Acabou!!!! Acabou. Acabou?

(José Pacheco Pereira, in Público, 28/11/2015)

Autor

            Pacheco Pereira

Experimentem dizer “acabou” junto de uma das inumeráveis vítimas destes anos de “ajustamento” e vão ver como é a resposta.


Acabou!!!!

Experimentem dizer “acabou” junto de uma das inumeráveis vítimas destes anos de “ajustamento” e vão ver como é a resposta. Eu já experimentei várias formas e têm todas um ponto de exclamação no fim ou outro qualquer expletivo. Ou é um suspiro fundo de quem atravessou um trajecto complicado e, chegado a outro lado, respira longamente de alívio; ou é um alto e sonoro “acabou” como antes do 25 de Abril se chegava ao “às armas” da Portuguesa e de repente toda a gente gritava a plenos pulmões; ou é uma espécie de vingança saborosa em ver na mó de baixo aqueles que sempre entenderam que têm o direito natural de estar na mó de cima.

Ou há mesmo uma variante irónica, como se o “acabou” fosse semelhante ao do episódio dos Monty Python em que uma personagem num pub dizia para um eleitor circunspecto do PAF ao lado “you know what I mean?” e tocava-lhe nos braços numa cumplicidade admitida. Wink, wink. No episódio, depois queria vender-lhe fotografias pornográficas: “you know what I mean?” Aqui, era uma fotografia de Cavaco Silva a “indicar” António Costa, wink, wink. Até eu fico da escola do engraçadismo, imaginando alguns personagens que andaram a insultar a nossa inteligência, a mentir-nos descaradamente, e a atacar o bolso dos que não se podiam defender, culpando-os de “viverem acima das suas posses” e de serem “piegas”.

You know what I mean?”. Piu-pius governamentais que vivem no Twitter; irrevogáveis de geometria variável; o “impulsionador jovem” que aos saltos no palco dizia à assistência “ó meu, isso da história não serve para nada”; os “justiceiros geracionais” que queriam tirar as reformas aos pais e avós para em nome de uns abstractos filhos e netos as darem a “outros” pais e avós, bem vivos e presentes, em nome da “estabilidade do sistema financeiro”; os neo-malthusianos que nos encheram de simplismos gráficos em que se escolhiam os parâmetros e se excluíam outros para concluir que “não há alternativa”; os arrojados ultra-liberais, que queimam o valor dessa bela palavra de liberdade, e que proclamam que nunca, jamais e em tempo algum quereriam “casar” com as “esganiçadas” do Bloco, sem sequer perceber o que lhes diz o espelho; as mil e um personagens ridículos cuja desenvoltura vinha de terem poder, estarem encostados ao poder e entenderem que tinham impunidade para pisar os outros porque eram mais fracos e tinham menos defesas. Vamos todos dançar a tarantela para expulsar o veneno.

Acabou!!! Sabem ao que me refiro? Sabem, sabem. Bem demais.

Acabou.

Acabou. Percebe-se no ar que chegou ao fim uma época, um momento da nossa vida colectiva e que existe um desejado ponto sem retorno. E, na verdade, para “aquilo” já não é possível voltar, pode ser para outra coisa pior ou para outra coisa diferente, mas para o mesmo já não há caminho.

O modo como “acabou” conta muito, porque é diferente dos modos tradicionais da vida política portuguesa.

Se o governo PSD-PP tivesse acabado nas urnas por uma vitória do PS mesmo tangencial, o efeito de ruptura estaria muito longe de existir, mesmo que o governo PS não fizesse muito de diferente do que o actual governo minoritário vai fazer. Foi a ecologia da vida política portuguesa que mudou, com o fim da tese do “arco de governação” e, mais do que qualquer solução, que pode ser precária, não durar ou acabar mal, acabou a hegemonia de uma das várias construções que suportavam a ideologia autoritária que minava a democracia nestes dias, a do “não há alternativa”.

Acabaram os votos de primeira e os de segunda, com o escândalo de também os votos de um torneiro numa oficina de reparações, que faz todas as opções erradas e tribunícias, é sindicalizado nos metalúrgicos, vive na margem sul, e vota na CDU, também valer para que haja um governo de pacíficos funcionários públicos e professores que votam no PS, ex-membro do “arco da governação”. Não é por amor ao governo de Costa, nem ao PS, é outra coisa, é porque não queriam os “mesmos” e foi essa força que os fez acabar. Vem aí o PREC? Se a asneira pagasse multa podíamos enviar os asneirentos num pacote para pagar a dívida e ainda ficávamos com um superavit.

Pode até não mudar muito, porque já mudou muito.

Acabou?

Não. Há muita coisa que não acabou. Há um rastro de estragos, uns materiais e outros espirituais, que não vão ser fáceis ou sequer possíveis de superar numa geração. Sempre que um jornalista fizer a pergunta pavloviana de “quem paga?” ou “quanto custa?” só sobre salários, pensões e reformas, ou seja aquilo que interessa aos que tem menos e nunca faça a mesma pergunta em primeiro lugar, e muitas vezes único lugar, para tudo o resto, benefícios fiscais, impostos sobre os lucros, “resolução” de bancos, PPPs, swaps, etc. ainda não acabou. Sempre que alguém “explicar”, com um encolher irónico dos ombros e completa e absoluta indiferença, a ineficácia da fiscalidade sobre a riqueza, porque os capitais “deslocam-se” como água para outros sítios, para offshores, e podem sempre fugir, e por isso “não vale a pena” sequer admitir tentar taxá-los, ainda não acabou. Sempre que se considera como normal que quem manda em nós, eleitores, portugueses, Portugal, são uns burocratas de Bruxelas e uma elite de governos europeus, que nos governam por “instruções”, “directivas”, “regras”, interpretadas rigidamente para países como Portugal e com ampla folga para países como a França, ainda não acabou. Sempre que o dolo, a violação da confiança e dos contratos com os de “baixo” e a inviolabilidade com os de “cima”, continuar a ser a prática de um estado de má-fé, ainda não acabou. Sempre que se cultive, dissemine, impregne, envenene a vida pública com a indiferença com a pobreza, o desemprego, a quebra de qualidade de vida, a perda de dignidade quando se vê a casa penhorada , ou se perde o carro na frágil classe média que criamos depois do 25 de Abril, retirando da pobreza muitas famílias para lhes dar outros horizontes pelo trabalho e, aos seus filhos, pela educação, e se vê tudo isto como efeitos colaterais não se sabe de quê, embora se saiba para quem, ainda não acabou. Sempre que se despreza os que vivem com dificuldades do seu trabalho e se valorize a esperteza e o subir na vida, ainda não acabou. Sempre que se violam direitos sociais, protecções aos que menos força têm, reivindicações de gerações inteiras, ainda não acabou.

Sempre que se acha que isto é radicalismo e não decência, ainda não acabou.

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O maior perigo para Costa seria Maria de Belém

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/11/2015)

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Daniel Oliveira

A atual situação política deu uma importância insuspeitada às eleições presidenciais. A insistência de Passos Coelho e Cavaco Silva (teve ontem mais um lamentável discurso carregado de ameaças e rancor) na tese de uma suposta ilegitimidade deste Governo tem como principal alvo o candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS. Querem que Marcelo se comprometa com a dissolução da Assembleia da República em abril, quando passarem seis meses das eleições, não dando tempo a António Costa para consolidar a sua posição. As presidenciais passaram a ser o tudo ou nada para o futuro de António Costa e de Passos Coelho.

A direita sabe que Marcelo Rebelo de Sousa não cometerá o erro de se comprometer com uma dissolução. Apesar de terem tentado convencer o país do contrário, PSD e CDS valem menos de 40% dos votos. Com isso Marcelo ficaria bem distante de uma vitória na primeira volta. Mas querem garantir que não se compromete com o oposto. Garantir que não diz, como seria normal que dissesse (já disse quase mas ainda não o disse), que, a não ser que esteja em causa o regular funcionamento das instituições, não dissolverá o Parlamento enquanto o Governo de António Costa tiver o apoio parlamentar necessário.

O maior risco para o governo de António Costa não é, no entanto, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Apesar de originário da direita e de militante do PSD, todos sabem que tem uma agenda própria e que essa agenda não passa, seguramente, por fazer favores a Passos Coelho. Pelo contrário, Marcelo é o candidato que Passos nunca quis (e deixou-o bem claro) e Passos é o político que Marcelo não aprecia. São talvez os maiores inimigos destas eleições.

O maior perigo para António Costa é Maria de Belém. Não é dona de uma agenda própria, é a candidata da ala derrotada por Costa no PS e a candidata desejada por Passos para enfraquecer PS e Marcelo em simultâneo. Se há candidato que representa as forças que querem ver fracassar um governo de esquerda é, sem qualquer dúvida, Maria de Belém.

Junta-se a esta agenda política uma agenda programática: da primeira vez que um governo de Costa toque com um dedo que seja nos interesses dos grupos privados de saúde ou tente reverter a entrega de partes do Serviço Nacional de Saúde às Misericórdias encontrará em Maria de Belém, autêntica plataforma logística de interesses privados, oposição mais do que certa.

Perante isto, parece-me incompreensível a estratégia de divisão a que se assiste na esquerda. Não falo de voto útil contra Marcelo. Edgar Silva e Marisa Matias representam o melhor do PCP e do BE – militância social empenhada e abertura para o mundo e para o diálogo. Mas estas candidaturas são especialmente difíceis de explicar quando, numa área política contígua, se encontra um candidato independente, claramente situado à esquerda (à esquerda de Jorge Sampaio, que PCP e partidos que deram origem ao BE apoiaram sem qualquer problema) com a possibilidade de chegar à segunda volta e que representa naturalmente o espaço político que garantiu o apoio maioritário ao próximo governo.

Numa situação normal, as candidaturas de Edgar e Marisa seriam uma ajuda ao conjunto da esquerda. Ao contrário do que se costuma pensar, mais candidatos é mais escolhas, mais escolhas é mais gente a votar à esquerda, mais gente a votar à esquerda é menores possibilidades de maioria absoluta de Marcelo à primeira. Acontece que estas candidaturas só podem existir e crescer à custa de eleitorado potencial de Sampaio da Nóvoa e só por via desta divisão Maria de Belém, mesmo ficando abaixo dos 20%, surge como candidata a uma segunda volta com Marcelo. E numa segunda volta entre Marcelo e Belém a esquerda teria de fazer uma escolha irónica: ou eleger uma representante dos que no PS (e no PSD) se opõem ao Governo de esquerda ou dar a vitória à direita nas presidenciais.

A esperança de novo

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 27/11/2015)

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Baptista Bastos

 

A esperança tem sido a nossa namorada nos péssimos momentos que vamos vivendo, e essa esperança, constantemente atacada e constantemente renovada, é a flor de lótus que acompanha o drama da nossa existência.

Ao servir-se do verbo “indicar”, em vez do “indigitar”, António Costa para primeiro-ministro, como recomenda a Constituição, o dr. Cavaco comete uma pequena perfídia de linguagem, acentua ainda mais a crispação na sociedade portuguesa, e trata-nos como tolos.

Mesmo quase a ser enxotado das funções que deslustrou, o sujeito não deixa de ser um vingativo medíocre, que o marca como o pior Presidente da República dos últimos 40 anos. A boçal tentativa de nos apagar a esperança renascida não cola. A esperança tem sido a nossa namorada nos péssimos momentos que vamos vivendo, e essa esperança, constantemente atacada e constantemente renovada, é a flor de lótus que acompanha o drama da nossa existência. Não somos um povo feliz. A influência da Igreja foi-nos nefasta e a presença da Inquisição, durante três longos e miseráveis séculos, aumentou os nossos medos e as nossas superstições. Depois, os cinquenta anos de fascismo repressivo padreco, venenoso, acabaram por dar nisto. Poucas vezes, duas ou três, tivemos um Governo à altura das nossas esperanças. Depois do 25 de Abril, como que reaprendemos a respirar. A festa durou pouco. O cavaquismo reagrupou os ressentidos e não estimulou, por notória incompetência e fria maldade, a razão crítica e criativa. Como primeiro-ministro, o algarvio foi um esbanjador; como Presidente da República, uma nódoa inapagável. Vão passar anos antes de regressarmos às alegrias da esperança e ao coração a transbordar de projectos.

Mas a nossa namorada persistente não nos abandonou: esteve sempre connosco e foi o nosso amparo e respaldo, o corpo que nos aqueceu quando tudo parecia perdido e o desalento fazia de nós homens desavindos. Nestes últimos anos, as sombras do antigamente voltaram a assolar-nos. As circunstâncias transportaram para o poder os netos de Salazar. Assim como os seus filhos já haviam pernoitado em Belém. Num instante, tomaram conta do aparelho de Estado, dos jornais e das televisões; e, até, das mentalidades.

 Estão-nos na massa do sangue os rituais da obediência sem limites, e o medo faz parte do nosso vocabulário social.

 De vez em quando lá aparece um que não está de acordo e faz reflorescer as nossas adormecidas esperanças. Eu próprio sou dado a essas alegrias fugazes e efémeras. Um dia escrevi uma frase que correu: “A esperança tem sempre razão.” Depois, incomodei-me com a sua aparente leviandade. Deixei-a de remissa, enquanto ia envelhecendo com tristeza, mas sem vileza.

Estes últimos quatro anos e meio de Passos e os seus calcaram o que residia em mim de alegria. Sigo o que se passa lá fora com os sobressaltos que os problemas consigo transportam. Quando o Syriza bateu o pé aos senhores da Europa, rejubilei, para logo emurchecer com a sua queda. Pertenço a todos os sítios e a todos aqueles que acreditam ser possível a felicidade entre os homens. Batuco nas teclas há um ror de anos, e sei que quem me lê sabe que não vendo fruta bichada. Transmiti-lhes, assim como aos meus, a ideia e a certeza dessa ideia de que vale a pena ter esperança, uma das formas mais nobres de resistência. E continuo a emocionar-me com o prestígio que comporta e envolve a palavra revolução, sempre relacionada com esperança, a namorada que não desiste.

 Podia, agora, relatar aos meus Dilectos alguns episódios que me têm acontecido e que ilustram e justificam porque embalo a esperança como linha de vida. Fá-lo-ei um dia destes, porque gosto de partilhar as experiências benévolas e meia dúzia de convicções que sempre me acompanharam. Apenas para insistir que vale a pena ter esperanças, muitas e muitas.

Estamos noutra coisa. Certamente melhor. Vamos a isto, com a esperança a namorar-nos.