Moral

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/07/2015)

Pacheco Pereira

                Pacheco Pereira

O tempo mostrará como a pior herança destes dias de lixo que vivemos já há vários anos será de carácter moral. Moral de moral social, cultural e política, atingida no seu cerne pela emergência de uma forma de egoísmo social que se materializa em profundas divisões entre diferentes grupos na sociedade e pela tendência de se ser egoísta olhando para o lado, para o vizinho, ou para os pais dos colegas do filho na escola, ou para o companheiro de trabalho, para a mesa do café do lado, para o que recebe mais 10 euros do que eu, em vez de se olhar para cima, para o exercício do poder e para as suas opções. Lá em cima, agradece-se.

Populismo
Este populismo egoísta, que atinge as pessoas e as nações, tem sido incentivado pelo discurso do poder e ao fortalecer um populismo que é sempre anti-sistema, isola o poder da competição democrática, estiola as alternativas e tende a perpetuar -se. São cada vez menos, mas cada vez mais poderosos.
Uma das razões de sucesso desta imoralidade triunfante é que ela fornece uma panaceia para o ego ofendido de muita gente. Convencidos de que não podem mudar nada – não há alternativa –, o vizinho serve de bode expiatório. Num país (ou numa Europa) atingido por uma anomia profunda – resultado entre outras coisas do apagamento das diferenças históricas entre uma direita de interesses e uma esquerda que de há muito soçobrou aos mesmos interesses, e refiro-me aos socialistas cujo papel na castração da acção colectiva é enorme –, o que hoje se está a dividir, dificilmente se juntará.

A sementeira do egoísmo
A sementeira deste egoísmo, de que o nosso governo foi exemplo nestes últimos quatro anos, e que a crise grega mostrou também ao nível europeu, cria divisões profundas de que as sociedades e as nações só muito dificilmente se livram. Como será a Europa quando o alvo não for a Grécia? E se for a Finlândia, ou a Itália, ou a França ou Portugal? Claro que haverá duplicidade, mas o mal já está feito.

Deixem lá estar no fundo o que não deve vir ao de cima
Os cínicos podem dizer que este egoísmo sempre esteve lá no fundo. É verdade. Mas sabendo eu que sempre esteve lá no fundo, desejaria que continuasse lá no fundo, para bem da sanidade da nossa vida colectiva e da vida em democracia. Se está lá no fundo, deixem-no estar que está bem. Lá no fundo está toda a selvajaria que o sentido cultural que deu origem à democracia não nega, mas não aceita. Que os homens são lobo dos homens sabemos bem demais, mas não convido uma alcateia a vir comer à mesa.

Nunca foi tão claro o que é uma política de interesses
Eu não gosto da facilidade classificatória da esquerda e da direita, evito usá-la, mas não lhe posso escapar porque o que tem de pouco teoricamente rigoroso tem de facilidade descritiva. Pois, a grande herança destes anos de poder da direita em Portugal e na Europa é este espírito egoísta da divisão, entre velhos e novos (talvez a mais escandalosa), entre empregados e desempregados, entre trabalhadores do Estado e do privado, entre ricos e pobres, entre “piegas” e submissos, entre indignados e colaboracionistas, entre nações que têm dinheiro e nações que precisam dele. Nunca foi tão claro o que é uma política de interesses. Nunca foi tão clara a diferença entre cidadão e servo. A isto Marx chamava “luta de classes”. A direita ressuscitou-o com esplendor para arregimentar as suas tropas.

Tratado de Versalhes
O único paralelo que conheço para o que está a ser feito aos gregos é Versalhes e as reparações impostas à Alemanha em 1919. A democracia de Weimar sempre foi frágil porque a situação social do povo alemão era um terreno propício a todos os radicalismos e comunistas e nazis exploraram isso até aos limites. Os nazis ganharam entre outras coisas porque o acordo imposto aos alemães no final da guerra implicava que a indústria alemã trabalhava para pagar as reparações, principalmente aos franceses. Nós também cá tivemos uma parte em locomotivas e em guindastes nos portos. Os nazis ganharam porque parte da Alemanha foi ocupada e as potências ocupantes extorquiram o máximo que puderam.

Um país ocupado
Se o acordo tão celebrado for adiante, o que ainda está longe de ser certo, a Alemanha e gente como Dijsselbloem vão governar a Grécia contra os gregos, a partir de Bruxelas, Frankfurt e Berlim. Não custa imaginar como o Syriza virá a ser lembrado como exemplo de moderação, face à nova extrema-esquerda que irá surgir. E a extrema-direita grega, uma das mais virulentas da Europa, não precisa de mudar, basta-lhe crescer.

Os alemães e os seus gnomos podem vingar-se, como estão a vingar-se, do “não” grego, mas os europeus genuínos sabem que o mal está feito e vai muito para além do que está a acontecer à Grécia. O projecto europeu morreu.

4 pensamentos sobre “Moral

  1. Eu acho que o JPP está a ver curto e cinzento. Isto não é um problema de direita ou esquerda mas antes do centro. E se calhar até é perigosamente idealista invez de egoísta. Acho altamente provável que estejamos a ser empurrados, numa estratégia de tudo ou nada, para uma solução federalista, inviabilizando qualquer gestão corrente da actual situação onde, por incapacidade do modelo, a Alemanha acaba por se impor, causando o medo e a aversão aos restantes estados membros. Esta explicação tem a seu favor o facto de ser coerente com a forma como temos vindo a caminhar, pelo menos desde Maastricht e da moeda única e que culminou numa enorme derrota no coração da união, quando a França e a Holanda chumbaram o tratado, dito constitucional. Não sei quem são os verdadeiros europeus, se o das nações ou os da União mas sei que estamos mais perto de clarificar isto e este massacre da Grécia e sobretudo de uma opção fora do centro é uma demonstração de força clara. Por mim vou resistir mas há razões de parte a parte e não são apenas invejas dos 10€ do vizinho…

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  2. Belo texto com fina analise. Infelizmente, para todos os europeus, não vai demorar muito a haver uma desagregação real da Europa com todas as más consequências que daí advirão. “oxalá” eu me engane.

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  3. Quem é este Sr.??? É o Dr. Pacheco Pereira bom historiador mas péssimo economista militante das esquerdas radicais, desde o MRPP, UDP, LCI etc. ou um quadro do PPD/PSD onde posteriormente aderiu e já teve cargos importantes ??? Não consigo descortinar no tal texto o que pretende para a Europa. Não diz uma única vez que quem pede emprestado TEM DE PAGAR por isso deduzo que volta ao antigo slogan do PCP – os ricos que paguem a crise – mas…onde estão os ricos portugueses??? Será que vai mandar prender 2 dos mais ricos portugueses de Portugal – Cristiano Ronaldo/José Mourinho ou criar uma tabela de impostos especiais para eles??? ah!!! mas NÂO PODE dada a UNIVERSALIDADE dada pela Constituíção que ele ajudou a produzir mas que não deixa ser alterada. Enfim o DR. JPP no sec. XXI ainda fala da alemanha pós 2ª guerra misturando tratados feitos em tempo de guerra e compensações obrigatorias com os atuais tratados na europa em tempo de PAZ. O Dr. JPP esquece um principio básico que a uma ação corresponde sempre uma reação. Atiçam-se as esquerdas radicais e caviar contra o poder e as democracias e depois ficam muito preocupadas por nas direitas aumentarem os adeptos. Portugal só irá prá frente se acabarem as INVEJAS politicas dentro dos partidos que amam no seu amago PORTUGAL primeiro e acima de todos os outros paízes, seja Alemanha-Grécia-Cuba-USA-Rússia-China-Coreia do Norte, etc.

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    • Você nem sequer sabe a árvore genealógica da esquerda. Confunde tudo: LCI com MRPP, MRPP com etc, que para si também deve ser um partido de esquerda. Nem sequer conseguiu dizer o partido de esquerda ao qual o JPP pertenceu. Enfim, incultura histórica e política. Sobre o texto: não o percebeu, ou pelo menos não demonstrou que o tenha percebido. Tenho pena do JPP. Ninguém consegue discutir os textos dele. Apenas se limitam a ataca-lo pela suposta incongruência do seu passado político. Sobre as dívidas, são de facto para pagar. Mesmo que a realidade prove que não é possível. Quando tal sucede você e outros carrascos voltam à lei da barbárie. Se não pode pagar com dobrões ou libras paga com sangue. Não deve haver devedores insolventes e vivos. Devem ser lapidados (não sei se sabe o significado, e ainda pensa que estou a falar de diamantes), para que não sejam mau exemplo para outros devedores.

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