Brincar com coisas sérias

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 08/02/2017)

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É importante sabermos ter memória e lembrar que durante todo o ano de 2016 para além dos erros nas previsões na maioria das instituições internacionais e nacionais, já aqui referidos, e esta esta semana relembrados pelo Ministro das Finanças, foram lançadas suspeições gravíssimas sobre a execução orçamental.

Concretamente no que respeita aos pagamentos em atraso, o PSD produziu acusações de que estariam a ser escondidas despesas e atrasados pagamentos, de forma a compor a execução orçamental. Nada menos do que um estrondoso: “PSD acusa Centeno de “falsear” dados da execução orçamental”.

Era a forma de manter viva a narrativa de que não era viável uma política orçamental alternativa à anterior, com reposição de salários e pensões. Se Maria Luís Albuquerque tinha jurado que o objectivo do défice era aritmeticamente impossível, e ele estava a ser cumprido, a explicação tinha de ser que as contas estavam a ser manipuladas.

Com os dados da execução orçamental de Dezembro de 2016 na mão podemos verificar que nada disso se passou e que, no fecho do ano, o montante de pagamentos em atraso acabou por ficar abaixo do ano anterior.

O jogo político, ditado por um claro desespero crescente, não pode justificar tudo. Acima de tudo, temos de dar conteúdo útil à expressão responsáveis políticos: são isso mesmo, ou devem ser. Responsáveis. E temos todos a obrigação de os responsabilizar. O que o PSD tentou fazer foi de uma irresponsabilidade total.

Felizmente, os mercados deram a esta acusação a credibilidade que ela tinha: nenhuma. Caso contrário e em circunstâncias normais, tal acusação poderia ter contribuído para gerar uma desconfiança generalizada quanto a dívida pública portuguesa, com consequências que poderiam ir até a necessidade de um novo pedido de ajuda externa.

É certo que este PSD (não confundir com o PSD) beneficiou, em 2011, de uma violenta crise financeira para poder chegar ao poder e ter um álibi para implementar políticas de sacrifício dos trabalhadores e pensionistas a uma agenda ideológica surpreendentemente radical.

Que não se importe de arriscar repetir esse passado só mostra que os ensinamentos de Sá Carneiro já lá vão há muito. Hoje, é o líder primeiro, o partido a seguir e o País num distante terceiro. É pouco, é curto, e é indigno do maior partido da oposição.

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