Um festival de “jabardices” e hipocrisia na Queima das Fitas

(Pacheco Pereira, in Público, 11/05/2019)

Vale a pena ir ao Jornal de Notícias e ao PÚBLICO para ver em detalhe o festival de “jabardices” que são as festas das Queimas das Fitas. Neste caso é a do Porto, mas todas as outras, em particular a de Coimbra, são iguais. A Queima das Fitas é um evento da praxe, está associado à mesma cultura estudantil das “jabardices” da praxe.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Em vários casos ligados à praxe, nos últimos anos, houve de tudo, violações, vandalismo, todos os abusos do catálogo, feridos e mortos. Não é um exclusivo português. Casos muito semelhantes aos que agora geraram mais este escândalo sazonal são comuns, por exemplo, nas “fraternidades” americanas.

No escândalo deste ano encontram-se os ingredientes habituais: bebida, droga, sexo e vídeos. Há um outro ingrediente que devia ser colocado a par destes: negócio. Na verdade circula muito dinheiro na praxe e na Queima, e dirigentes académicos e os seus amigos ganham bastante nestes dias. Há nepotismo, colaboração com empresas de bebidas, venda de publicidade, há mil e um negócios que nunca foram escrutinados. Já para não falar dos negócios ilegais como tráfico de droga que também tem aqui muitos fornecedores e muitos clientes.

Negócio, bebida, droga, sexo e vídeos como pano de fundo das “jabardices” naturais numa cultura do vazio e voyeurismo, que vai muito para além dos estudantes. Tudo isto conta com uma enorme complacência da sociedade, que só tem paralelo com a violência organizada das claques de futebol, trazidas por uma operação militar-policial para os estádios como um bando de mastins que precisam de açaimo. A sociedade, a começar pelos paizinhos e mãezinhas dos meninos e das meninas, fecha os olhos para este festival de abusos da praxe, que faz explodir qualquer lista de causas “politicamente correctas”.

O que é interessante é ver o habitual cortejo de intelectuais que explicam as claques, os carnavais e as saturnálias como uma natural catarse social, mas ao mesmo tempo se preocupam muito com a violência de género, com o racismo, com o sexismo, etc. Meus caros amigos, tirem daí o sentido: não há futebol sem violência, não há Queima nem praxe sem sexismo nem violência de género. Está inscrito no ADN da coisa. Se querem acabar com um têm que acabar com o outro. E convém não esquecer que ambos são um bom negócio.

Mas há pior e mais socialmente perverso. O pior é a hipocrisia gigantesca que acompanha os eventos dos escândalos: este ano, a circulação de uns vídeos na rede de raparigas alcoolizadas ou não a exibirem-se sexualmente para ganhar uns shots numas barracas. As barracas estão lá desde o início, as tabelas de actos por shot também, e duvido que, se não fossem os vídeos – tão inevitáveis hoje como a lei da gravidade –,​ não haveria escândalo. Houve por isso, diz pomposa a Federação Académica do Porto (FAP), que não sabe que estas coisas acontecem no seu quintal, “atentados à dignidade da pessoa humana”.

O comunicado da FAP e alguns comentários de especialistas são exemplos desta gigantesca hipocrisia. Diz a FAP que encerrou “temporariamente” três barracas por promoverem condutas que não são “os valores que estão imputados à Queima das Fitas do Porto”. Deixem-me rir. A FAP depois resvala, está aliás mais preocupada com os vídeos que lhe estragaram a festa do que com os actos: “Depois de observar a captação de imagens de comportamentos indevidos (na sua grande maioria até mesmo indignos)”, a FAP decidiu ainda “proibir que tais situações continuem a acontecer” e decidiu que “todas as barraquinhas que o fizerem serão devidamente sancionadas”.

E fez um acordo para haver um Ponto Lilás onde vão estar pessoas de diferentes organizações, prontas a “prevenir situações de violência sexual”, gerido por um conjunto de organizações muito típicas da galáxia “politicamente correcta”: Kosmicare, o Sexism Free Night, Uni+, Eir Porto e Associação Plano i. Isto chama-se fazer o mal e depois a caramunha, ou seja, dar para os dois peditórios antagónicos ao mesmo tempo.

Se os actos do escândalo sazonal deste ano fossem individuais – cada um faz o que quer desde que não incomode os outros –,​ não vou rasgar as vestes da moral. Querem beber, f… e exibir-se, para outros ganharem dinheiro, muito bem. Mas façam-no longe dos locais públicos e sem dinheiro público, e não obriguem os contribuintes a pagar os custos dos excessos.

Agora não me venham com a propaganda do “valor” deste tipo de actividades colectivas, porque sendo colectivas são uma questão social, económica, cultural e política. E aqui não está em causa qualquer moralismo, mas a defesa de alguma sanidade pública que as democracias e a liberdade precisam.


Os pinguins das praxes

(Pacheco Pereira, in Sábado, 07/10/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Se há coisa que me enfurece, e poucas coisas cabem nessa categoria, é a praxe. É ver dezenas e centenas de estudantes capitaneados por uns grupos vestidos entre o padre e o pinguim, armados de colheres de pau, a pastorear um rebanho de caloiros felizes da vida a serem humilhados na praça pública.

Se querem melhor exemplo de que não há teorias teleológicas da história, em que existe uma seta do tempo que vai de trás para a frente, do passado atrasado para o futuro progressista, a praxe é um deles.

Ainda há pouco tempo, as universidades de Lisboa e do Porto tinham os seus estudantes limpos da farda de pinguim, que era uma coisa que havia em Coimbra e não abonava muito à ideia de que a sua universidade era moderna, em vez de provinciana e retrógrada. Agora como uma praga de gafanhotos, ou melhor pinguins, estende-se por todo o lado. Sim, de facto, a história não anda para a frente.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Eu sei que há gente que gosta de lamber o chão e praticar umas coisas entre o escatológico e o puramente imbecil, mas já há uns anos sugeri que o fizessem no recato de um campo fechado, fora dos olhares das pessoas que gostam de ter o olhar limpo da fauna dos pinguins, mesmo reconhecendo que esta classificação é injusta para os pinguins lá no seu lugar gelado.

A praxe, já o sabemos, é perigosa. Já morreu gente. E deveria ser ainda mais perigosa para as carreiras futuras de quem se presta a estas iniquidades. Se tivesse uma empresa que recrutasse jovens universitários, nem que fosse para servir à mesa, ou responder a telefonemas, perguntava sempre:
“Foi praxado/a?
Fui, fui e gostei muito.
Então vá procurar emprego noutro sítio que aqui empregam-se pessoas que tem respeito por si próprias.”


Fernando Fernandes e a morta Livraria Leitura

A morte de Fernando Fernandes era esperada, como se não pudesse sobreviver muito à também já morta Livraria Leitura. Conheci-o bem, nos muitos anos em que frequentei a Leitura, ou seja toda a minha vida adulta, que era sem dúvida nos seus períodos áureos a melhor livraria do Porto. Era um tempo em que se lia mais ou se se quiser de forma diferente do que se lê hoje. Ele, como todos os bons livreiros, não só sabia o que tinha, como conhecia os seus frequentadores e indicava-lhes as novidades que lhes poderiam interessar.

Era também um período em que se liam livros na Universidade e o Fernando tinha o hábito de comprar sempre em duplicado os livros que os professores encomendavam para eles, constituindo assim um acervo na livraria pouco comum. E por muito que as encomendas na Amazon possam ter muita eficácia, há uma coisa que livreiros e donos de livrarias devem meter na cabeça como um prego: não é a mesma coisa ver uma banca com livros e passear o olhar e a carteira ou o cartão de crédito sobre eles e “folhear” uma lista de “se comprou este deve gostar de ter este” em linha.
O Fernando Fernandes doou o seu corpo ao Instituto de Anatomia Patológica, para ser lido pelos estudantes como um livro muito especial. Estes homens, desta época, tinham demasiada têmpera para os costumes ligeiros de hoje.


Uma entrevista a Aznavour

Isto parece uma necrologia, agora com a morte de Charles Aznavour, que conheci pessoalmente. No tempo em que os animais falavam, fiz uma série de entrevistas para o jornal do meu Liceu Alexandre Herculano, algumas com o meu amigo Santos Carvalho, e uma delas foi com Aznavour, numa ida que este fez ao Porto nos anos 60. Devem imaginar o grau de intimidação e de atrevimento que significava uns estudantes do Liceu irem fazer perguntas a um cantor que estava então no apogeu da sua fama.

Mas Aznavour recebeu-nos no Hotel Infante Sagres, o mais luxuoso do Porto, com cadeiras de veludo e cortinados pesados, entre lustres e pratas, e esteve ali quase uma hora literalmente a aturar-nos. Nem quero reler a entrevista publicada, mas deve ter sido um chorrilho de perguntas banais, a que ele respondia com aquela voz magnífica. Nunca me esqueci que ele nos disse o seu verdadeiro nome armeno Shahnour Varinag Aznavourian, e nunca mais referi o seu nome sem me lembrar de que era Aznavourian, e que isso remetia para uma longa história, como todas as longas histórias demasiado trágica.

A imbecilidade da praxe e necessidade de quarentena dos seus praticantes

(José Pacheco Pereira, in 16/09/2017)

JPP

Pacheco Pereira

As autarquias deviam tratar as praxes como um problema de saúde pública.


“O caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado”; “não é um ser racional”; “não goza de qualquer direito”.

Manual de Sobrevivência do Caloiro


Aqui vai pois a fúria.

Há momentos em que se percebe muito bem por que razão este país não anda para a frente e um desses momentos é quando se traz para as ruas o espectáculo da praxe. As universidades, salvo raras e honrosas excepções, não a proíbem dentro das suas instalações, e, quando a escorraçam para os espaços públicos, as autarquias deviam tratá-las como um problema de saúde pública que exige uma forma qualquer de quarentena. Não o fazem. É por isso que não andamos para a frente.

As autarquias permitem que milhares de cidadãos sejam insultados pelo espectáculo da imbecilidade colectiva que se passa nos jardins e nas ruas. Aliás, o que se passa não é diferente do pastoreio das claques de futebol pela polícia de choque, em que um exército excitado e violento ameaça entrar em guerra com o exército do lado. Os espaços públicos pertencem ao público, a todos nós, não podem ser apropriados por actividades violentas e as praxes são um espectáculo de violência da estupidez. E a estupidez até pode matar, mas, mesmo que não mate, magoa a cabeça, o pensamento, a razão, a decência e boa educação. É por isso que não andamos para a frente.

Em muitos sítios não se pode fumar, ter atitudes “indecentes”, provocar os outros passeantes, mas, se forem os meninos e meninas da praxe, está tudo bem.

Mas não está. Se se quer permitir as praxes — o que para mim está bem fora das escolas e das ruas —, ao menos que se proceda com medidas de sanidade pública, como seja atribuir-lhes uns locais vedados, cercados por altos muros, os curros das praças de touros, ou os lotes vazios da selva urbana, os sítios poluídos onde ninguém quer ir, os matadouros abandonados, as fábricas em ruínas, aqueles cenários dos filmes de terror. Aí, se quiserem, podem dedicar-se a rastejar pelo chão, a lamber coisas inomináveis, a fazerem genuflexões “servis” como mandam os manuais da praxe. É por isso que não andamos para a frente.

Quem tem também muitas responsabilidades são os paizinhos e as mãezinhas dos dois lados da praxe, os que mandam e os seus servos, certamente também porque muitos deles andaram já nessas andanças e pelos vistos gostaram. Claro, quando as coisas correm mal, e já correram muito mal, então protestam, mas já é tarde de mais. Eu sei bem que muitos dos praxados e praxantes já são jovens adultos, sem estarem sujeitos à autoridade paternal, mas presumo que continuam a viver com as mamãs, e à custa dos progenitores, pelo que leverage existe — mas, como tudo neste infeliz país destes dias, não é exercido. Não é exercido pelas autoridades académicas que, quando muito, olham para o lado para não verem o nojo de tão baixa função em tão alta universitas, cheia de dignidade latina e de indignidade humana. É por isso que não andamos para a frente.

Não há nada de bom nas praxes, por muito que haja uma escola de sociólogos e antropólogos que aceitam sempre justificar tudo com o fabuloso argumento dos ritos de passagem e da “integração”. Mas, em bom rigor, o que é que distingue estas exibições de autoridade do segundo ano sobre os caloiros do consentimento social da violência doméstica? E afirmam que estas brincadeiras imbecis ajudam os meninos e meninas a “integrarem-se” nas universidades. Estou mesmo a ver os praxados a correrem para os livros no dia seguinte ao fim das semanas da praxe, já muito “integrados” em todas as virtudes dos altos estudos. É por isso que não andamos para a frente.

Tenho muita honra em ter toda a vida combatido estas imbecilidades socialmente perigosas, algumas vezes de forma, digamos, mais consequente. Não conto desistir e talvez assim assegure um lugar no paraíso e possa ver, da minha branca nuvem, as actividades dos diabos. Porque de uma coisa eu tenho a certeza — para entrar no Inferno há praxes, para “integrar” os malditos no exercício da autoridade diabólica, humilhando-os fazendo-os rebolar na lama sulfurosa do Inferno. Boa praxe!