Balanço dos líderes (3): Cristas, à espera de levantar voo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/12/2016)

Autor

                                   Daniel Oliveira

A saída um pouco inesperada de Paulo Portas da liderança do CDS, e o seu ainda mais inesperado desaparecimento político, criaram condições para que o partido se deixasse de confundir, como confunde há anos, com uma pessoa. E Assunção Cristas parecia ser a pessoa ideal para fazer uma passagem. Garantia a continuidade, sem no entanto ter saído desgastada da sua participação no governo. Correspondia à tradição conservadora do CDS, sem no entanto romper com o legado de Portas. Era uma figura simpática, que poderia reverter a imagem dos anos de chumbo da austeridade que ficaria totalmente representada pelo PSD.

Fui, por isso, dos que acharam que Assunção Cristas era a melhor escolha possível para o CDS. Num período que se adivinhava difícil para o PSD e que a sua liderança mais radical se mantém e em que o PS virava à esquerda, Cristas teria condições para ocupar o espaço da direita moderada com preocupações sociais. As repetidas sondagens demonstram que isso não está a acontecer.

Não estou seguro das razões deste falhanço. Haverá um lado mais subjetivo. Assunção Cristas não terá conseguido transformar o capital de simpatia que tinha em capacidade de liderança. Ou, mais provável, não terá conseguido acelerar o processo de afastamento em relação ao PSD de Passos Coelho. Na realidade, até acho que se voltou a aproximar, o que o impede de conquistar o eleitorado que a direita perdeu nas últimas eleições. A verdade é que o CDS de Cristas não descola e o máximo que consegue é uma maior complacência dos partidos de esquerda nos confrontos parlamentares. Cristas não parece assustar ninguém, nem sequer o PSD, com quem disputa eleitorado. Depois de um começo prometedor, onde avançou com a propostas ideologicamente distintivas e que marcaram a agenda, como a de generalizar a ADSE a todos os portugueses, perdeu logo chama. Dá ideia que o CDS é um PSD mais simpático e fofinho. E isso não chega.

Mas se há coisa que o acompanhamento da política nos habitua é a não ser apressado nestas coisas. Também Catarina Martins não pegava até que pegou. E quando isso aconteceu o que dantes era péssimo passou a ser visto como maravilhoso. Assunção Cristas não se impôs num cenário de incerteza à direita, onde o líder do passado, no PSD, ainda não deu lugar ao do futuro. Não se impôs depois de suceder a um presidente muitíssimo carismático. Mas tem o teste em Lisboa, onde o PSD anda às aranhas, sem qualquer candidato. E onde até poderia, apesar de não apostar nisso,  apoiar a líder do CDS. O resultado em Lisboa vai determinar a capacidade de Cristas se impor como a líder que ainda não é.

Se Assunção Cristas conseguir, em Lisboa, aproximar-se ou ultrapassar um candidato do PSD, ou se o PSD cometer a asneira de a apoiar, poderá receber um novo impulso. Tenho dúvidas que uma cidade com as características sociopolíticas de Lisboa seja o cenário ideal para Cristas. Mas, à falta de melhor, é a oportunidade para começar a ser aquilo que prometia e, até agora, não cumpriu.

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