Balanço dos líderes (2): Jerónimo, um vitorioso em contraciclo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/12/2016)

Autor

                               Daniel Oliveira

Está nos livros de História: são os elementos com poder nas estruturas do passado e insuspeitos de querer a mudança que geralmente conseguem levar a bom porto. Apesar da simpatia e da dança, Jerónimo de Sousa era tudo menos um homem que alguém imaginaria a liderar o PCP num momento de alteração histórica tão profunda, como a sustentação parlamentar de um governo do Partido Socialista. Nem ele, nem a eminência parda da direção comunista, Francisco Lopes. Carlos Carvalhas nunca teria a capacidade de o fazer.

Ao contrário do que parece ser o caso do Bloco de Esquerda, para quem a geringonça até é mais fácil de digerir, o PCP deu, no último congresso, sinal de ter uma estratégia a longo prazo. A estratégia foi resumida numa frase de Jerónimo de Sousa: “quanto melhor, melhor.” Uma lapalissada que deve ser repetida, muitas vezes, a alguns revolucionários.

Os comunistas perceberam que aquilo a que costumam referir-se como uma “curva apertada da História” (eufemismo para brutal derrota civilizacional) se estava a transformar, neste momento decisivo da Europa e do país, numa queda sem retorno. E que essa queda, para além dos mais desfavorecidos, da classe média e dos trabalhadores, estava a pôr em perigo todas as forças de esquerda e, mais até do que elas, a estrutura de que o poder do PCP hoje mais depende: a CGTP. Já aqui deixei os números: a quantidade de sindicalizados que a Intersindical perdeu só nos últimos seis anos é avassaladora. O fim de grande parte da contratação coletiva, a crescente precarização das relações laborais e a redução drástica de funcionários públicos retira ao PCP quase toda a sua capacidade política.

Não estou, como é evidente, a negar ao PCP uma genuína preocupação com os trabalhadores. Estou a recordar que há uma diferença entre os comunistas e os bloquistas: enquanto o BE pode aspirar a representar o voto inorgânico de protesto, isso é muito difícil para o PCP. O PCP precisa de um mundo que está a desaparecer. O BE pode representar precários, o PCP, com a sua cultura de organização, não sabe bem como isso se faz.

O PCP percebeu, talvez ainda antes de todos os outros, que travar ou adiar as perdas sociais dos últimos anos era uma questão de sobrevivência política. E parece-me que essa é a estratégia para os próximos anos.

O que Jerónimo de Sousa conseguiu, desde que chegou à liderança, foi extraordinário: estancou a queda do PCP, adaptou-o a um tempo de menor força social e sindical, onde os resultados eleitorais se tornaram ainda mais importantes, resistiu ao perigo bloquista, deu um rosto simpático e humano ao partido, capitalizou a razão que os comunistas tinham em relação à Europa e ao euro e tornou possível um acordo com os socialistas, para travar a derrota de todas as suas causas.

Fez isto tudo em tempo de perda de militantes e de influência social. Em contraciclo, portanto. E isso é que é notável.

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