DON’T LIKE IT

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 19/09/2015)

Clara Ferreira Alves

                        Clara Ferreira Alves

Não sou admiradora de Zuckerberg. O mundo estava melhor sem a sua invenção, que considero invasiva da privacidade e uma ameaça à segurança.

Nos idos do século XXI, passou pelas televisões uma série genial chamada “Little Britain”. Duas personagens da série, Lou e Andy, tornaram-se símbolos do humor descabelado dos ingleses. Lou é um tipo cheio de bondade e paciência para com um deficiente caprichoso e mau, Andy. Andy é um falso deficiente que se levanta da cadeira de rodas sempre que Lou não está a olhar. As duas personagens são avatares de uma paródia anterior de David Walliams (Lou) e Matt Lucas (Andy), os criadores da série, a Lou Reed e Andy Warhol. Os sketches em que os dois aparecem são hilariantes. Andy tem apetites complicados, que Lou tenta satisfazer. Andy quer batatas fritas de pacote num restaurante de luxo, Andy quer usar um fato de Smurf, Andy quer isto e quer aquilo e nunca está satisfeito. A frase dele é: “Eu quero aquilo.” I want that one. Logo rematada por Don’t like it. “Não gosto.” Andy é a personagem mais odiosa criada por uma série de comédia. E muito cómica. Não só por ser politicamente incorreta, Andy é um falso deficiente engordado por excesso de rabo sentado a ver televisão, mas por ser absolutamente iconoclasta. Os dois são mais do que isto, são tipos humanos que carregam filosofias existenciais. Andy resumiu o mundo a coisas de que gosta e de que não gosta e, como não gosta de nada, exerce sobre Lou a tirania dos apetites. Dos moods. Andy é um visionário que o visionário Mark Zuckerberg deveria homenagear. Zuckerberg acaba de anunciar uma novidade como se anuncia uma descoberta científica. Uma novidade que o fará ainda mais rico a vender preferências emocionais à publicidade. Vamos poder usar além do like o dislike. A mãozinha com o polegar para baixo. O Facebook prepara-se para abolir de vez as categorias morais, incluindo o certo e o errado, o bom e o mau, o presta e o não presta. Um pequeno passo para o Facebook e um salto gigantesco para a Humanidade. A partir de agora vamos ser avaliados pelo capricho, pela emoção instantânea, e a publicidade será colocada em função dos apetites do momento. O homem tem x likes mas tem y dislikes, está tramado. Todas as figuras públicas saberão quantos likes e dislikes valem e contratarão profissionais que enterrem os dislikes em likes ou vice-versa. Sistemas políticos e axiológicos podem ser criados com base nesta avaliação superior e intelectual. As figuras privadas poderão usar e abusar do rating interativo. Não gosto do tipo, toma um dislike. Não posso ver a tipa, vai um dislike.

Não sou admiradora de Zuckerberg. O mundo estava melhor sem a sua invenção, que considero invasiva da privacidade e uma ameaça à segurança. O algoritmo é um predador do narciso que existe em cada um de nós e vende os nossos dados a quem pagar. Nas mãos do tirano, o Facebook faz o Big Brother parecer um brinquedo.

A predação do Facebook é tolerada porque está nas mãos de Zuckerberg e acionistas, estupidamente ricos com a coisa. Se são os americanos que controlam aquilo, estamos salvos, pensam os ingénuos. Nenhuma tecnologia foi tão longe na recolha de dados pessoais. Zuckerberg comprou o Whatsapp por 16 biliões de dólares porque quer lançar a mão sobre os dados privados do Whatsapp, que um dos fundadores quer manter privados. Esta guerra entre eles continua. Seremos inevitavelmente vencidos pela nossa inércia ou pela inércia das ordens jurídicas que tentam regular a tecnologia sem conseguir. As ditaduras limitam-se a proibir. Conseguiu-se timidamente regular (proibir?) a produção de clones humanos, caso limite. Na Argentina, uma empresa de alta tecnologia científica dedica-se a criar clones de cavalos para os pôr a render no desporto nacional, o polo. E consegue. Assustador.

A tecnologia controla-nos. E controla a nossa axiologia. O mundo divide-se em likes e dislikes. Um dia, poderemos substituir o entediante processo do voto por uma democracia de likes e dislikes. De certo modo, já o fazemos. Um bufão como Donald Trump derrota nas sondagens todos os outros candidatos a ocupar a Casa Branca. Trump é o mestre da doutrina do like e do dislike. Avalia os outros em função do que gosta e não gosta e insulta-os. Fulano? Gosto, diz bem de mim. Sicrano? Não gosto, tem cara de estúpido. Carly Fiorina? Não gosto, e com aquela tromba não chega à Casa Branca. Kim Kardashian? Gosto, e é minha amiga. A multidão pela-se por este efeito de “verdade”. Trump é Andy com jeito para os negócios e uma fortuna que atira como confeitos. Sou rico, quer ser rico como eu? Like. Trump provoca uma reação emocional que nenhuma reação intelectual vencerá. Isto autoriza-o a tudo. Até a vencer eleições. Um engraçado do Partido Trabalhista mandou-lhe um tweet com uma fotografia de Jeremy Corbyn, o líder do Labour, a dizer: “O meu pai vai votar pela primeira vez e vota em si.” Não fazendo a mínima sobre quem é Corbyn, Trump respondeu “Ótimo!” E ‘retweetou’.

Assim vivemos. Don’t like it.

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4 pensamentos sobre “DON’T LIKE IT

  1. A autoestima de quem escreve para os média era muito mais serena, quando o escriba podia dizer todas as bacoradas, desde que o chefe aprovasse; realmente agora com a web a vida tornou-se muito mais incomoda para os tudologos. Felizmente para nós leitores que o progresso não para, a porta dos interesses das luminárias.

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    • Clara Ferreira Alves tem toda a razão neste artigo. Trata-se de uma jornalista sempre bem documentada, que aprofunda sempre os temas que aborda e que tem ideias próprias que não precisam do aval de qualquer director ou”chefe” como o Sr estupidamente diz, deixando entender que está ás ordens… quem a segue desde muitos anos no Expresso na pluma caprichosa, tem noção de que ela representa o que deveria sempre ser o jornalismo de qualidade! Critof9, você parece estar de prevenção como na tropa, prontinho a atacar qualquer artigo de esquerda que seja interessante e contra o poder estabelecido! Engano-me ?

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