AS LISTAS DO PS

(Carlos Reis, in Facebook, 21/07/2015)

Carlos Reis

             Carlos Reis

Comecemos precisamente pelos chavões da “renovação” e da “abertura” descritos pelas centrais de comunicação dos partidos do “arco da governação” para vender justificações a metro aos jornais. Comecemos precisamente pelas listas de candidatos a Deputados do PS que se andaram estes dias a cozinhar e que serão amanhã ou depois apresentadas como um manifesto de autoridade política de António Costa (se este vetar nomes propostos que lhe desagradam) ou de unidade e de consenso e de mobilização partidária (se António Costa engolir tudo o que os caciques locais do PS lhe apresentarem).

Geralmente só damos atenção aos cabeças de lista e a um ou outro episódio mais mediático. Até porque as listas comportam mais de 200 nomes, divididos por 18 listas, e geralmente temos mais de fazer do que dar atenção ao choro de desamparo de futuros enrascados como Galamba (o Galamba feio, o António) ou como o Laranjeiro do Tó Zé, ou os queixumes do camarada da concelhia de Santarém, de Guimarães, ou de Alguidares de Cima.

Mas a elaboração das listas é um teste decisivo de qualquer líder partidário com a possibilidade de ser Primeiro Ministro. Pela afirmação da sua capacidade (ou incapacidade) de impor uma determinada linha política, ou para nós cidadãos, de sabermos se vive no nosso mundo real, ou se está capturado numa bolha, refém de interesses, tutelado pelo aparelho.

É esse o desafio de António Costa esta semana.

E é um desafio interessante e exemplar pois o que já sabemos de algumas listas do PS que lhe são propostas pelo partido é um filme que oscila entre a comédia e o filme de terror para adolescentes.

A lista de Coimbra é a esse respeito exemplar: é indicado para ser reconduzido um actual deputado indiciado pelo crime de falsificação continuada de documentos, e cujo pedido de levantamento de imunidade, já chegou inclusive ao Parlamento, devendo ser analisado em comissão. Aliás esse deputado deve o seu cargo apenas a uma coisa: martelar e falsificar eleições internas. Mas em Coimbra as coisas não se ficam por aqui: o cacique distrital, para além de se indicar a si próprio, também consegue ainda encaixar uma sua familiar, e ainda o seu próprio sogro! São 3 pessoas da mesma família, de uma só penada, todos candidatos a representar os eleitores no Parlamento da Nação!

Por falar em deputados socialistas a braços com problemas de foro criminal, também não deixa de ser interessante e esclarecedor olhar-se para a lista de Santarém: o cacique de lá (o presidente da Federação Distrital do PS, António Gameiro) auto nomeou-se para número dois da lista por Santarém. Até aí tudo normal: quase todos os Gauleiters distritais do PS correram a enfiar-se nas listas. Mas o facto é que este também tem problemas com a Justiça: condenado em 1ª instância por abuso de confiança (advogado, terá ficado com o dinheiro de um cliente), e com um inquérito disciplinar na Ordem dos Advogados, é este o homem que se propõe depois vir a legislar, se eleito, na área da Justiça, entre outras áreas! Como é que ele justifica a sua cara de pau? Apresentou recurso da sentença – uma justificação meramente processual.

Mas em Santarém, este caso nem sequer é o único a ilustrar como a disputa pelos tachos pode ser tão pouco edificante, mesmo sórdida. Pois bem, a tropa do aparelho conseguiu correr com a Idália Serrão, que foi das poucas pessoas, que como Secretária de Estado da Reabilitação, nós cidadãos, nos podemos orgulhar de ter tido num governo do PS. Qualquer pessoa que esteja envolvida na causa das pessoas portadoras de deficiência pode dizer isso. Como deputada foi das melhores, e num meio conhecido de deputados fantasmas e que ninguém conhece, foi dos deputados mais interventivos e com menos faltas. E por quem vai ela ser substituída? Por Sónia Sanfona. O que fez esta senhora para merecer vir a substituir uma deputada trabalhadora e com mérito? Esta também foi deputada no consulado de Sócrates mas só foi conhecida nacionalmente porque em 2009 queria acumular o lugar de deputada com a candidatura à Presidência da Câmara de Alpiarça. Foi o caso Sanfona. Que foi resolvido por Sócrates e pelo PS de maneira edificante: como os eleitores de Alpiarça não a quiseram eleger e lhe deram uma derrota épica na sua terra, mas como a Sanfona não podia ficar sem emprego ou colocação, arranjou-lhe pois o lugar de Governadora Civil. Depois chegou o Governo de Pedro Passos Coelho e acabou com isso dos Governos Civis. E a ex-Governadora Sanfona requereu o subsídio de “reintegração profissional”. Reintegração essa, que pese o subsídio milionário pago pelos contribuintes, não deve ter sido muito bem sucedida, pois aí vem de novo Sanfona candidatar-se a servir a Nação.

Parece ser uma maldição dos contribuintes portugueses: nunca se poderem livrar da Sanfona!

Mas continuando na lista de Santarém, e já no lugar indicado a seguir, ainda podemos ver o exemplar típico da “jota”: o jovem Hugo Costa. Este “jovem”, já com 31 anos, tem como atributos fundamentais duas coisas: foi cacique na JS em Tomar, e tal como o seu conterrâneo Miguel Relvas, também ostenta com distinção o facto ser deputado municipal na cidade templária do Nabão. Para já tem onde comer: tem actualmente tacho no Grupo Parlamentar do PS como assessor, onde foi colocado pelo partido há 3 anos. Nunca trabalhou, ou desempenhou profissão. Não se lhe conhece obra, causa, ou pensamento. Um cursus honorum em progressão portanto – um dia acabará assim como o seu conterrâneo “facilitador”.

Na impossibilidade de descrever por agora mais casos, detenho-me para já por aqui: que o caso do Porto e o caso de Lisboa, pela sua importância política, merecem uma distinção aparte .

Para já António Costa tem aqui “matéria” suficiente para trabalhar. E nós todos, temos algo em que pensar.

Sejamos claros: ou António Costa põe mão no partido e se impõe ao seu aparelho, ou definitivamente poderá dizer adeus a qualquer tentativa de “renovação” e de “abertura”. Se António Costa não demonstrar que tem autoridade política no seu próprio partido como é que pretenderá vender a sua autoridade ao país? Como é que se poderá apresentar a eleições como uma alternativa forte, disposta a mudar, se não conseguir para já vetar alguns nomes que são politicamente tóxicos? Que alternativa seria essa se os caciques locais do PS provarem ter como refém o candidato a Primeiro Ministro?

Para já este processo, tão bem iniciado, com uma escolha prometedora e muito acertada de cabeças de lista, descarrilou agora completamente. Os estragos causados a si mesmo por um partido autista, durantes estas 24 horas, são muitos e são consideráveis.

Costa terá pois de escolher agora: quer mobilizar os 200 mil simpatizantes que acreditaram nele nas primárias e o levaram a liderar a Oposição, e quer apelar aos portugueses que vivem no nosso mundo real, ou quer permanecer capturado numa bolha, refém de interesses, e tutelado pelo pior do aparelho?

Os casos do Porto e de Lisboa são por isso particularmente esclarecedores.

Em ambos os casos a política partidária no seu pior. E igualmente uma traição às expectativas de mudança dos mais crentes e mais incautos.

No Porto assiste-se a uma guerra sectária feia e sem quartel. Peixeirada na rua. Roupa suja. Discussões públicas de quotas entre “seguristas” e “costistas”. Ora se Costa fosse sensato já teria dito que com ele não há quotas. Que não há segurismo sem Seguro. Já teria colocado na ordem aquele cacique José Luís Carneiro que parece apostado em tudo fazer para credibilizar, pelo seu mau exemplo, Marco António Costa e os partidos da PàF. A continuarem assim, depois não se queixem.

Facto é que no Porto, a seguir ao excelente cabeça de lista, não há renovação nenhuma. Nenhum nome entusiasmante ou novo ou mobilizador.

As indicações da Maçonaria são logo 3: Pedro Bacelar de Vasconcelos, José Magalhães e Alberto Martins. Todos paraquedistas. Nenhum do Porto. Dois deles, (Martins e Magalhães) que deixaram o Ministério da Justiça em situação miserável. Um quando foi Ministro colocou lá a família. O outro quando foi Secretário de Estado, mandou o Estado (todos nós) pagarmos obras de remodelação magnificientes no seu gabinete, para ter direito a frontão triangular e a colunas maçónicas. Para Magalhães a República só está composta se puder ser agasalhada com o barrete frísio.

Depois há um casal também em destaque. Ana Paula Vitorino, companheira de Eduardo Cabrita, avança pelo Porto, e este avança por Lisboa. Mas ambos são de Setúbal.

De resto há umas poucas promessas de renovação (Tiago Barbosa Ribeiro, uma boa aposta, por exemplo) e o resto mais do mesmo, com os mesmos caciques locais, com a mesma língua de pau.

Em Lisboa o quadro é igualmente desolador.

Sendo os cinco primeiros nomes indiscutíveis e incontornáveis (António Costa, Eduardo Ferro Rodrigues, Helena Roseta, Marcos Perestrello e Miranda Calha) o resto é deprimente. Deprimente pelo que revela de falta de reconhecimento do mérito, de lógica de aparelho, pelas lógicas de compensação, pela mera gestão de carreira. Tudo o que Costa deveria evitar.

Tirando Mário Centeno, o seu economista-chefe, e Ana Sofia Antunes, presidente da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAP), António Costa não consegue fazer entrar mais ninguém de fora da casta.

E dos regressos que se anunciam, é uma espécie de PS à moda de Breznev: Maria da Luz Rosinha, Joaquim Raposo, Edite Estrela.

Dos bons deputados e que conseguem articular um pensamento próprio, ficam apenas o Sérgio Sousa Pinto e o Pedro Delgado Alves. Não entra o João Galamba, e a Isabel Moreira, é despromovida para um imerecido 20º lugar. É que goste-se ou não do estilo destes deputados, simpatize-se ou não (e eu gosto de ambos) o facto é que foram reconhecidamente bons parlamentares.Prestigiaram a coisa pública. Enriqueceram a democracia. Destacaram-se da mediania e da mediocridade. Mas pelos vistos o mérito parlamentar não contou para nada.

Ora uma lista que tem lugar para o Miguel Coelho e para o Vitalino Canas, mas não o tem para o João Galamba, não é uma lista: é uma anedota. Estúpida, ainda por cima.

Mas o pior é a sensação de distribuição de lugares de acordo com conveniências estranhas aos eleitores: Susana Amador, Presidente da Câmara de Odivelas, trai o compromisso que assumiu com os eleitores de Odivelas, para se enfiar agora, à socapa dos odivelenses, numa lista de deputados. E Graça Fonseca, Vereadora com pelouros de enorme responsabilidade que lhe estão atribuídos em Lisboa, vira assim as costas aos alfacinhas para se promover agora a deputada da Nação.

As autarquias, as Câmaras, as Juntas, para esta gente são meros poisos ou escadotes?

E é esta a promessa de regeneração do PS? Se assim for, estamos pois conversados.

4 pensamentos sobre “AS LISTAS DO PS

  1. Faço minhas estas palavras “Sejamos claros: ou António Costa põe mão no partido e se impõe ao seu aparelho, ou definitivamente poderá dizer adeus a qualquer tentativa de “renovação” e de “abertura”. Se António Costa não demonstrar que tem autoridade política no seu próprio partido como é que pretenderá vender a sua autoridade ao país? Como é que se poderá apresentar a eleições como uma alternativa forte, disposta a mudar, se não conseguir para já vetar alguns nomes que são politicamente tóxicos? Que alternativa seria essa se os caciques locais do PS provarem ter como refém o candidato a Primeiro Ministro?” Era altura de o PS se ver livre de Mirandas Calhas, Miguéis Coelhos, Sérgios Sousa Pintos e muitos mais, infelizmente. A limpeza impõe-se, a bem da Nação!!!

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  2. Faço minhas estas palavras “Sejamos claros: ou António Costa põe mão no partido e se impõe ao seu aparelho, ou definitivamente poderá dizer adeus a qualquer tentativa de “renovação” e de “abertura”. Se António Costa não demonstrar que tem autoridade política no seu próprio partido como é que pretenderá vender a sua autoridade ao país? Como é que se poderá apresentar a eleições como uma alternativa forte, disposta a mudar, se não conseguir para já vetar alguns nomes que são politicamente tóxicos? Que alternativa seria essa se os caciques locais do PS provarem ter como refém o candidato a Primeiro Ministro?”
    Era altura de o PS se ver livre de Mirandas Calhas, Miguéis Coelhos, Sérgios Sousa Pintos, Ascensos, e muitos mais, infelizmente. A limpeza impõe-se, a bem da Nação!!! Se isso não for feito não se credibiliza o PS. Eu, militante, me confesso….!!

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  3. Os militantes que como tal se reconhecem não têm papas na língua, e eu que ainda não tomei minha decisão para as eleições, fico com um ponto de interrogação gigante por cima da cabeça !? são todos assim ? Fogo, vou fugir…ou me abster.

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