Eu radical me confesso

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 07/08/2015)

Pacheco Pereira

                Pacheco Pereira

Por entender que a liberdade é o mais precioso e frágil dos bens.

Por entender que a liberdade quando se tem em plenitude não se dá por ela, quando se começa a perder os homens e as mulheres que a amam percebem-no de imediato: “Onde liberdade não há, abuso dela não pode haver.”

A liberdade pertence a todos e exige a igualdade para se realizar: “O valor essencial da liberdade sem a igualdade torna-se aristocrático privilégio de uns quantos.”

A liberdade não é uma dádiva, nem uma concessão: “Eu considero que uma liberdade dependente de poder discricionário do Governo não é uma verdadeira liberdade; fica à mercê do poder.”

Entendo que a liberdade exige a possibilidade da propriedade: “Defendemos a propriedade privada, na medida em que impõe o respeito da pessoa.” Mas não chega: “Em nome da mesma pessoa combatemos os abusos da propriedade, a concentração da riqueza, o domínio do poder económico.”

Não há “crescimento” económico numa sociedade fora do contexto das liberdades: “Adoptando-se o modelo de desenvolvimento capitalista sem instituições democráticas, sem liberdade política, caminharemos para um despotismo violento que nem por ser dourado por melhores condições económicas deixará de ser menos insuportável.”

Entendo que a independência e a soberania nacional são valores que permitem o exercício da liberdade efectiva dos portugueses. Entendo que “Portugal precisa de apoio internacional generalizado e merece-o. Esse apoio, venha de onde vier, tem de respeitar a nossa independência e uma rigorosa não ingerência nos nossos assuntos.”

Entendo que o PSD não é um partido de direita, nem virado à direita, nem às claras, nem às escuras: “Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.”

Repita -se: “Nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.” E mais: “Somos um partido de esquerda não marxista e continuaremos a sê-lo.”

E mais ainda: “Somos socialistas porque somos sociais-democratas, mas somos socialistas sem subordinação a dogmas marxistas, muito menos leninistas, sem subordinação a dogmas de apropriação colectiva dos meios de produção.”
O que significa que no plano programático e da acção “é indispensável conciliar o liberalismo político com o intervencionismo social e económico”.

O PSD não é em primeiro lugar, nem em último, um partido de empresas e empresários que olham para a Economia como se não existissem trabalhadores a não ser como um “custo”: “O PPD nunca foi um partido de patrões (…) Desde o início tivemos adesão de larga camada de trabalhadores que se têm multiplicado na sua acção de implantação do partido.”

Entendo que não há paz sem justiça social e não o contrário porque: “A paz engloba a justiça social.” Sem ela toda a “estabilidade” é fictícia.

Também entendo que nos dias de hoje “A igualdade de oportunidades, independentemente dos meios de fortuna e da posição social, é cada vez mais um mito, designadamente em sectores como a saúde, a habitação e o ensino, onde tudo se degrada a um ritmo alucinante.”

Entendo que o poder político se deve sobrepor ao poder económico e não o contrário: “O que há é que impor uma disciplina de actuação do poder económico e dos investimentos, para que ele seja feito com proveito de todos nós e não apenas para os detentores desse poder.”

Não reduzo a sociedade e a política aos critérios de “eficiência” tecnocrática: “O desenvolvimento do económico e a aplicação crescente da técnica a todos os ramos geram a obsessão da eficiência.”

Entendo que uma boa política social-democrática exige ao mesmo tempo um papel activo do Estado e o combate aos seus abusos. Reconheço a necessidade do investimento público: “O Estado deverá garantir suficiente capacidade humana, técnica e financeira para poder intervir como investidor, realizando projectos de grande dimensão em sectores estratégicos da actividade económica nacional.

Sou contra o abuso fiscal: “É indispensável que o poder de compra seja também defendido pela redução dos impostos.”

Entendo que é vital haver uma reforma do Estado que não seja degradar serviços públicos e despedir funcionários ou baixar-lhes salário. “Nós vivemos num País de inutilidade pública, inutilidade pública que custa caríssimo e que afinal, agora, querem que continue a proliferar, obrigando os particulares a suportar todo o peso da crise económica.”

Entendo por isso que “o que não posso, porque não tenho esse direito, é calar-me, seja sob que pretexto for”. Se isto é ser, nos dias de hoje, radical, sou radical.

Estou bem acompanhado no meu radicalismo visto que todas as frases entre aspas são de Francisco Sá Carneiro. Como ele, não tenho feitio para vítima, por muitas campanhas que se façam. Como ele “nunca me senti tão sozinho e nunca tive tanta certeza de estar tão certo”. Certo estava, sozinho é que não.

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6 pensamentos sobre “Eu radical me confesso

  1. Não há ideias novas PORQUE os problemas são os mesmos, criados pelos mesmos abutres que como dizia em seu tempo José Afonso, comem tudo e não deixam nada !
    Partout, sur les murs, sur le sable, sur internet j’écris ton nom…LIBERTÉ. PAUL ELUARD

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    • Concordo em absoluto com o comentário de Danielle Dinis. Acrescentando porém, que se o nosso Amigo José Afonso fosse vivo, seria muito mais contundente, pois a liberdade de que tanto gostava, está ameaçada pelos novos abutres…ou, com o desgosto emigraria…ou, certamente suicidar-se-ia…

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  2. Aprecio os novos arrimos de Pacheco Pereira.É um intelectual respeitável.Discordo totalmente que este PSD seja de esquerda ou sequer de centro-esquerda.Já de há muito que o não é.

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