O direito a não existir

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/10/2016)

Autor

                       Daniel Oliveira

Um dia, já lá vai quase uma década, uma produtora contactou-me. Queria a minha ajuda para fazer um documentário sobre Herberto Helder, um homem que sempre fez questão de não ser aquilo a que chamamos “figura pública”.

Públicos eram os seus livros, nada mais. “Tudo pelos vícios privados, nada pelas públicas virtudes”, respondia ele a quem o atormentava com pedidos de adesão a nobres causas comunitárias. O meu pai não queria existir no meio da tribo. E esse era um direito seu. E por isso mesmo recusei o apoio, pedi para desistirem e telefonei-lhe para o avisar do “ataque”. E ele logo se pôs em campo, com a militância angustiada que punha nestes assuntos, telefonando a amigos para que não colaborassem com a coisa. O título do fraco e amputado filme era a confissão da traição e da incompreensão da intenção de quem queriam retratar: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.”

Escrevo pela primeira vez sobre o meu pai por causa do triste episódio que envolve a escritora que assina com o nome de Elena Ferrante. “The New York Review of Books” decidiu tornar pública a identidade da popular escritora que, dizem-nos agora, é tradutora.

O jornalista italiano Claudio Gatti foi vasculhar os pagamentos feitos pela editora à dita tradutora — mulher de um escritor que há muito estava na lista de “suspeitos” — e os sinais exteriores da sua riqueza, incluindo o seu património imobiliário. Num tempo em que nos escasseiam direitos — laborais, cívicos, económicos e sociais —, um direito cresce a cada dia que passa: o direito à verdade. E essa verdade inclui, numa sociedade que se está a transformar numa provinciana e sufocante aldeia global, meter o nariz na vida de todos. Esta investigação fez-se com base numa confusão: a de que tudo o que o público deseja é direito seu. O investigador ignorou, como bem escreveu a jornalista Deborah Orr, no “The Guardian”, o meu direito a não saber quem é Elena Ferrante. O meu direito a só conhecer o que a escritora quis revelar.

Um escritor só tem um dever para com o seu leitor: escrever. E a única verdade que interessa é a verdade interna à sua obra. É ali, naquelas páginas, que o escritor e a sua verdade se consomem. Pode, quem o queira, promover a sua própria personagem pública para fugir à solidão da criação. Mas esse não é um dever seu e muito menos é um direito nosso. Só que a arrogância coletiva acha-se devedora de explicações e julga ter a tutela da vida privada de cada um. À medida que perdemos o estatuto de cidadãos parecemos ganhar o estatuto de ditadores. Elena Ferrante, como o meu pai e todos os que façam essa opção, tem o direito a não existir. Ainda mais quando tantas pessoas se transformam em personagens virtuais sedentas de ‘gostos’. Onde a privacidade se tornou um bem de baixo valor comercial, de tal forma está disponível a todos e para todos. Não existir é, aliás, a única forma de fugir a um sistema que transforma a vida do autor no produto que vende os seus livros. Tivesse eu mais talento e não existia. Longe da multidão coscuvilheira e de tantos jornalistas que, chafurdando no moralismo da verdade, se transformaram no inverso do rei Midas: tudo aquilo em que tocam se transforma em porcaria!

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8 pensamentos sobre “O direito a não existir

  1. Bravo!!! Totalmente de acordo consigo Daniel Oliveira. Esta sua crónica devia ser um texto de leitura obrigatória nos cursos de jornalismo e na reciclagem para jornalistas “coscuvilheiros”.

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  2. Bem verdade! Hoje os autores das devassas dizem agir em nome da liberdade! Pura mentira e hipocrisia! Antes a ameaçam e conspurcam todos os dias! E não são inocentes! Porque também em nome dela violam o segredo de justiça,a presunção de inocencia,distorcem os factos,fabricam cenários e conspiram contra a própria liberdade.

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  3. Este é um artigo que tem toda a dignidade, mas também a clareza e verdade de uma realidade aguda e atroz. Nesta nossa contemporaneidade de ‘aldeia global provinciana, sufocante’ e enganadora, é fundamental que vozes como a sua e a da Deborah Orr se levantem; jornalistas com ética profissional, valores humanos e princípios fundamentados.
    (Estou plenamente de acordo com o comentário acima!)

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  4. Embora nao concorde com mtos dos seus ideais, neste pinto nao podia estar mais de acordo consigo!!
    Tb me apetecia passar a “incognito”, ou quejando….
    Passe bem Daniel
    Francisco Pena

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  5. Não posso estar mais de acordo. Logo que tive conhecimento do facto fiquei contrariada: não só pelo desrespeito pela autora na sua vontade de anonimato, como pelo desrespeito pelos leitores que já tinham lido os livros publicados, tinham aceite com gosto a postura da escritora, tinham formado a sua representação da mesma e esperavam ler mais livros na mesma condição até quando e se ela , um dia, quisesse apresentar-se publicamente. Que direito têm esses “cuscas” a ser desmancha-prazeres?

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