As vitórias de faz de conta do palhaço Zelensky e dos comentadeiros de serviço

(In Canal do Youtube de Gazeta do Mundo, 14/08/2024)

O vídeo abaixo – que nunca passaria nas nossas televisões – desmonta a farsa que nos está a ser vendida pela propaganda ocidental, que não se importa de sacrificar as vidas dos soldados e de civis, além de milhões em equipamento militar, para que o lobby armamentista prospere vendendo outro, mais recente e mortífero. Mas, talvez a verdadeira e principal razão para a incursão ucraniana na região de Kursk, seja a que é apresentada num texto de Dimitri Orlov (ver aqui a versão em espanhol): especulação com o preço do gaz no mercado mundial…

Seja como for, as loas dos embasbacados comentadores de serviço aos sucessos da Ucrânia, não tem pernas para andar. Não passam, algumas delas, de montagens filmadas, ainda por cima rascas e sem qualidade.

Estátua de Sal, 15/08/2024

A NATO quer a guerra

(Jeffrey D. Sachs, In Outras Palavras, 15-07-2024)

Em Washington, aliança militar liderada pelos EUA assumiu o giro contra a China, a ampliação do conflito na Ucrânia e o sonho hegemonista dos neocons. O que era arrogância, em 1992, converte-se num delírio muito perigoso. Por quê?


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Em 1992, o excepcionalismo da política externa dos EUA tornou-se ainda mais intenso. Os EUA sempre se consideraram uma nação extraordinária, destinada à liderança, e o fim da União Soviética em dezembro de 1991 convenceu um grupo de ideólogos politicamente comprometidos – que vieram a ser conhecidos como neoconservadores ou neocons – de que o país deveria agora governar o mundo como a única superpotência incontestável. Apesar dos inúmeros desastres da política externa conduzida pelos neoconservadores, a Declaração da OTAN de 2024 continua a promover a agenda desse pequeno grupo, o que leva o mundo para mais perto de uma guerra nuclear.

Os neoconservadores foram originalmente liderados por Richard (“Dick”) Cheney, que era secretário de Defesa em 1992. Todos os presidentes desde então – Clinton, Bush, Obama, Trump e Biden – seguiram a agenda neocon da hegemonia dos EUA, levando Washington a guerras eletivas perpétuas, entre elas as da Sérvia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia, bem como a expansão implacável da OTAN para o leste, apesar de uma promessa clara feita pelos EUA e pela Alemanha ao presidente soviético Mikhail Gorbachev, em 1990, de que a OTAN não se moveria um centímetro nesse rumo.

A ideia central dos neoconservadores é que os EUA devem ter domínio militar, financeiro, econômico e político sobre qualquer rival em potencial, em qualquer parte do mundo. Ela é direcionada especialmente a potências rivais como a China e a Rússia e, portanto, coloca os EUA em confronto direto com elas. A arrogância norte-americana é impressionante: a maior parte do mundo não quer ser liderada pelos EUA, muito menos por um Estado norte-americano claramente movido pelo militarismo, elitismo e ganância.

O plano neocon para o domínio militar dos EUA foi explicitado no Projeto para um Novo Século Americano. Inclui a expansão incessante da OTAN para o leste e sua transformação: de uma aliança defensiva contra a extinta União Soviética em uma aliança ofensiva voltada a promover a hegemonia dos EUA. A indústria armamentista dos EUA é o principal financiador e apoiador político dos neoconservadores. Ela liderou o lobby para a ampliação da OTAN para o leste a partir da década de 1990. Joe Biden tem sido um neocon convicto desde o início – primeiro como senador, depois como vice-presidente e agora como presidente.

Para alcançar a hegemonia, os planos neocon baseiam-se em operações de mudança de regime da CIA; guerras eletivas lideradas pelos EUA; bases militares dos EUA no exterior (atualmente são cerca de 750, em pelo menos 80 países); militarização de tecnologias avançadas (guerra biológica, inteligência artificial, computação quântica etc.); e uso incansável da guerra de informações.

A busca pela hegemonia dos EUA levou a uma guerra aberta na Ucrânia entre as duas maiores potências nucleares do mundo, a Rússia e os Estados Unidos. A guerra na Ucrânia foi provocada pela determinação incontida dos EUA de expandir a OTAN para a Ucrânia, apesar da fervorosa oposição da Rússia, bem como pela participação dos EUA no violento golpe de Maidan (fevereiro de 2014), que derrubou um governo neutro, e pelo enfraquecimento, pelos EUA, do acordo de Minsk II, que garantia autonomia para as regiões etnicamente russas do leste da Ucrânia.

A Declaração de 2024 considera a OTAN uma aliança defensiva, mas os fatos dizem o contrário. A OTAN envolve-se repetidamente em operações ofensivas, inclusive de mudança de regime. A OTAN liderou o bombardeio da Sérvia para dividir essa nação em duas partes, tendo estabelecido uma importante base militar na região separatista de Kosovo. A OTAN tem desempenhado um papel importante em muitas guerras eletivas dos EUA. Os bombardeios da OTAN na Líbia foram usados para derrubar o governo de Moammar Qaddafi.

A busca dos EUA pela hegemonia, que era arrogante e insensata em 1992, é absolutamente ilusória hoje, uma vez que o país claramente enfrenta rivais formidáveis, capazes de competir com os ele no campo de batalha, na implantação de armas nucleares e no desenvolvimento e implantação de tecnologias avançadas. O PIB da China é hoje cerca de 30% maior do que o dos EUA quando medido a preços internacionais, e a China é a produtora e fornecedora mundial de baixo custo de muitas tecnologias verdes essenciais — incluindo 5G, energia fotovoltaica, energia eólica, veículos elétricos, energia nuclear modular e outras. A produtividade da China tornou-se tão grande que os EUA reclamam do “excesso de capacidade” chinês.

Infelizmente, e de forma alarmante, a declaração da OTAN repete as ilusões dos neoconservadores.

A Declaração declara falsamente que “a Rússia é a única responsável por sua guerra de agressão contra a Ucrânia”, apesar das provocações dos EUA que levaram à eclosão da guerra em 2014.

A Declaração da OTAN reafirma o Artigo 10 do Tratado de Washington, segundo o qual a expansão da aliança para o leste não é da conta da Rússia. No entanto, os EUA nunca aceitariam que a Rússia ou a China estabelecessem uma base militar na fronteira dos EUA (por exemplo, no México), como os EUA declararam pela primeira vez na Doutrina Monroe em 1823 e têm reafirmado seguidamente desde então.

A Declaração de 2024 reafirma o compromisso da OTAN com as tecnologias de biodefesa, apesar das crescentes evidências de que os gastos dos EUA com biodefesa nos chamados Institutos Nacionais de Saúde(NIH) financiaram a criação em laboratório do vírus que pode ter causado a pandemia de Covid-19.

A Declaração da OTAN proclama a intenção de continuar a instalar mísseis antibalísticos Aegis (como já se fez na Polônia, Romênia e Turquia), apesar de a retirada dos EUA do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (ABM) e a instalação de mísseis Aegis na Polônia e na Romênia terem desestabilizado profundamente a arquitetura de controle de armas nucleares.

A Declaração da OTAN não expressa nenhum interesse em uma paz negociada para a Ucrânia.

A Declaração de 2024 reforça o “caminho irreversível da Ucrânia para a plena integração euro-atlântica, incluindo a adesão à OTAN”. No entanto, a Rússia nunca aceitará a adesão da Ucrânia à OTAN, e portanto trata-se de um compromisso “irreversível” com a guerra.

Washington Post relata que, na preparação para a cúpula da OTAN, o presidente Joe Biden tinha sérias dúvidas sobre a promessa de um “caminho irreversível” para a adesão da Ucrânia à OTAN, mas seus assessores ignoraram essas preocupações.

Os neoconservadores criaram inúmeros desastres para os EUA e para o mundo, inclusive várias guerras fracassadas, um acúmulo maciço da dívida pública norte-americana impulsionado por trilhões de dólares de gastos militares desnecessários com guerras e o confronto cada vez mais perigoso com a China, a Rússia, o Irã e outros. Os neoconservadores levaram o Relógio do Juízo Final (da guerra nuclear) a apenas 90 segundos para a meia-noite, em comparação com 17 minutos em 1992.

Para o bem da sua segurança e da paz mundial, os EUA devem abandonar imediatamente a busca neocon pela hegemonia em favor da diplomacia e da coexistência pacífica.

Fonte aqui.


JEFFREY D. SACHS

Jeffrey D. Sachs é Professor da Universidade de Columbia, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e Presidente da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele atuou como conselheiro de três secretários-gerais da ONU e atualmente atua como advogado dos ODS sob o secretário-geral António Guterres.

Morrer em Kiev ou desaparecer em Gaza

(Tiago Franco, in Facebook, 12/07/2024)

Não sei se sabem onde fica Khan Yunis e por isso recorro ao amigo Google para ilustrar. Como podem verificar, fica ali naquela zona sul de Gaza para onde a populacão foi aconselhada a procurar “refúgio”, durante o período em que o exército israelita tratava da saúde ao Hamas.

Há poucos dias uma escola em Khan Yunis foi atingida por um míssil, enquanto uns miúdos jogavam à bola e outros ocupantes (a escola estava transformada em abrigo) assistiam. Morreram 31 pessoas, entre mulheres e crianças, e outros 50 ficaram feridos.

Não houve discussão sobre o autor do ataque, dúvidas ou sequer desculpas de última hora. Israel disse, apenas, que usou um míssil de alta precisão para matar um importante alvo do Hamas. Matou 31 e feriu mais de 50, para acertar em 1. Agora imaginem se não fosse de alta precisão.

Aqui do nosso lado, no famoso Ocidente, tudo bem. Pouca discussão, nenhuma condenação e obviamente sem solidariedade que se apalpe. Como nos diz Helena Ferro Gouveia, a culpa das mortes em Gaza é exclusivamente do Hamas. E aqui entre nós, mesmo que não fosse, quem é que quer saber de árabes que andam a morrer há décadas? Aquilo é gente que só está bem a rebentar, como nos diria um gato que já foi fedorento.

É aliás caricato culpar o Hamas pelo genocídio em curso na faixa de Gaza. Foi o Hamas que construiu muros, meteu palestinianos numa prisão a céu aberto e os humilhou, durante décadas, em gaiolas e revistas, só para poderem ir trabalhar. Andamos, aqui no Oeste (selvagem), a desculpar as atrocidades contra palestinianos que se arrastam desde o século passado. Quando a resposta dos povos ocupados aparece em formato de guerrilha (não podem ter outro dada a desproporção de meios), passamos a culpá-los por não aceitarem apenas morrer em silêncio.

Não vos dá, por um segundo que seja, vergonha de serem representados por uma retórica hipócrita e desonesta?

Em Kiev um hospital foi atacado por um míssil. Morreram duas pessoas (adultos) e ficaram outros 16 feridos (7 crianças). Ao contrário da nossa Helena, eu acho aborrecido morrer e não faco esse aborrecimento depender da zona geográfica em que acontece a morte. E também não separo mortes por credos, etnias, cor da pele ou quantidade de cachos no cabelo. Lamento a morte de um homem num hospital de Kiev, de um miúdo em Gaza, de um soldado das IDF ou de um russo no Donbass. São os pobres que dão o corpo, militar ou civil, para enriquecerem as elites, os senhores da guerra e os interesses corporativos das Nações.

Depois do míssil ter aterrado no hospital, seguiram-se dias de absoluta condenação e discussões nas mais altas instâncias (ONU, por exemplo). Os representantes ucranianos mostraram a rota do míssil para provar que era russo e os russos, por seu lado, rejeitaram as acusações, dizendo que se tivesse sido um míssil deles, o hospital tinha ficado todo no chão. O alvo, segundo os russos, era uma fábrica de armamento ali ao lado e o que atingiu o hospital foi um da defesa antiaérea.

Não faço ideia quem diz a verdade e sei ainda menos se existe verdade sequer. Morreram pessoas e é esse o problema. É essa a consequência de quando queremos perpetuar uma guerra. Pessoas morrem.

Eu entendo pouco de mísseis e, como tal, fui ouvir quem sabe da coisa. Dizem os entendidos que o KH-101 (o tal míssil que afirmam ter caído no hospital) é uma coisa com quase 8 metros, tem umas asas e quando bate não pede licença. Em princípio não deveria ser muito difícil apresentar destroços de um projétil com 8 metros mas, segundo o que vou lendo, ainda não apareceu.

Ainda assim, esta discussão é, na minha opinião, estéril. Já passámos por isto na central de Zaporíjia, em Mariupol, no NordStream 2 e até no avião da Malásia Airlines. A primeira vítima de uma guerra é a verdade e eu não espero que de um lado venham as virtudes e, do outro, os defeitos. É uma guerra e, no seu curso, não existem bons e maus. Quem vê isso (ainda) assim, como diria Miguel Tiago, andou a aprender história no Rambo III.

O que realmente me importa discutir aqui são os valores do Ocidente e como a UE, que nos representa, se mete nisto. Se morrem 2 pessoas num hospital de Kiev, o discurso inflama-se e até a NATO começa a apertar com os chineses. Já se um hospital é arrasado em Gaza ou se uns putos, perto de Rafah, levam com um míssil enquanto jogam à bola…são os danos colaterais. Lembrem-se que “nós” cantámos vitória quando Israel matou 300 pessoas para libertar 4.

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, como é que vidas podem ter valores tão diferentes e a solidariedade com povos invadidos pode ser tão distante.

Na Ucrânia enfrentam-se dois exércitos, um deles patrocinados por todos nós. Mesmo todos nós, querendo ou não. Em Gaza enfrentam-se um exército e um bando de gajos com rockets e motas Famel. No primeiro caso o mundo para e faz tudo para segurar o invasor. No segundo, bom, o invasor só se está a defender contra um exército que não existe e um povo que eles próprios prenderam.

Em Kiev morrem pessoas, gente que existe e com quem todos nos preocupamos. Em Gaza desaparecem seres humanos sem nome que, quanto muito, vão ser relembrados em forma de número, no gráfico das mortes.

Se isto não é a mais simples, básica e cristalina, definição de racismo, então não sei o que será.


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