O pacto de silêncio

(Daniel Oliveira, in Expresso, 02/04/2016)

Autor

                                  Daniel Oliveira

Não é raro os oprimidos transformarem-se nos piores dos opressores. A linguagem do abuso aprende-se na pele e replica-se na vida. Isto acontece com as pessoas e com os povos. É por isso que Israel usa a lógica do gueto para controlar os palestinianos. E é também por isso que as elites africanas repetem os mecanismos de poder e de apropriação das riqueza das sociedades coloniais. Meio milénio de colonialismo não se apaga em cinco décadas.

Tem sido difícil, em Portugal, assumir que Angola, ao contrário de Cabo Verde, não está a evoluir para a democracia e para o Estado de direito. Há quem cale a indignação com os sucessivos atropelos aos direitos humanos por viver no passado, vendo no MPLA o oposto do que ele é hoje. Há quem tema a acusação de paternalismo colonial, como se o dever de combate a todas as ditaduras fosse menor com Angola. Mas a proximidade cultural e histórica entre portugueses e angolanos faz com que seja maior. Há quem queira proteger a comunidade portuguesa em Angola, repetindo um erro já cometido com a África do Sul do apartheid, que resultou em perda de autoridade moral e política de Portugal em África. Há quem só queira proteger os seus negócios, muitas vezes associados a uma relação marcada pela corrupção. Seja qual for a desculpa para a demissão, este pacto de silêncio tem os dias contados. Porque a crise económica angolana está a tirar peso político a Luanda e porque o desespero do regime começa a tornar difícil conter o incómodo público.

O processo que levou a pesadas penas para Luaty Beirão e 16 outros ativistas pela democracia só chegou ao ponto a que chegou porque José Eduardo dos Santos decidiu acusar publicamente estes jovens de uma delirante tentativa de golpe de Estado, deixando o “tribunal plenário” sem qualquer espaço de recuo. Estes jovens, muitos oriundos da elite angolana, não são um risco para a ditadura e a sua prisão só garante embaraço internacional e instabilidade interna. A miséria e o alheamento cívico de um povo que só conheceu o colonialismo, a guerra e a exploração, a corrupção em que se baseia todo o sistema de poder e a inexistência de uma verdadeira oposição política retira a estes corajosos combatentes qualquer possibilidade de sucesso a curto ou médio prazo. Mas é bom recordar que também foram jovens intelectuais, idealistas e ocidentalizados, que fundaram o MPLA. As exibições públicas de repressão tenderão a ser tão mais frequentes quanto mais o preço do petróleo baixe e José Eduardo dos Santos perca os recursos financeiros para alimentar a caprichosa corte que o rodeia. E depois dele não deverá vir nada de bom. Sem contar com implantação social e quadros políticos preparados para assumir o poder, resta aos democratas angolanos a esperança de que a geração de Luaty, crescida depois da guerra civil, vá assumindo o papel de uma nova elite realmente pós-colonial. Como no tempo do Estado Novo, não encontrarão em Portugal mais do que uma minoria solidária e desinteressada. Bem vistas as coisas, poucos primeiros passos para a liberdade contaram com mais do que o apoio de minorias empenhadas e do que a coragem de jovens idealistas.

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3 pensamentos sobre “O pacto de silêncio

  1. O colonista ainda era um menino quando das independências.Menino como tantos outros que com maus professores não lhe disseram a verdade sobre o pensamento dos portugueses,orgulhosos por uma recuperação evolutiva em todas as áreas que tanto amávamos os de cá como os de lá.Tente esclarecer-se com a verdadeira História de portugal e dos portugueses dessa época e compare como se vivia cá ,nas províincias Portuguesas e em toda a Europa.Tenha vergonha ,estude e orgulhe-se de ser Português

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