Explicações e avisos de António Costa

(Nicolau Santos, in Expresso, 12/12/2015)

nicolau

Na entrevista que concedeu ao “Público”, a primeira a um jornal, o primeiro-ministro, António Costa, diz: “O objetivo deste Governo não é prosseguir com outras caras a política do anterior governo. O nosso objetivo é mudar de política, e ela passa por termos instrumentos distintos dos que foram empregues pelo anterior governo”. Estas palavras são importantes porque nos últimos quatro anos o anterior primeiro-ministro, Passos Coelho, obteve uma indiscutível vitória ideológica: colocou-nos quase todos a culpabilizar-nos pela crise como resultado dos nossos excessos consumistas; e colocou-nos quase todos a concordar que só saíamos da situação empobrecendo. Daí a quase todos aceitarmos o discurso de humilhação contra os funcionários públicos e de acusação contra os reformados e pensionistas foi um passo de anão. Assim como quase todos aceitámos o disparo no desemprego e a brutal emigração como coisas naturais decorrentes da crise — bem como a falência de milhares de empresas e a venda de grandes empresas públicas a capitais estrangeiros.

É bom, pois, para os que ainda não perceberam, que António Costa frise que este Governo não vai fazer o mesmo que o anterior com caras diferentes. Para isso, era melhor ter deixado estar lá o original. Não. Costa vai fazer diferente e deve ser julgado por isso. E se houve coisa que Costa disse foi que estava contra a privatização da TAP. Não é por isso estranho que revele que o Governo já está a negociar com os compradores da transportadora aérea, no sentido de o Estado voltar a ter a maioria do capital da empresa. Como não é estranho que diga que será revertida a privatização das subconcessões dos transportes coletivos de Lisboa e Porto, um contrato feito sob pressão e por ajuste direto, considerado ilegal pelo Tribunal de Contas — além de que, como sempre defendeu, a gestão dos transportes públicos nas cidades deve ser uma competência municipal.

Cheira a esturro. Carlos Costa perdeu isenção e semeou ventos. É natural que venha a colher tempestades

Quanto à banca, o primeiro-ministro sublinha que “estamos a trabalhar com o Banco de Portugal para (…) responder às questões que se colocam nas instituições bancárias onde é necessário assegurar intervenções para a estabilidade do sistema financeiro”. Ou seja, o Estado vai ser chamado a apoiar a banca nacional. Depois, Costa revela já ter dito ao governador do Banco de Portugal o que pensa da contratação pelo Fundo de Resolução do ex-secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, para vender o Novo Banco. E deduz-se que não pensa bem. Ora é muito perigoso abrir uma guerra com o governador, porque o seu cargo é inamovível e depende do BCE. Mas Carlos Costa não se pode queixar. Nos últimos quatro anos suportou publicamente as políticas do anterior governo, depois isentou-o de qualquer responsabilidade no caso BES e finalmente foi pedir ajuda a Sérgio Monteiro para o ajudar a resolver o problema. Cheira a esturro. Carlos Costa perdeu isenção e semeou ventos. É natural que venha a colher tempestades.


Putin e o petróleo do Daesh

Na sequência do abate de um avião russo por tropas turcas, Vladimir Putin acusou o seu homólogo turco, Tayyip Erdogan, de responsabilidades diretas no incidente. O motivo seria proteger as rotas de abastecimento de petróleo do Estado Islâmico, que passam pela Turquia. A acusação de Putin parece excessiva mas não anda longe da verdade. Por outras palavras, o EI vende no mercado negro o petróleo que controla. E escoa-o através do território fronteiriço turco. Se os compradores são turcos ou de outras nacionalidades ainda não se sabe, embora se suspeite. Mas que a Turquia fecha os olhos a essa atividade ou pelo menos se mostra completamente incapaz de lhe pôr cobro, isso é claro. Barack Obama apressou-se a dizer que a Turquia é membro da NATO. É verdade. Mas há sinais que mostram que o Presidente turco apoia os movimentos terroristas porque quer derrubar o Presidente sírio, Bashar al-Assad —, que por sua vez é apoiado por Putin. A NATO não esconde o lado escuro de Erdogan.


Homenagem a Silva Lopes

O Banco de Portugal presta no dia 14 uma justíssima homenagem a José da Silva Lopes. Com uma sólida formação académica, reconhecido nacional e internacionalmente, Silva Lopes atravessou todos os grandes momentos da vida económica nacional, desde a adesão à EFTA e à então CEE, passando pelos dois primeiros acordos com o FMI (1978 e 1983). Foi ministro das Finanças, governador do Banco de Portugal e consultor de vários governos. E deixou um indelével legado de ética e incorruptibilidade.


Classe média, a vítima

Um estudo divulgado pelo “Financial Times” mostra que, pela primeira vez desde há 45 anos, a classe média norte-americana (entre 46 mil e 126 mil dólares) é agora menor do que a soma dos que têm os mais baixos e os mais altos rendimentos. Em 1971, a classe média representava 61% do rendimento, em 2015 só 50%. A classe de rendimentos mais baixos (menos de 31 mil dólares) passou de 16% para 20%. A de rendimentos baixos (entre 31 mil e 42 mil dólares) manteve o mesmo peso: 9%. Em contrapartida, a classe de rendimentos mais altos (entre 126 mil e 188 mil dólares) aumentou ligeiramente (de 10% para 12%). Quem cresceu mais foram os mais ricos (mais de 188 mil dólares por ano), que mais do que duplicaram: de 4% para 9%. Explicação: as forças da mudança tecnológica e da globalização estão a conduzir ao esmagamento da classe média e ao aumento das desigualdades. É uma tendência que está a acontecer em todo o mundo. Para a economia não é uma boa notícia. Mas para a democracia também não.


Eis o estampido

que em noite gelada

em mim recolheu.

O frio era tanto

que o gelo estalava

com frio também.

A névoa era muita.

E um barco partia

bem colado à bruma.

E a morte seguia

com o frio que fazia

em cerco de espuma.

O gelo era tanto

que a mão do quebranto

a mim se estendeu.

Sentado num banco

o frio era tanto

que o frio era eu!

(João Rui de Sousa, in ‘Frio’, in “Quarteto para as próximas chuvas”, Publicações Dom Quixote, 2008)

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