A imigração dá lucro a longo prazo

(Paul de Grawe, in Expresso, 19/09/2915)

Paul de Grawe

                   Paul de Grawe

A maioria dos estudos sugere que a imigração promove o crescimento, não conduz ao aumento do desemprego e tem efeito positivo no orçamento do Estado.


O fluxo de refugiados em curso tem provocado reações positivas e negativas por toda a União Europeia (UE). Alguns países, como a Alemanha e a Suécia, permitiram a entrada nas suas fronteiras a números maciços de refugiados. Esta hospitalidade baseou-se num sentimento surpreendentemente forte de solidariedade face a pessoas que sofrem as misérias de guerras civis cruéis. Outros, como o Reino Unido e a Hungria, brilharam por uma hostilidade sistemática relativamente aos mesmos refugiados. É surpreendente ver como emoções tão diferentes face aos refugiados podem coexistir na UE. Esta diferença a nível emocional também explica porque é tão difícil desenvolver uma política comum na matéria no seio da União.

Tudo indica que o fluxo de refugiados não vai diminuir tão depressa. As convicções morais têm até agora sido formadas na base da vontade de abrir as fronteiras numa série de países do norte da UE para abrigar as pessoas que fogem da violência nos seus países. Pode dar-se, no entanto, que a moral seja posta de lado, sendo sabido que o fluxo de refugiados não para de aumentar. A tentação de fechar as fronteiras torna-se neste momento muito grande.

Muitos temem que o fluxo contínuo de refugiados possa custar à UE muito dinheiro. Neste caso, os deveres morais são provavelmente afastados a favor dos económicos. Por outras palavras: se a imigração tiver um elevado custo económico, os sentimentos mais elevados e a moral não serão suficientes para manter uma política de fronteiras abertas para os refugiados.

Há boas notícias, porém. A imigração acabará por oferecer benefícios económicos significativos para os países que recebam imigrantes. A vasta maioria dos estudos sugere que a imigração promove o crescimento económico, não conduz a um aumento do desemprego e tem um efeito positivo no Orçamento do Estado. Passou-se isso na maioria dos países que no passado abriram as suas fronteiras aos migrantes. Não há razão nenhuma para crer que não será assim no futuro.

Os argumentos morais deveriam ser suficientes para manter as nossas fronteiras abertas. Mas é agradável perceber que fronteiras abertas são economicamente benéficas

Há muitos mal-entendidos acerca disto. Baseiam-se normalmente numa falta de compreensão das mais básicas leis da economia. Veja-se a ideia popular de que os imigrantes tiram trabalho aos residentes nos países de destino. Essa ideia assenta na falácia de que o número de postos de trabalho num país é fixo. Mas não é. Os migrantes economicamente ativos contribuem para a produção de bens e serviços. Isto permite-lhes consumir, o que pelo seu lado facilita que os outros produzam mais e assim sucessivamente. Portanto, a imigração leva a mais produção e em última instância à criação de mais emprego. E isso é favorável do ponto de vista do Orçamento de Estado.

Quando as mulheres entraram em massa no mercado de trabalho, nos anos 70 e 80, muitos alegaram que um posto de trabalho para uma mulher era um posto de trabalho a menos para um homem, resultando daí o crescimento do desemprego. Esta ideia baseava-se na falácia de que o número de empregos num dado país é fixo. Verificou-se que era um erro. Na maioria dos países em que as mulheres entraram em grande número no mercado de trabalho, o desemprego não aumentou porque as mulheres que se tornaram ativas contribuíram para uma expansão da capacidade produtiva do país. Isto, por seu lado, tornou possível criar mais postos de trabalho.

Os efeitos económicos positivos da imigração só aparecerão, como é evidente, se os países da UE permitirem aos imigrantes trabalhar e os ajudarem ativamente a encontrar trabalho. Os refugiados que são ajudados a integrar-se na economia acabam por contribuir para o bem-estar económico.

Uma política de integração deste tipo custa dinheiro a curto prazo porque os refugiados têm de ser ajudados no início. Mas, a longo prazo, a União colherá os frutos económicos desta integração.

Não quero que se pense que estou a favor da imigração porque ela nos trará vantagens a prazo do ponto de vista económico. Os argumentos morais deveriam ser suficientes para manter as nossas fronteiras abertas. Mas é agradável perceber que fronteiras abertas são economicamente benéficas. A consciência de que a União Europeia beneficiará economicamente da chegada de refugiados pode dar um empurrãozinho aos nossos deveres morais.

(Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica)

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