Lembram-se?

(In Blog O Jumento, 23/01/2017)
O grande mérito de Marcelo Rebelo de Sousa foi conseguir que o país se esquecesse tão rapidamente do seu antecessor, um político especialista em maiorias absolutas que entre governo e presidência esteve à frente deste pobre país quase 20 anos; começou com uma intervenção do FMI provocada por uma revalorização populista do escudo e acabou com uma segunda intervenção, desta vez de uma troika, muito desejada por ele próprio, que não se cansou de pedir obediência aos mercados e às agências de notação.
Lembram-se de quando a Dona Cavaco Silva acompanhava uma reportagem televisiva e teve de interromper porque a rainha de Espanha acabava de lhe ligar? Pois, já ninguém se lembra, da mesma forma que já nos esquecemos da chupadela de Cavaco Silva na mão da rainha Letícia. cavaco_beija
Cavaco viveu marcado por alguma ciumeira em relação à família Soares e se deste se dizia ser um rei republicano, Cavaco não se cansava de ter tiques de família real. Para a história ficou uma fotografia ridícula de toda a família no jardim do palácio, como se aquilo fosse o quintal da luxuosa Quinta da Coelha. A foto era ridícula, carregaram um grande sofá para o jardim e lá estava toda a família, desde os soberanos até aos netos.
Já ninguém se lembra mas houve um tempo em que todos os dias o palácio produzia notícias fornecidas pelas “fontes de Belém”. Quando as coisas corriam bem a notícia espalhava-se, quando algo corria mal e isso sucedeu repetidas vezes, Cavaco vinha dizer que só ele falava em nome da presidência. Recentemente o seu assessor de imprensa assumiu ser a famosa fonte de Belém.
Também estamos esquecidos de uma personagem que se assumia como um institucionalista mas que se esquecia frequentemente da principal instituição cuja defesa lhe estava entregue, a Constituição. Era um institucionalista que dava cobertura a manobras golpistas como sucedeu em plena campanha eleitoral, com as famosas e ridículas escutas a Belém. Aliás, com “fontes de Belém” a serem notícia todos os dias, não se percebe muito bem o que havia a escutar em Belém, para além da receita dos carapaus alimados da “rainha”.
Pois, já estamos esquecidos, já não nos lembramos dos discursos a avisar ou a dizer que tinha avisado, dos ataques a políticos rivais em artigos do Expresso sem assumir frontalmente as alcunhas que atribuía, dos jipes cheios de processos, dos discursos dramáticos em véspera de férias.
É injusto avaliar Marcelo pelo facto de ter feito esquecer o seu antecessor, mas a verdade é que já se respira melhor neste país.
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