NOTÍCIA OU NÃO NOTÍCIA…

(Por José Gabriel, in Facebook, 28/12/2016)

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Muitos amigos expressam aqui, justamente, a sua perplexidade e indignação por a “comunicação social” ignorar quase totalmente a tragédia da queda do avião russo de que resultaram 92 mortos, nos quais se inclui a quase totalidade do Coro do Exército Vermelho e outros artistas – músicos, bailarinos -, bem como jornalistas que acompanhavam comitiva.

Lembram ainda que os sítios oficiais da presidência da República e governo ignoram – pelo menos até agora – o acontecimento o que, além do mais, é de uma grosseria inqualificável em termos diplomáticos. Claro que as mentes pequenas poderão ser levadas pelo facto de este coro e orquestra terem sido criados na antiga União Soviética pelo maestro Alexandre Alexandrov e, por isso, serem conotáveis com a revolução russa e a sua natureza política. Que o regime mostrou inegável interesse pelo desenvolvimento das artes, é sabido, independentemente do que se pense sobre ele. Mas pensar que a obra de Alexandrov – além de fundador do Coro foi compositor de mérito e autor do hino da União, peça tão poderosa que nem a malta do Putim se atreveu a mudar – era um puro instrumento político, é de uma grosseira ignorância. Tal como é idiota questionar as orquestras Sinfónica de Berlim e a Filarmónica de Viena por terem tido sucesso durante o nazismo e alguns dos seus excelentes maestros – sim, até esse em que estão apesar – serem figuras nacionais de relevo. Mas, infelizmente, não é só isso. A verdade triste é que, se alguma destas instituições tivesse a infelicidade – longe vá o agouro – de uma tragédia como a que aconteceu aos artistas russos, as notícias sobre o ocorrido jamais teriam a dimensão de uma lesão de um jogador do Benfica, do último crime de faca e alguidar ocorrido em qualquer recanto do pacífico jardim à beira-mar, das filas de pré-adolescentes tentado ver a última estrela pop em ascensão, da última trica política rasca dos corredores de S. Bento, do último twitt insano do Trump. Além de todos os preconceitos políticos, além do óbvio facto de o Império, dilacerado em contradições internas, estar interessado em construir um novo povo-inimigo, um vilão cósmico que distraia os cidadãos dos dramas com que o capitalismo devora a democracia, a verdade mais prosaica é que a comunicação social portuguesa chafurda alegremente na sua própria indigência, vende aquilo que pensa ser o produto que o mercado espera, expulsa de si própria os seus melhores e, cada vez mais reduzida a lixo, alardeia as suas próprias imbecilidade e inconsciência com a patética convicção daquela galinha que cacareja na razão inversa dos ovos que põe.

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