estar morto, Bocage ser defunto, Natália não estar no Botequim, Luiz Pacheco já não ver o pino, o Pina não estar na última página do JN, não haver Ary que escreva “merda!” e o próprio O’Neill ter parado o acordeão. Qualquer faria uma barrela de truz! Queres conversa fiada? Toma! Que diabo, hoje é dia mundial da poesia, descurve-se a língua em arpão.

Só que o homem não é só parvo, é ignorante. Aquilo não é só ofensa, é ressentimento. E isto não é só riso, é um esclarecimento. Porque aquilo que ele diz, e não apenas como o diz, une-nos a nós contra o que ele representa mas desune a Europa a favor do que ele apresenta. É por isso que se ele pedir desculpa não aceitem, se contextualizar não divaguem, se disser que foi infeliz devolvam ao remetente.

Ele e outros como ele pensam exatamente aquilo: que é uma continental maçada haver povos aqui. O Reino Unido larga-se por não querer gente de fora, a França cavalga o populismo, a Grécia desfaz-se em pó, a União Europeia desenha cinco cenários porque não tem um plano mas Dijsselbloem descola a boca para se colar aos “do Norte” contra os “do sul”. Isto está a correr bem, Europa.

Dijsselbloem não é um gajo qualquer sentado num café de boas bolachas em Amesterdão, é presidente do Eurogrupo, instituição que reúne mensalmente os ministros das Finanças dos países do Euro, incluindo aquele em que ele é ministro, a Holanda. Depois de dizer que, “como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária”, deixa claro que “quem pede ajuda também tem obrigações”. Confrontado com os “copos e mulheres”, não se arrependeu e com algum garbo ripostou: “Essas palavras saíram desta boca”. Bem sabemos.

O problema é que as palavras que saem daquela boca não são inconsequentes. Enchouriçam os juros de um país ainda no limite e atiçam uns contra os outros. Assim se alimentam os preconceitos na União Europeia, que começaram por chamar os gregos de aldrabões com piscinas sob as oliveiras e cabeleireira de folga. Vê-se o que deu. Sete anos depois daquele primeiro resgate, ainda estamos nisto? Esta gente não aprendeu nada? Não aprendeu que o ressentimento não só destrói mas revolta? Não viu que o remédio tomado queimou artérias? Ainda pensa que desfazendo povos se faz a União Europeia? Ainda acha que os gregos violentamente esmagados são uns nababos? Que os portugueses que foram tributados, desempregados e empobrecidos são anzóis de pescaria?

Fomos uns meninos depois do euro, mas não gastámos tudo em vinho e meninas. Estamos carregados de responsabilidade pelo havido, vimos o Estado esconder dívida e os bancos a oferecer o que não teria de volta. Mas também respondemos aos incentivos da “Europa veloz”: gastámos em estradas financiadas por Bruxelas, comprámos BMW a crédito com juros baixos do BCE, importámos Mercedes de categoria e somos o lado de lá das balanças desbalanceadas dos superávites externos. Estamos cheios de problemas, sob elevado risco financeiro e com as agências de “rating” prontas a disparar, contamos duas décadas perdidas na economia e levamos sete anos de austeridade, de cortes de pensões, de salários, de serviços públicos, de aumentos de impostos, de taxas, de contribuições e ainda não sabemos bem como isto há de correr bem. Mas sabemos como pode correr mal: obrigadinho pelas palavras que saíram dessa boca, senhor Dijsselbloem. Volte uma vez por mês, nós estamos cá todos os dias. E se isto lhe parece um bordel báquico, então onde est… Não, é melhor parar por aqui. A primavera chegou, bebamos e amemos.

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7 pensamentos sobre “Dijsselbloem no bordel

  1. As boas palavras escritas do jornalista chegarão bem à mente rasca do holandês das finanças, que pode pedir tradução – paga o Eurogrupo. Mas aquela mente desastrosa que sendo aldrabão académico (disse ter um Mestrado, quando não tem) é difícil ter dúvidas de que é um aldrabão europeu.

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  2. É um burgesso este exemplar das finanças holandesas. penso mesmo que deve estar impedido de entrar no Red Light Discrict de Amsterdam, uma vez que aquela população tem, de facto, muito mais nível do que um burgesso como aquele.

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  3. 《Vês, Pedro! Se te tivesses baixado uma vez para apanhar a ferradura que classificaste de velha e sem valor, terias evitado baixar-te todas estas vezes para apanhares as cerejas!》
    Meu caro Pedro Guerreiro, é assim que funciona o capitalismo e é com gentalha desta que, há mais de 400 anos, o capitalismo sobreviveu invadindo (sob a designação pomposa de descobrir), ocupando, desrespeitando, abusando, explorando, roubando, escravizando, deportando, matando, dizimando, dividindo países contra a vontade dos Povos, fazendo duas guerras mundiais e tantas outras locais onde morreram milhões de inocentes e outros tantos foram empurrados para a miséria, obrigando a duas crises mundiais profundas com as consequências que se conhecem: milhões de mortos pela fome e miséria na crise de 1929, que vencida foi e, apenas 3 anos depois, com a aplicação da teoria keynesiana, conseguiu sobreviver; na de 2007/2008, já lá vão quase 10 anos, ainda não sabemos onde chegam os efeitos, pois o diabo (tão reclamado recentemente por um tal lapáro luso que bem emparelha com este bardamerda do holandês ressabiafo) dos “Keyneses” não aparecem com novas teorias capazes, mas já sabemos algumas coisas, e o Pedro Guerreiro referiu algumas se bem que circunscrevendo-as apenas ao espaço europeu. Mas, quero crer, não desconhce que não é só na Europa que a fome e a miséria alastra nos “de baixo”, enquanto se salvam (ou tentam) os banqueiros e os bancos e, como corolário, já temos que, 1% da população terrena detém tanta riqueza quanta possuem os restantes 99%, ou, apenas as 7 (sete) famílias mais ricas controlam 50% da riqueza criada, pelo trabalho, em todo o planeta que habitamos.
    Mas o Pedro Guerreiro também já ouviu falar, estou certo, de que, por fome e subnutrição, morrem 17 crianças em cada minuto que passa.
    E porquê, tudo isto, meu caro Pedro Guerreiro?
    Eu acho que é fruto do capitalismo, esse hediondo sistema que teima em parir e alimentar gentalha como esse filho da puta desde holandês de merda (deixemos os mortos em paz, e façamos, ou sejamos, como eles e elas, os Cesarinys, os Giles, os Bocages, os Arys, os Zecas, os…., as Natálias, as …, e chamemos os bois pelos nomes)!…
    E enquanto houver capitalismo esta merda desta vida não muda senão para pior!
    Tem dúvidas, caro Pedro Guerreiro?
    Se tem, fique com elas e vá rindo e escrevendo mais (boa e pertinete) prosa desta, constatanfo factos, ou interpretando a história (sem a alterar), na certeza de que, como o outro Pedro da parábola com que iniciei este comentário, nós, “os de baixo”, parafraseando o saudoso Miguel, vamos continuar a abaixar-nos (e o meu pai avisou-me muitas vezes que, quanto mais um homem se baixa, mais o cu lhe aparece, e essa porra de mostrar o cu, ó Pedro Guerreiro, tem muito que se lhe diga, não acha?!?!…) para matar as sedes e as fomes a que o sistema capitalista nos sujeita!…
    Mas cuidado, lembrando ainda os mortos, recordo aos Pedros Guerreiros e a todos os incautos que uma mulher, de seu nome Rosa, já há mais de um século, ensinou que: SOCIALISMO OU BARBÁRIE!
    Pelo que a escolha é nossa, eu acho.
    E eu já há muito tempo que escolhi.
    E vocês?…

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  4. Era bom que alguma esquerda socialista, em vez de se por a insultar o Sr. Jeroen Dijsselbloem, não é que ele não mereça, fizesse antes um exame de consciência, e se questionasse como puderam ir tão longe nos seus devaneios pequeno burgueses, ao ponto de esta gente sem escrúpulos, ávidos de protagonismo, subservientes ao poder financeiro, representarem hoje a social democracia europeia?
    Se estivéssemos a falar de um caso isolado, eu diria que no melhor pano cai a pior nódoa. Infelizmente as coisas são bem diferentes, e a social democracia europeia tornou-se nos dias que correm, numa coisa híbrida, sem um rumo, ziguezagueante, um manta de farrapos cheia de nódoas destas, não nos lembrássemos nós do legado de Tony Blair, José Sócrates, Geórgios Papandréu, François Hollande, Zapatero, entre muitos outros.
    Faz algum sentido falar hoje em social democracia? E qual o lugar que ocupa no xadrez politico internacional? Pelo que vejo na União Europeia, o seu papel é pouco mais do que decorativo. E com protagonistas destes, ainda pior. Nos EUA, apesar do Partido Democrata não estar representado na IS, é com estes que a social democracia mais se identifica. Viu-se o que se passou em 2016. Bernie Sanders foi derrotado pelos camaleões.
    Não, não se enganem. O tumor está cá dentro, e, ou o expurgamos depressa, se é que ainda vamos a tempo, ou cairemos, isso sim, nas armadilhas que a extrema direita nos há de colocar no caminho.
    “Assim, mais do que a direita – que apesar de ter protagonizado a agenda austeritária vai resistindo a estes embates – é sobretudo a social-democracia que está a sucumbir às ondas de choque provocadas pela austeridade. Este dado não deve causar estranheza, pois se para direita a austeridade é consonante com parte do seu ideário político, já para a social-democracia esta representou desde o seu início, um programa contranatura à sua matriz fundacional”

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  5. Esta criatura há muito mostrou o que valia. Não foi este que copiou o trabalho de mestrado? Então está-se mesmo a ver de que espécie é. Tomara ele ter lá na terra o nosso rico vinho.

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  6. Lixeira de palavras. O pacto na zona euro baseia-se na confiança. Com a crise do euro, os países do norte na zona euro mostraram a sua solidariedade para com os países em crise. Como social-democrata considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige, também tem obrigações. Não posso gastar «em putas e vinho verde» e continuar a pedir ajuda. Este princípio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e, inclusivamente, europeu.” – subscrevo inteiramente e o PSD também o deveria subscrever sem se envergonhar com metáforas de que os nortenhos muito gostam porque é social democrata e foi com base nestes princípios que quis ir além da troika. Porém, só quis mas não foi porque esbarrou com o politicamente correcto, cedeu na TSU, deixou sair Victor Gaspar e acabou a penalizar quem não devia: os pensionistas e funcionários públicos. Resultado, o PSD é quase igual ao PS porque acaba a fazer políticas semelhantes e o povo confuso acaba por preferir os xuxalistas mesmo aliados ao diabo que até prometem «putas e vinho verde» a semana todo e o povo gosta porque se é para deitar a casa a baixo que prendam e Sócrates e que a festança continue enquanto a Europa do norte pagar.

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