Pagar para destruir

(Daniel Oliveira, in Expresso, 07/01/2016)

Autor

                               Daniel Oliveira

Sérgio Monteiro recebeu mais de €300 mil do Estado para vender o Novo Banco. Em troca, oferece uma proposta ruinosa que põe em risco o futuro do banco. É coerente com o papel que os responsáveis pela sua nomeação, Carlos Costa, Maria Luís Albuquerque e Passos Coelho, tiveram no BES.

Para comprar o NB temos o fundo texano Lone Star. Experiência? Comprar, retalhar e vender depressa. Não constrói ou gere. Quer dinheiro rápido e o pior é que o dinheiro está lá, em forma de garantias do Estado e créditos fiscais. Depois de ter injetado €3900 milhões ao Fundo de Resolução para resolver o BES, o Estado arrisca uma venda por apenas €750 milhões, além de ter que garantir €2500 milhões de ativos. Poder-se-á argumentar que cabe à banca pagar a restante fatura, mas só o facto de parte deste fardo recair, em parte, sobre a CGD seria motivo suficiente para recusar este negócio. Reprivatizar nestas condições e a este candidato um banco com 20% da quota do mercado de crédito e cerca de 80% das grandes empresas e PME só passaria pela cabeça do mais irresponsável dos privatizadores que o Estado português conheceu, responsável por negócios nebulosos como os da TAP e as concessões dos transportes urbanos.

Perante esta proposta e desfeita a fantasia de Passos Coelho de que a solução para o NB não teria custos diretos e avultados para os contribuintes, concordo com os que defendem que esta reprivatização não deve ser feita. A economia, as finanças públicas e o sistema bancário não podem correr mais este risco. A nacionalização do NB (que corresponde, aliás, à situação atual) parece ser a única solução segura. As normas europeias contemplam esta alternativa e até as condições para a aplicar podem estar já garantidas, com as medidas que foram tomadas quando o banco mau e o banco péssimo foram separados. O facto de as regras o permitirem não quer obviamente dizer que o BCE aceitará esta saída. Como se viu no caso do Banif, o que se quer é construir grandes bancos europeus. A venda do NB aos bocados contribui para esse objetivo.

Já todos percebemos que a banca não pode falir e que cabe ao Estado pagar os disparates alheios. Se assim é, ter um forte núcleo bancário público daria ao Estado outro poder para não ser vítima de chantagem. Mas de pouco serve ter o NB público se é para fazer o que faz a Caixa, que só defendo que seja do Estado porque outros tempos podem vir e porque essa é a única forma de garantir que continuará a existir um banco nacional forte. A nacionalização temporária do NB, sem integração na CGD, seria a forma de esperar por condições comerciais favoráveis para a venda. Entre isto e o negócio com a Lone Star, com enormes prejuízos para o Estado e sem qualquer segurança quanto à sobrevivência de um banco tão relevante para as empresas portuguesas, não vejo como hesitar. A nacionalização do NB conta com o apoio de Ricciardi. Estou seguro que outros se juntarão. Os efeitos da destruição deste banco para o país, incluindo para as empresas e restantes bancos, seriam desastrosos. Não devemos ser ingénuos: Ricciardi tem em mira a recuperação do império dos Espíritos Santos. Mas isso não impede que objetivos diferentes se encontrem, a determinado momento, por boas razões. A ninguém, a não ser aos grandes grupos bancários europeus e ao avençado Sérgio Monteiro, interessa ver o Estado usar milhões dos contribuintes para pagar a destruição do terceiro maior banco nacional.

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5 pensamentos sobre “Pagar para destruir

  1. O PSD e o CDS acreditam que os povos são ignaros e incapazes de se governarem e progredirem sem a orientação desenhada pelas grandes inteligências, daí os magnatas, os tycoons, os megalómanos das corporações, apesar de a toda a evidência factual de que nada produziram ou produzem de fundamental para a humanidade. O objetivo da existência humana não é trabalhar arduamente na construção de aviões, navios, submarinos, vai vens espaciais, arranha céus, carros, canhões, cruzadores e porta aviões. Que todas essas realizações sejam interessantes e até admiráveis é uma coisa, que elas sejam o objeto último da vida humana é outra diametralmente oposta, logo, inaceitável. Para além da impressionante e maravilhante ilusão que essas máquinas e descobertas proporcionam há, irredutivelmente, um sentido diferente para a vida e esse é o seu pleno disfrute! É o amar, o procriar e o ser feliz no cuidar dos outros. A Natureza é solidária com todas as suas próprias realizações. Contudo, é uma solidariedade adequada à sua perenidade: a irredutibilidade da morte necessária à sua auto renovação e permanência, sendo, do ser sendo o que é, como conhecemos e ansiamos continue sendo. Não há volta a dar: Somos ela, dela e por ela! Humildademente.

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