Presidenciais: porque merecemos uma segunda volta

(Estátua de Sal, 23/01/2016)

marcelo_novoa

Finalmente terminou a campanha eleitoral para a Presidência da República. Segui os debates, as arruadas, os comícios, as declarações, os números de circo de alguns dos candidatos, as análises prospetivas dos comentadores de serviço, bem como as projeções das poucas sondagens que foram sendo divulgadas. A acreditar nestas últimas a grande incógnita que ainda parece permanecer é se Marcelo Rebelo de Sousa consegue de uma penada, e à primeira volta, mais que 50% dos sufrágios ou se o País será de novo chamado às urnas para uma segunda volta. Também parece claro que, a haver segunda volta, essa irá opor Marcelo a Sampaio da Nóvoa, ambos professores universitários. Dois professores, dois estilos que nos propomos analisar em função das campanhas eleitorais que ambos protagonizaram, tentando descortinar a forma como cada um deles vê o seu auditório, isto é o país, e nele se revê.

A campanha de Marcelo foi tudo menos uma aula magistral. Marcelo usou o estilo do professor que vai para a aula contar anedotas de modo a criar empatia com o auditório dos broncos que tem pela frente, sendo a seguir escutado com menos bocejos quando enunciar um difícil conceito que de outra forma não atingiria nunca os enferrujados neurónios da plateia.

Para Marcelo o país é ainda uma floresta povoada de seres inferiores e pouco dotados para as coisas do espírito, da política e da cidade. Eles não percebem as minudências constitucionais, mas percebem o taberneiro que serve copos de tinto. Eles não percebem o deficit das contas públicas, mas percebem a cabeleireira que fala dos amantes da vizinha do sétimo esquerdo. Eles não percebem o Tratado Orçamental, mas percebem o barbeiro que sabe todas as táticas futebolísticas. Eles não percebem os poderes do Presidente da República, mas percebem o taxista que conhece todas as moradas de bruxos, quiromantes e afins, porque se farta de lhes descarregar à porta clientes infelizes com a vida.

Assim sendo, Marcelo fez a campanha que, lá no fundo, ele acha ser a merecida pelo país que ele julga ser ainda Portugal no dealbar do século XXI: um país inculto e bronco, sem vontade de deixar de o ser, onde habita um povo incapaz de orientar racionalmente as suas escolhas eleitorais, subjugando-as à leveza das romarias e ao sabor do bolo de bacalhau.

Esta visão dos portugueses, de quem Marcelo quer vir a ser Presidente, é a chave para a compreensão da sua campanha, mais que o seu objetivo imediato e circunstancial de demarcação das políticas de austeridade de Passos Coelho e do revanchismo da Direita contra atual governo do PS. Visão perigosa, porque visão ideologicamente devedora de um certo elitismo iluminado que sempre gerou ao longo da História, nas situações limite da conflitualidade social, suseranos e vassalos, senhores e servos, ditaduras e arbítrios. Ou seja, Marcelo não quer ser compreendido, nem acha que precise de se dar a compreender desde que, tal como o soberano, seja adorado e em consequência aplaudido. Ele revê-se narcisicamente como um ser superior cujas elucubrações não são atingíveis pela turba ignara, seja a plebe da esquerda sejam os cortesãos da direita. Ele paira sobre todos, a todos ofuscando com o fulgor da sua mente superior. Que não é de esquerda, que não é de direita, é a esquerda da direita, isto é, ele quer dizer que saberá, sempre e em cada momento o que fazer para agradar quer à esquerda quer à direita, e quer que acreditemos nisso por fé e não porque o compreendamos, devido às nossas limitações de gentes inferiores.  Como se o antagonismo social não existisse, como se a luta política fosse uma ficção ou uma novela para entreter os serões.

Sampaio da Nóvoa partiu de uma notoriedade restrita aos círculos académicos para a ribalta da mediatização que uma candidatura presidencial envolve. Nunca que se visse deu notas na televisão, nem a alunos nem a políticos. A avaliação deve ser feita com seriedade e gravidade e não como um espetáculo para aos domingos ocupar os fins-de-tarde. Até porque da justeza da avaliação depende a vida futura dos alunos. Há professores que disso se esquecem com frequência.

Também visitou feiras, fábricas, hospitais, falou com as gentes que lhe foram vindo ao caminho. Ouviu-as. E foi repetindo que, o que queria mesmo fazer, era ouvir as pessoas. Porque as pessoas teriam a dizer-lhe algo que talvez ainda não soubesse, ou intuísse apenas de forma superficial. Ouvir é aprender. Nóvoa saiu da Academia para aprender, e também para dar aulas magistrais. Em todos os auditórios em que falou nunca saiu da postura de quem ensina e ouve para ensinar mais e melhor. Sem soberba, sem manifestar qualquer sentimento de superioridade ou condescendência para com os interlocutores, sem menosprezar a capacidade de os cidadãos o entenderem. Tentando transmitir conceitos e debater ideias, situações, contextos, o presente e o futuro. Em suma levando uma mensagem política.

Marcelo não é de esquerda nem de direita, diz ele. Nóvoa não hesita. Nóvoa diz que é de esquerda, seja lá o que isso signifique nos dias de hoje, mas que todos são bem-vindos porque a todos ouvirá ainda que – contrariamente à visão asséptica que Marcelo quer que acreditemos que ele tem da luta política e social -, não poderá prover a todos com igual peso. Porque estará do lado dos mais fracos contra os mais fortes. Porque estará do lado dos mais desvalidos contra os mais privilegiados em caso de irreconciliável conflito.

Nóvoa acha que os portugueses são suficientemente cultos e inteligentes para perceberem esta mensagem, que a merecem, e mostra-se aberto a discuti-la com todos os quadrantes políticos, e nomeadamente com o seu adversário mais direto, já anunciado vencedor por antecipação por muitos arautos encartados. Para Nóvoa, enquanto professor, parece que os alunos não são broncos e não é preciso contar-lhes anedotas antes de se lhes expor conceitos difíceis que devem aprender e debater de seguida.

Nóvoa acha que o país ainda é capaz de grandes feitos, que tem potencial, que tem energias que urge catapultar, que é capaz de se fazer compreender e que pode ser eleito Presidente da República porque o país o compreendeu sem simplificações e sem mistificações. A clareza acima do embuste. A verdade acima da propaganda. A razão acima da fé. Uma trindade perfeita dos princípios que enformam todo o ideário dos valores republicanos, por muitos esquecidos.

Em contraponto, mais que um Presidente-presidente, Marcelo quer ser um Presidente-rei. O facto de ainda se manter na presidência da Fundação da Casa de Bragança é revelador do seu íntimo enlevo pelas causas monárquicas, ou pelo menos pelas suas liturgias.

Ungido pelas televisões, apadrinhado pelos escribas do reino, agora quer ser entronizado pelos súbditos. Se tal suceder, provavelmente vai-nos dar catorze que é a nota que se dá a um aluno médio, mas esforçado. Se tiver que disputar uma segunda volta, ainda nos vai dar oito para irmos á oral. Mas se perder na segunda volta, acreditem que nos irá chumbar inapelavelmente, e nunca mais faremos a cadeira. Mas nesse caso, as gentes deste país, terão mostrado a Marcelo, terem muito mais inteligência e bom juízo do que ele pensava que tivessem.

Como cidadão padecente de várias deficiências, que não a mental, creio ter direito a almejar que as eleições presidenciais não terminem já na primeira volta, para que possa ter, pelo menos a esperança, de não continuar a ser tratado por Marcelo Rebelo de Sousa como pobre de espírito e merecedor do meu lugar no Céu por decorrência dos ensinamentos da primeira bem-aventurança que ele, como inveterado católico, bem deve respeitar.

Quero saber o que pensa Marcelo das pressões de Bruxelas sobre o Governo para que privilegie o deficit em vez da restituição de rendimentos às famílias. Quero saber de que lado estará em caso de tal pressão causar brechas na coligação de esquerda que sustenta o Governo. Quero saber de que lado estará se tentarem mandar no futuro mais faturas aos contribuintes para salvar bancos e banqueiros. Quero saber o que pensa Marcelo da globalização e da crescente ascensão de forças antidemocráticas na Europa com a bênção da União Europeia. Quero saber o que pensa Marcelo sobre a política económica da zona Euro que aposta tudo na desvalorização salarial e no desemprego como forma de ganhar competitividade e de resolver os problemas das dívidas soberanas emergentes dos resgates a bancos provocados pelos desvarios do sistema financeiro desregulado e protegido pelas instituições de Bruxelas e pelos governos liberais da sua família política. E a lista vai longa e poderia ser continuada com mais outras tantas interrogações pertinentes.

Como vê, meu caro Marcelo, ainda há cidadãos, portugueses mas anónimos, capazes de lhe fazerem perguntas difíceis. E já que anda diariamente a rezar o terço para não ter que debater de novo com o professor Nóvoa estas e outras matérias, se quiser pode discutir comigo. Eu garanto que ainda lhe pago um fino e dois bolos de bacalhau e não chamo as televisões se você se sentir muito atrapalhado.

Estátua de Sal, 23/01/2016

2 pensamentos sobre “Presidenciais: porque merecemos uma segunda volta

  1. Subscrevo assinando por baixo, mas com a esperança de uma segunda volta, mais que não fosse para que a tvi não perca tão importante, valioso e caro comentador!.

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  2. Ouvindo Marcelo no último debate, pareceu-me estar a ouvir o candidato de António Costa, mais até do que quando ouvi o prudente Sampaio da Nóvoa,, que se recusou a discutir um orçamento que desconhecia. Mais do que o seu elitismo intelectual (Marcelo não é, convenhamos, um fazedor de doutrina jurídica, antes mais um bom pedagogo, se bem que algo diletante), do que as suas posições políticas passadas, que são em quase tudo opostas às minhas, o que me assusta nesta pessoa é a sua volubilidade e imaturidade. Um Presidente da República não é um Rei que distribui afetos e sim um ator central do nosso sistema político. Se Cavaco foi um político sério como PM que se revelou um desastre como PR, de Marcelo, cujo maior contributo para a Política parece ter sido o processo de refiliação no PSD, é de esperar o pior. Se ele for eleito, claro está, o que parece infelizmente provável…

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