Os pinguins das praxes

(Pacheco Pereira, in Sábado, 07/10/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Se há coisa que me enfurece, e poucas coisas cabem nessa categoria, é a praxe. É ver dezenas e centenas de estudantes capitaneados por uns grupos vestidos entre o padre e o pinguim, armados de colheres de pau, a pastorear um rebanho de caloiros felizes da vida a serem humilhados na praça pública.

Se querem melhor exemplo de que não há teorias teleológicas da história, em que existe uma seta do tempo que vai de trás para a frente, do passado atrasado para o futuro progressista, a praxe é um deles.

Ainda há pouco tempo, as universidades de Lisboa e do Porto tinham os seus estudantes limpos da farda de pinguim, que era uma coisa que havia em Coimbra e não abonava muito à ideia de que a sua universidade era moderna, em vez de provinciana e retrógrada. Agora como uma praga de gafanhotos, ou melhor pinguins, estende-se por todo o lado. Sim, de facto, a história não anda para a frente.

Ilustração Susana Villar
Ilustração Susana Villar

Eu sei que há gente que gosta de lamber o chão e praticar umas coisas entre o escatológico e o puramente imbecil, mas já há uns anos sugeri que o fizessem no recato de um campo fechado, fora dos olhares das pessoas que gostam de ter o olhar limpo da fauna dos pinguins, mesmo reconhecendo que esta classificação é injusta para os pinguins lá no seu lugar gelado.

A praxe, já o sabemos, é perigosa. Já morreu gente. E deveria ser ainda mais perigosa para as carreiras futuras de quem se presta a estas iniquidades. Se tivesse uma empresa que recrutasse jovens universitários, nem que fosse para servir à mesa, ou responder a telefonemas, perguntava sempre:
“Foi praxado/a?
Fui, fui e gostei muito.
Então vá procurar emprego noutro sítio que aqui empregam-se pessoas que tem respeito por si próprias.”


Fernando Fernandes e a morta Livraria Leitura

A morte de Fernando Fernandes era esperada, como se não pudesse sobreviver muito à também já morta Livraria Leitura. Conheci-o bem, nos muitos anos em que frequentei a Leitura, ou seja toda a minha vida adulta, que era sem dúvida nos seus períodos áureos a melhor livraria do Porto. Era um tempo em que se lia mais ou se se quiser de forma diferente do que se lê hoje. Ele, como todos os bons livreiros, não só sabia o que tinha, como conhecia os seus frequentadores e indicava-lhes as novidades que lhes poderiam interessar.

Era também um período em que se liam livros na Universidade e o Fernando tinha o hábito de comprar sempre em duplicado os livros que os professores encomendavam para eles, constituindo assim um acervo na livraria pouco comum. E por muito que as encomendas na Amazon possam ter muita eficácia, há uma coisa que livreiros e donos de livrarias devem meter na cabeça como um prego: não é a mesma coisa ver uma banca com livros e passear o olhar e a carteira ou o cartão de crédito sobre eles e “folhear” uma lista de “se comprou este deve gostar de ter este” em linha.
O Fernando Fernandes doou o seu corpo ao Instituto de Anatomia Patológica, para ser lido pelos estudantes como um livro muito especial. Estes homens, desta época, tinham demasiada têmpera para os costumes ligeiros de hoje.


Uma entrevista a Aznavour

Isto parece uma necrologia, agora com a morte de Charles Aznavour, que conheci pessoalmente. No tempo em que os animais falavam, fiz uma série de entrevistas para o jornal do meu Liceu Alexandre Herculano, algumas com o meu amigo Santos Carvalho, e uma delas foi com Aznavour, numa ida que este fez ao Porto nos anos 60. Devem imaginar o grau de intimidação e de atrevimento que significava uns estudantes do Liceu irem fazer perguntas a um cantor que estava então no apogeu da sua fama.

Mas Aznavour recebeu-nos no Hotel Infante Sagres, o mais luxuoso do Porto, com cadeiras de veludo e cortinados pesados, entre lustres e pratas, e esteve ali quase uma hora literalmente a aturar-nos. Nem quero reler a entrevista publicada, mas deve ter sido um chorrilho de perguntas banais, a que ele respondia com aquela voz magnífica. Nunca me esqueci que ele nos disse o seu verdadeiro nome armeno Shahnour Varinag Aznavourian, e nunca mais referi o seu nome sem me lembrar de que era Aznavourian, e que isso remetia para uma longa história, como todas as longas histórias demasiado trágica.

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